domingo, 4 de abril de 2010

"Todo-o-mundo", Philip Roth (Dom Quixote)

Conheço mal a obra de Philip Roth. Todo-o-mundo não me desiludiu, lê-se num fôlego só, mas quando o fechamos sentimos um travo amargo por todo o corpo. O livro trata da decadência do corpo e da proximidade da morte. É uma história narrada na terceira pessoa - ele - que vai convivendo com perdas físicas irrecuperáveis a que se associam problemas, sobretudo do coração, que o obrigam a internamentos frequentes. A doença, a proximidade da morte causada quer pela sua doença, quer pela doença e morte de conhecidos, leva-o a recordar a sua infância, a família - pais e irmão - a morte dos pais, os seus três casamentos falhados, a relação difícil e culpada com os filhos do seu primeiro casamento e a ligação que mantém com a filha, única âncora afectiva da sua velhice.
Todos estes elementos estão logo presentes na abertura do livro, que se inicia com o seu funeral.
A dada altura, num funeral, encontramos este diálogo que sintetiza o livro e que nos persegue durante e após a sua leitura:
"- Sabe por que é que ela está nessa choradeira?
- Acho que sei - sussurrou ele em resposta, pensando:"É porque isto é para ela o que é para toda a gente. É porque a intensidade mais perturbadora da vida é a morte. É porque a morte é tão injusta. É porque depois de uma pessoa ter saboreado a vida, a morte nem sequer parece natural. Eu tinha pensado - secretamente tinha a certeza disso - que a vida continuava para sempre."
- Pois está enganado - disse o homem sem rodeios, como se lhe tivesse lido os pensamentos. É sempre assim. É assim há cinquenta anos - acrescentou com um franzir de cenho impiedoso. - É assim porque já não tem dezoito anos.
"

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