sábado, 18 de fevereiro de 2012

Bartleby, Herman Melville (Assírio e Alvim)

    Uma surpresa este livro cuja oferta, pelo Diogo, também foi um surpresa. As duas, boas surpresas.
   A história é-nos narrada pelo advogado (ou notário) que recruta Bartleby para o seu escritório, situado em Wall Street, como escrivão ou copista. Já tem a trabalhar com ele dois copistas e um moço de recados  e como as suas ocupações tinham aumentado e não estava muito satisfeito com o ambiente de trabalho, decide recrutar mais um copista.
   A entrada de Bartleby no escritório tem um efeito contrário ao pretendido. O seu silêncio, o facto de não comer e de viver no escritório (que só mais tarde é descoberto) são interpretados como uma dedicação imensa ao trabalho que é depois toldada pela recusa de fazer alguns trabalhos. A recusa é sempre idêntica (preferia não o fazer) mas definitiva e irreversível. Vai recusando algumas tarefas até que finalmente deixa de trabalhar. O comportamento de Bartleby dá origem a sentimentos distintos e gera um crescente mau-estar e inquietação. O narrador vai procurando explicações e delineando estratégias, primeiro para o convencer a desempenhar as tarefas, depois para o despedir e finalmente para que ele abandone o escritório.
   Nada resulta, nem a compreensão, nem a compaixão, nem a raiva, nem as ameaças.Decide então o narrador abandonar o escritório. Bartleby mantém-se no escritório, pelo que,a pedido dos inquilinos do prédio, é preso. 
   O narrador ainda o procura na prisão e mantendo-se o silêncio de Bartleby e a sua recusa de comer, por remorso ou compaixão, dá dinheiro ao cozinheiro da prisão para que lhe prepare refeições em condições. Bartleby recusa-se a comer e termina por morrer na prisão.
   O narrador tenta encontrar explicação para o comportamento de Bartleby no seu anterior trabalho, em que destruia as cartas com destinatários desconhecidos ou mortos.
   Há no livro uma inquietação permanente, que emana de Bartleby, da sua recusa em aceitar as regras, da sua incomunicabilidade ou talvez da incompreensão das suas atitudes.
   Percebe-se porque decorrido mais de um século sobre a sua publicação se mantém actual.

2 comentários:

  1. Este livro é muito interessante, como o Melville leva uma narrativa tão estranha dessa!? Incrível.
    Quanto ao meu livro, não pretendo publicar ele todo virtual não. Gostaria de ter o livro físico, ainda tenho esse fetiche. Vamos ver.
    bjs

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  2. Entusiasmei-me com um curso on-line, da Universidade de Brown, sobre as relações entre as pessoas e das pessoas com o mundo, através de obras literárias. Entre elas encontra-se este "conto" ou "pequeno romance". Quando mo passou para a mão, a minha mãe descreveu-o como sendo um livro estranho e disse-me para ler o comentário dela, aqui no blog (e ainda bem que não o fiz porque ela conta a história TODA!!). Não considerei o livro esquisito. Considerei-o uma história comovente sobe o sentimento de impotência que se apodera do narrador ao deparar-se com a situação de Bartleby, que não compreende e que, por mais piedade que lhe desperte, não permite que consiga descobrir uma forma de o ajudar. Considero a seguinte passagem particularmente bonita:

    «Tão verdadeiro ele é, e tão terrível também, que até certo ponto o pensamento ou o espetáculo da miséria ganha o melhor dos nossos sentimentos; mas, em certos casos especiais, para além desse limite, não. Erram quantos afirmam que tal se deve, invariavelmente, ao egoísmo inerente ao coração humano. Antes tem a origem num certo desânimo, incapaz de remediar um mal excessivo e orgânico. Para um ser sensível, a piedade é, não raras vezes, sofrimento. E quando finalmente entende que uma tal piedade não pode levar a uma efetiva ajuda, o senso comum obriga o espírito a ver-se livre dela.»

    E daí os momentos de exasperação que surgem...

    Gostei muito do livro!

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