quarta-feira, 6 de março de 2013

Os enamoramentos, Javier Marías (Editora Objectiva)

   Queria um livro pelo qual me apaixonasse e ao ver Os enamoramentos, não resisti. Não sei se a culpa foi da capa ou do resumo do livro na contracapa... Trouxe-o para casa e imediatamente destronou todos os outros que aguardam pacientemente para ser lidos na minha mesinha de cabeceira. Enamorei-me perdidamente pela história, pelas personagens femininas, pela escrita. Bastou o primeiro parágrafo: A última vez que vi Miguel Desvern ou Deverne foi também a última vez que a mulher, Luísa, o viu, o que não deixou de ser esquisito e porventura injusto, visto que ela era isso mesmo, sua mulher, e eu, em contrapartida, era uma desconhecida e nunca tinha trocado uma palavra com ele.
   Não vou contar a história porque não quero tirar o prazer de a descobrir através da sua leitura. Por isso só posso dizer que é um livro sobre a vida, o luto, a morte e a irreversibilidade da morte. E sobre a forma como a sofremos e como refazemos a vida e nos refazemos, não admitindo o regresso dos mortos ainda que tal fosse possível.
   E é também um livro sobre enamoramentos. E é também um livro sobre a dúvida. E é também um livro sobre livros, dado que a protagonista, Maria, trabalha numa editora. Mas é um livro em que entram outros livros, como O Coronel Chabert, de Honoré de Balzac e Os três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas.
A história é entremeada de reflexões que se prolongam mesmo após termos virado a última página.
Não resisti a roubar algumas frases:
   É outro dos inconvenientes de ser vitimado por uma desgraça: em quem a sofre os efeitos duram muito mais do que dura a paciência dos que se mostram dispostos a ouvi-lo e a acompanhá-lo, a incondicionalidade nunca é muito longa e tinge-se de monotonia.
   ...qualquer desdita tem uma data de caducidade social, que ninguém está disponível para a contemplação do desgosto, que esse espectáculo só é tolerável durante uma breve temporada, enquanto nele ainda existe comoção e dilaceração e uma certa possibilidade de protagonismo para os que olham e assistem, que se sentem imprescindíveis, salvadores, úteis.
    Uma palavra final para a capa que é belíssima e que é da responsabilidade da Groove Design.

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