Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


domingo, 12 de maio de 2013

Author, Author - David Lodge (Secker & Warburg)

   Diariamente, no comboio entre Paço de Arcos e Santos, encontro amigos, antigos e novos, e os 15 minutos da viagem passam rapidamente em conversa, entre política e livros. Com a Sofia, a conversa é sobretudo sobre livros. Recentemente, falou-me sobre o último livro de David Lodge que tinha lido e, a pretexto de jogarmos Mahjong, encontrámo-nos em casa dela e trouxe o livro de empréstimo.
   Devo confessar que arrastei o livro mais do que devia e ele merece, mas, admito que a sua leitura em inglês possa ter contribuído para tal.
   O livro é sobre a carreira e a vida de Henry James, que, enquanto escritor, conheceu altos e baixos absolutamente surpreendentes, por opção não casou e, tanto quanto é dito, evita qualquer contacto sexual ou mesmo afectivo. Mantém uma amizade forte com Du Maurier (avô de Daphne Du Maurier) ilustrador, amizade que se estende à sua família, permitindo-lhe uma vivência familiar regular. Por volta de 1880, ambos sentem necessidade, em simultâneo, de alterar as respetivas vidas profissionais, Du Maurier porque sentia uma progressiva perda de visão do único olho são e Henry devido à fraca receção dos seus últimos livros. O primeiro decide escrever romances e o segundo decide escrever peças teatrais. Du Maurier conhece um sucesso absolutamente inesperado e quase opressivo, enquanto Henry falha de uma forma dolorosa, pois quando chamado ao palco (Author, Author) é assobiado e apupado.
   Ao longo da vida de Henry vamo-nos cruzando com outras personagens  literárias, algumas que perduraram mais ou menos no tempo mas que, em regra, conheceram em vida maior sucesso e reconhecimento que Henry James. Por isso, sendo um livro sobre o escritor Henry James, é essencialmente um livro sobre escritores e livros e uma longa interrogação, sem resposta, sobre o que é um bom livro.
   Curiosamente, os livros de Henry revelam-se um falhanço comercial nos EUA, onde as técnicas de promoção são então mais evidentes que no velho continente.  Henry James indigna-se mesmo com o conceito de Best seller (eu detesto esse americanismo, porque confunde qualidade com quantidade numa única palavra).

Penso que o livro se detém em passagens intermináveis e descrições pormenorizadas, justamente do período em que Henry James se dedicou a escrever peças teatrais e a acompanhar a sua encenação, mas apesar disso, o seu interesse e atualidade resultam justamente do autor e da perenidade das suas obras que, então e paradoxalmente, não conheceram o mesmo sucesso.

Curiosamente, li no ipsilon, de sexta-feira, 19 de abril de 2013, uma crónica de António Guerreiro com o título "O que é um escritor?" que incorpora porventura uma explicação para esta questão: "Ora, esta convivência pacífica com a heteronomia (e já não com a exigência de autonomia literária), esta boa consciência no tráfico da figura pública do escritor, faz com que o (José Luís) Peixoto e todos os seus companheiros  (ansiosos também por se verem em mupis de rua) nada tenha que ver com o que dantes se chamava "escritor", para quem a escrita começa quando o Autor entra no seu desparecimento, na sua própria morte."

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