domingo, 11 de março de 2012

O Coração é um Caçador Solitário, Carson McCullers (Editorial Presença)

    Mais um livro sugerido e emprestado pela Nélia.
    Li-o de um fôlego sem cuidar de me informar antes sobre o livro e a autora. Fiquei por isso surpreendida quando concluí a leitura e, na última página  do livro, encontrei a lista das obras e autores publicados nesta colecção (Henry Miller, Virginia Woolf, Daphne du Maurier, John dos Passos...) pois pensara tratar-se de uma obra contemporânea, o que fora reforçado pela data de edição em Portugal (2010). Carson Mc Cullers, como refere a badana, nasceu na Georgia em 1917 e este livro foi publicado em 1940, quando a autora tinha 23 anos.
    23 anos...............
    É uma obra sobre o silêncio ou, dito de outra forma, sobre a não comunicação.
   O livro começa por descrever a vida dos dois mudos que viviam na cidade e eram inseparáveis. Singer cuidava de Antanapoulos, grego, que tinha um ligeiro atraso mental. Por decisão de um familiar, Antanapoulos é internado e Singer decide mudar de casa e arrenda um quarto. Por esse quarto vão desfilando as principais personagens da história: Mick, uma jovem que sonha comprar um piano e que ouve sempre música na cabeça e vai escrevendo pequenas músicas; Dr. Copeland, médico preto, marxista, que se considerava um falhado por não ter conseguido transmitir os seus ideais aos filhos, Biff, dono do restaurante, viúvo, e que tinha uma paixão ambivalente por Mick; e Blount, recém-chegado à cidade e um sindicalista marxista convicto. A cidade é seguramente uma pequena cidade e a acção decorre na data em que o livro é escrito e publicado.
   Singer tudo faz para acolher os visitantes chegando inclusivamente a comprar um rádio para que eles ouçam música. Numa das cartas que escreve para Antanapoulos, que não sabe ler, diz: “Lembras-te das quatro pessoas de que te falei quando estive aí? Estão todos muito absorvidos. Aliás, estão tão absorvidos que é difícil conseguires visualizá-los. Quando digo “absorvidos” quero dizer que a mente deles não lhes dá descanso. Aparecem no meu quarto e falam tanto, mas tanto, que não percebo como é que uma pessoa consegue abrir e fechar a boca tantas vezes, sem ficar completamente esgotada.”
   Singer mata-se depois de saber que Antanapoulos tinha morrido e, simultaneamente mas por diferentes motivos, a vida das restantes personagens modifica-se, afastando-os da vida e dos sonhos que os mantinham tão absorvidos.

1 comentário:

  1. Ana Aguilar Francoagosto 17, 2012

    Sobre este romance de Carson McCullers, gostaria de acrescentar que a primeira edição em língua portuguesa data de 1958 (Ed.Cor). Foi traduzido pelo escritor português José Rodrigues Miguéis. Também ele se sentiu tocado pela obra, tendo escrito o prefácio intitulado "Carson McCullers ou a Vitória da Comunicação", título sugestivo, atendendo ao sentimento de solidão em torno do qual o romance parece desenrolar-se.

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