domingo, 16 de maio de 2010

Eleitos e escolhidos, Mário Castrim

Mais uma crónica do Mário Castrim, publicada no Diário de Lisboa, sob o título Lisboa, verbo amar:
Aquele meu amigo disse que por acaso conhecia uma história de amor passada em Lisboa.
E vai, contou.
"Era uma vez eu. Andava aí pelos quarenta anos. Tinha exactamente quarenta e dois, para ser exacto em tudo.
"Nesse tempo, já eu fazia a inspecção das sucursais. Vinha de regresso a Lisboa, de comboio, em primeira classe. Saía do bolso à companhia, entendes...
"No compartimento viajava apenas uma senhora. Desculpa não te dizer como era ela. Dir-te-ei que era doce, calma, tranquilizante como um Valium 10. Perguntei: "Posso fumar?" "Pois como não"respondeu. Palavras que me chegaram ao coração como um foguete de três respostas de mel.
"Duas pessoas só, acabam por não suportar o silêncio. Os trópicos estoiram.O que duas almas podem conversar, rapaz!Antes do dilúvio, quando rebentaram as comportas do céu devia ser assim.
"Sabíamos de cor Camilo Pessanha, quando ainda só meia dúzia de opiadopoéticos falavam dele. Agarrávamos no "Monstrengo de Fernando Pessoa e era eu a dizer um verso e ela a responder com outro. Riu até às lágrimas quando lhe fiz a imitação de Villaret. Também ela estivera no recital do S. Luís.
"Ia ter com o marido a passar férias no Algarve. Uma surpresa que lhe fazia. Filhos, não tinham. Gostava dele? Muitas vezes que sim, com a cabeça em silêncio.
"Eu cá? Solteirão. Porque não casava? Sabe-se lá...Não gostava de ter um filho? Muito. Todos os homens gostam.
-"Desde novo que até já tenho nome para lhe dar.
-"Qual é?
-"Luís Vaz.
-"A sério? Não me diga que o seu amor à poesia vai a esse ponto.
-"Vai.
-"Já ninguém se chama assim...
"Como nasce a trovoada?
Por um relâmpago. Quando ela me agarrou na mão e a apertou ao seio, já o relâmpago viera muito antes. E depois os beijos, os abraços, a sábia linguagem das mãos, toda a ciência desagua por um delta de cinco dedos. Mas nenhuma tempestade percebes? Tudo nela era calmo, como uma poça de água da chuva a reflectir as casas, as nuvens, os pássaros. No túnel do Rossio propôs-me ficar em Lisboa nessa noite.
"Escolhi, por mais perto, uma pensão ali aos restauradores. Um terceiro andar tranquilo.Ela aconchegou a gola do casaco até ao nariz.
"Foi uma noite em directo, com breves apeadeiros para dormir.Ela entrava no jogo com o encanto refreado de princesa cheia de fome que toca as iguarias com a ponta dos dedos. Apenas de madrugada, afrouxadas as rédeas da consciência, explodiu. Uma espécie de erupção solar que fez estremecer a pensão, os Restauradores, a Outra Banda. Após o que se lamentou, afagando-me o braço:
-"Eu não queria.
-"Porquê?
"Encolheu os ombros. Mas a seguir jogou sempre no pleno. Como o outro que diz: perdido por um, perdido por cem...
"Seguiu para o Algarve no comboio das oito. Nunca mais a vi.
"Passados dois meses, ao ler o jornal, depara-se-me um grande anúncio. "Companheiro viagem Lisboa-Porto paragem Restauradores. Vai chamar-se Luís Vaz. Obrigada."
Aqui tens a história.
- Mas ó Abreu - perguntei - onde está o amor? Você amava-a? Ela amava-o? Onde está o amor?
- És muito novo, meu caro - respondeu ele.
Ia acrescentar mais qualquer coisa, mas entretanto chegara o autocarro 32. Só teve tempo de dizer com um sorriso de flor na lapela.
- Vá, vá, deixa passar um honrado pai de família...

1 comentário:

  1. Vou começar a ler alguns dos livros que aconselhas aqui! Ultimamente só tenho lido a revista sábada confesso e de jornais apenas o metro, o global e o destak (sentadinho no "meu" comboio a ler... Gosto das crónicas duma senhora do destak ( Isabel Stilwell)... anyway a proxima vez que tiver com o Diário de Lisboa na mão, vou dar uma olhadela no Sr. Castrim

    ResponderEliminar