Prémio Nobel da Literatura 2017

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Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


domingo, 24 de junho de 2012

Descascando a cebola, Gunter Grass (Casa das Letras)


    O Pedro Valente ofereceu-me este livro há alguns anos. Iniciei e interrompi a sua leitura algumas vezes. Não sei se tinha a ver com o tema, com a narração, um pouco errática, de quem vai descascando a cebola e encontrando, camada após camada, recordações.
    A imagem da cebola é interessante pois como diz o autor tem muitas camadas. Só ao descascá-la fala verdade. Cortada, provoca lágrimas.
    E esta é verdadeiramente a surpresa: a narração não tem tristeza, nem lágrimas. Talvez apenas estupefacção para a forma como o autor, então jovem, conviveu com este período da história alemã, com a guerra dentro e fora das fronteiras e com o regime nazi ("e de questionar o meu comportamento em determinadas situações").
    O livro assumido como um acto de exorcismo, ao fim de muitos anos, e que segundo se diz provocou a indignação geral de muitos leitores, é, a meu ver, e enquanto tal, um acto falhado.
    Não me custa compreender/aceitar que um jovem desta geração, convivendo com pais preocupados com a sua subsistência diária e que não questionavam o regime, sentisse o fascínio da guerra e o entusiasmo pela sua participação, levando-o a alistar-se voluntariamente. Não procura desculpas, assumindo a responsabilidade pela sua participação e quer dissociar-se daqueles que na qualidade de enganados e deslumbrados, contabilizavam circunstâncias atenuantes, faziam-se despercebidos e atribuíam uns aos outros ignorância pela medida grande. Mas não compreendo como é que se limita a dedicar algumas linhas ao confronto com os campos de concentração, cuja existência aos militares alemães é comprovada através de fotografias e da visita a um campo, acompanhados por oficiais americanos, encarregues de os reeducar, e que suscita sérias dúvidas aos militares alemães. Fala também e apenas de passagem dos julgamentos de Nuremberga.
   De resto, é um livro autobiográfico, que marca a transição da juventude para a maturidade do autor, e que decorre numa Europa profundamente marcada pela guerra, mas ansiando por se refazer.
    Não sei se o autor procurou questionar o comportamento enquanto jovem ou, não se eximindo à responsabilidade, apenas conciliar-se com esse período da sua vida.

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