quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Chalet das Cotovias, Carlos Ademar (Parsifal)

   
    Foi com pena que virei a última página deste livro. Tenho sempre algum receio dos livros que se baseiam em factos reais, em regra históricos. O fascínio que sentimos ao ler a história que dá origem ao livro, é, frequentemente, reduzido pela envolvente criada pelo autor/a. Como se houvesse receio de inventar personagens e diálogos, adicionando aos factos reais a necessária ficção que lhe dê corpo, substância e credibilidade.
    Não é o caso deste livro. Partindo de factos reais, o autor cria uma história, em que quase acreditamos, porque ficção e realidade entrelaçam-se de uma maneira tão perfeita que temos dificuldade em descobrir as fronteiras.  
    A acção decorre no início dos anos 30, em Portugal. O Estado Novo consolida as suas instituições e vai consolidando a sua acção repressiva. A sociedade (o que atualmente designaríamos de sociedade civil) é atrasada, mesquinha e cheia de preconceitos. A liberdade sentida durante a primeira república é sufocada, a nível familiar e social.
    E a emoldurar a acção, o autor tem sempre o cuidado de situar o leitor quer quanto às personagens, quer quanto ao contexto político e social em que a acção decorre (será verdade que Sarah Afonso se afastou das telas e dos pincéis por imposição de Almada Negreiros, o marido, talvez por este temer ficar a perder na comparação que porventura fizessem? - pg. 39).
    Embora goste muito da frase de Emily Dickinson com que o autor abre o livro "Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes" não me parece aplicável a um leitor nacional, pois trata-se da nossa história recente, numa geografia conhecida, mas que, também por isso, me seduziu.

    

2 comentários:

  1. Quem leu "O Homem da Carbonária" ficará com a impressão de que este, "O Chalet das Cotovias" lhe dá continuidade. Eu convenci-me disso.
    Não deixa de ser curiosa a forma encontrada pelo Carlos para finalizar um e outro; duas formas diferentes mas com sabor semelhante.

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  2. Extremamente bem escrito e arquitetado. Durante todo o desenrolar da trama permanece a questão: afinal, quem matou Luís Lencastre? Foi a irmã? Foram as "cotovias"? Foram os "faz-tudo" da PVDE? Foi o homem designado pela Empresa de Advogados? Foram os dois mendigos de SIntra? Entre o desenrolar da investigação e o aparecimento de novos potenciais assassinos, cria-se uma trama incrível em torno do homicídio, repleta de história e personagens de relevo político, durante o período pré-ditatorial em Portugal.

    «(...) a justiça é como uma dama caprichosa que nunca se sabe o que vai exigir no momento seguinte para ser feliz, num naipe infindável de possíveis minudências, muitas delas imponderáveis, havendo alturas em que nada parece ajustar-se às suas pretensões, para desespero de quem procura servi-la.»

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