quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Liberdade, Jonathan Franzen (D. Quixote)

    Uma crónica de Miguel Esteves Cardoso publicada recentemente (5.12.2011) no jornal Público tinha o seguinte título: "A putice livresca" e tratava da forma como saltamos despudoradamente de um livro para outro ou vamos lendo, em simultâneo, vários livros. Senti-me retratada na crónica, só que desta feita, sem culpa do livro traído e rapidamente abandonado.
    Há alguns dias atrás, encontrei o livro Liberdade pousado na mesa da sala de estar da casa do meu irmão. Um marcador ainda nas primeiras páginas revelava um leitor inicial ou pouco interessado. Comecei a folheá-lo e o meu irmão,generosamente, disse que mo emprestava se o lesse rapidamente. O que fiz.
    Deixei de lado o livro que estava a ler e comecei a ler Liberdade com o mesmo prazer e intensidade com que tinha lido Correcções.
   Apenas o tempo dirá se é o romance do ano e do século (The Guardian) ou se merece estar numa prateleira ao lado de clássicos como Guerra e paz, mas não tenho dúvidas em considerá-lo, como o Times, o principal romance sobre o quotidiano. Quotidiano americano (lá está o 11 de Setembro, a invasão do Iraque, o Bush, os Clintons....)mas, neste período de globalização, semelhante em muito à vivência quotidiana das famílias ocidentais da média burguesia.
   A protagonista principal é Patty, sendo que alguns capítulos são redigidos por ela, de forma autobiográfica, por recomendação do médico primeiro, e depois por sugestão de Richard. Patty vive num triângulo amoroso desde os tempos da universidade, dividida entre o fascínio por Richard, músico e Walter que se viria a tornar advogado. Sabia desde o início que, embora Richard lhe dedicasse os mesmos sentimentos não seria capaz de permanecer numa relação monógama e assegurar-lhe uma vida familiar estável, ao contrário de Walter que também a ama intensamente. Walter e Richard partilham desde os tempos da universidade uma imensa amizade, embora sejam seres absolutamente distintos. Patty escolhe Walter com quem casa e tem dois filhos, mas continua sempre atraída por Richard, que ama, com igual intensidade, os dois elementos do casal.
   Patty foi educada numa família da alta burguesia e tem uma vida mais equilibrada que os irmãos, provavelmente como consequência da displicência com que os pais se relacionaram com ela. Decidida a ter uma relação diferente com os filhos, opta por não trabalhar e ser mãe a tempo inteiro. Terminará por fazer outros erros com os filhos, tendo depois, grandes dificuldades de relacionamento durante a respectiva adolescência. O casamento, a amizade, a família, o mundo como pano de fundo, com os actuais problemas de guerra, terrorismo, poluição, destruição do ambiente e de espécies animais são os elementos principais deste longo livro que, apesar da dimensão, nos consegue prender desde as primeiras páginas. E provar que embora possamos ter as melhores intenções caímos nos mesmos erros e somos julgados com a mesma ferocidade com que julgamos os outros, especialmente as gerações que nos antecederam.

1 comentário:

  1. Adorei esse seu texto sobre o livro do Frazen, parabéns. Também gosto de escrever sobre os livros que leio e partilhar... é bom saber que tem mais gente assim. bjs

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