domingo, 27 de março de 2011

"Silêncio", Shusaku Endo - (D. Quixote)

Para ler é necessário estar disponível para seguir as palavras, as histórias que nos contam, as ideias que nos transmitem. É preciso termos a disponibilidade para as ler e as seguirmos, flutuando atrás delas, e nos evadirmos da nossa vida, da nossa rotina, do nosso dia a dia.

Mas se a nossa realidade é tão pesada que nos oprime, não conseguimos a tranquilidade necessária a essa evasão. Ficamos presos à terra, amarrados pela gravidade que nos impede de voar.
Foi isso que me aconteceu durante os três últimos meses de 2010. Os livros ficavam parados, imóveis na minha mesinha de cabeceira, na sala, no sótão. E se acontecia eu pegar neles, logo os largava. As palavras amontoavam-se sem sentido. Eram apenas linhas pretas em fundo branco que se repetia página após página. Só a escrita me ajudava

Recuperei a vontade e a capacidade de ler no princípio deste ano. Coincidentemente, um grande amigo, o Pedro, mais doente então do que eu adivinhava, ofereceu-me este livro. Profundamente católico, pensei que com esta oferta me pretendia transmitir a razão das suas convicções. E julguei que iria encontrar respostas a perguntas que já não faço, mas, admito a minha disponibilidade - ou mesmo vontade - de as ouvir. Mas o livro é mesmo sobre o silêncio de Deus.

O livro apresenta-se como "Uma fascinante introspecção que questiona o silêncio de Deus perante a agonia dos que nele crêem, relatando o drama do cristianismo no Japão". A narrativa decorre no século XVII e conta-nos a história de um jovem padre jesuíta que vai para o Japão para converter os japoneses e confirmar se o seu mentor, padre Ferreira,tinha apostatado como se contava. Depois de ter chegado ao Japão e acompanhar os camponeses de uma pequena aldeia, foi denunciado, preso e torturado. Apostatou para evitar o sofrimento de camponeses japoneses presos com ele e a quem ameaçavam torturar até à morte. Terminou por viver os últimos anos da sua vida no Japão, com nome japonês e em sofrimento. Em sofrimento face ao seu percurso e isolamento,mas sobretudo pelo silêncio de Deus. O livro acaba com a frase seguinte: "Sou agora o último sacerdote neste país. O Senhor não ficará em silêncio. Mesmo admitindo que ele se mantenha calado, toda a minha vida até hoje falará dele para todo o sempre".

O Pedro morreu entretanto. Espero que Deus, em que ele acreditava, não tenha permanecido em silêncio nos seus últimos dias.



Praticamente seis anos volvidos sobre a leitura do livro vi o filme que Martin Scorsese realizou, vários anos depois de ter adquirido os direitos do mesmo. Do que me recordo do livro, penso que o filme transmite totalmente a angústia e o sofrimento porque passaram aqueles padres jesuítas no Japão, mas que a  dor maior terá sido a que resultou do silêncio de Deus.  (Quando me indignava com a violência infligida, recordei-me que justamente na mesma época, em Portugal, a Inquisição perseguia de forma igualmente implacável os judeus) 

1 comentário:

  1. Soube recentemente que há um filme português, de João Mário Grilo, também baseado neste livro e, segundo me afiançaram, de qualidade extraordinária: Os olhos da Ásia. Já consegui ver o trailer e descobrir que foi recentemente exibido mas não consegui encontrá-lo à venda, o que é pena.

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