terça-feira, 4 de junho de 2013

Madrugada suja, Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor SA)


  O Joaquim ofereceu-me este livro de surpresa. Comecei a lê-lo de imediato e, devo confessar, que o li compulsivamente. A leitura compulsiva não evita porém que sintamos alguma deceção.
   O livro, anunciado como romance, parece escrito por diferentes mãos, como se pode ver nestes excertos:
   Porque hoje eu sei que só morrem verdadeiramente aqueles que, depois de mortos, nós conseguimos matar também. E nada é pior do que um morto vivo, habitando lado a lado com os que não morreram e tiveram a coragem de tentar viver para além da morte dos que amavam (pg 100).
e
   Todos estavam endividados, mas felizes: o Estado, as autarquias, os cidadãos. Todos viviam em casa própria, mas que, de facto pertencia ao banco que lhes emprestara dinheiro a 30 anos e também emprestara para as férias no Brasil, Cuba, República Dominicana, mais o carro e os brinquedos electrónicos dos filhos (pg 203).
  A 1ª parte, A aldeia, corresponde à escrita mais romanceada e às personagens com maior densidade, como se o passado ou a nostalgia associada à vida nas aldeias, hoje, em regra, desertas, assim o exigissem. Na 2ª parte, O mundo, encontramos a escrita do comentador, uma escrita cínica e desiludida, num retrato devastador da sociedade portuguesa atual e dos caminhos percorridos para chegarmos ao presente. Ou, como titulou José Riço Direitinho, na crítica publicada no Ipsilon de 31 de maio, Crónica de um país sem remédio.
   Neste retrato impiedoso do nosso país, o autor vê-se confrontado com algumas dificuldades, pois tenta evitar a identificação com entidades e personagens reais, mas não deixa de surpreender que fale no autarca que trocou os comunistas, por quem foi inicialmente eleito, pelos socialistas, mas mais à frente fale no Partido Liberal.
  Mas, como disse, o livro devora-se. A viagem pelo nosso passado recente, aliada a uma estrutura policial e de suspense, obrigam-nos a ler o livro sem admitir interrupções. 
   Finalmente, não posso evitar referir que tinha de ser escrito por um homem para acreditar que uma mulher pode sonhar com um homem que participou na sua violação e assistiu ao seu atropelamento e abandono. Ainda que tivesse sido ilibado pela justiça, eticamente a atitude é inaceitável.

 

2 comentários:

  1. Parabéns, Miguel Sousa Tavares! um excelente livro que adorei, sobretudo pela presente oportunidade do conteúdo, nos dias em que vivemos...

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  2. Pedro Pinheirojulho 31, 2013

    Embora prefira de longe o equador ou rio das flores, este embora com chames mo lhe uma montagem não muito comum, acaba por transmitir também uma boa historia :)

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