domingo, 12 de junho de 2011

Ao cair da noite, Michael Cunningham (Gradiva Romance)

Michael Cunningham é o autor de "As horas" de que eu gostei muito, o que conjugado com a síntese da obra no verso do livro, me atraiu irresistivelmente para a sua leitura. Não me lembro de ter ouvido falar dele, ou de o encontrar numa livraria, mas a lembrança de um amigo trouxe-o até mim.
O livro retrata a vida de um casal na casa dos quarenta, com uma relação estável e tranquila e uma vida profissional intensa e interessante.
As únicas sombras que pairam sobre as suas vidas são a filha única que saiu de casa, recusando cumprir o destino que eles tinham traçado e o irmão mais novo da mulher, toxicodependente. A filha optou por trabalhar num bar e partilhar a casa com uma mulher mais velha, mantendo uma relação com os pais distante e esporádica por telefone. O irmão de Rebecca, bastante mais novo que as irmãs, aparece em casa de Peter e Rebecca lembrando o irmão de Peter que morreu jovem - provavelmente com sida -, Rebecca quando era jovem e a filha de ambos.
Embora o irmão de Rebecca negue que continue a consumir droga é surpreendido por Peter e, na sequência dessa situação, seduz Peter. Por todas as semelhanças que ele apresenta e pela possibilidade de não falhar como sente que falhou com o irmão e com a filha, Peter sente-se atraído por ele, chegando a ponderar a hipótese de abandonar o casamento e o trabalho e segui-lo.
É só então que percebe que tudo se tratou de uma jogada para evitar que ele contasse a Rebecca que o irmão voltara a drogar-se e no regresso a casa encontra a mulher também ela a questionar a relação de ambos.
O livro lê-se de um fôlego e impressiona pela fragilidade das relações e pela percepção que basta um pequeno abanão para colocar tudo em causa.
É a compaixão pelo outro, isso é tudo o que interessa? Amar, perdoar, tolerar? Não é assim tão simples. A cpacidade de gostar de outro ser humano, de imaginar como é ser outra pessoa, faz parte dos trambolhões.
Rebecca já não é Galateia, já não é Olympia. O tempo rouba-nos incessantemente; quando imploramos miserircórdia, rouba-nos ainda mais. Ali está o seu rosto fatigado. Ali está o seu rosto futuro, cavado e pálido, que se revela diariamente, um rosto que (tal como o de Peter) cada vez menos será capaz de suscitar entusiasmo (...)
E há ainda uma frase recorrente:
Seres humanos patetas. A bater num caldeirão para fazer dançar os ursos, quando poderíamos enternecer as estrelas.

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