sábado, 21 de dezembro de 2013

O pintor de batalhas, Arturo Pérez-Reverte (Edições Asa)

    É um livro perturbador, mas que nos impele à leitura (e como eu precisava de um, depois de começar e abandonar vários livros....).      Andrés Faulques, espanhol, fotógrafo de guerra retirado, vive numa torre isolada onde pinta um mural sobre a guerra que não estava destinado a outro público além dele próprio. Pintura de batalhas, fruto das suas memórias impressas nas fotografias que tirou durante trinta anos, mas também das visitas a museus e do estudo a que se dedicou durante anos para se dedicar à pintura daquele mural.
    Leva uma vida feita de rotinas e em completo isolamento até ao dia em que se aproxima da torre Ivo Markovic, ex-combatente croata, que ele fotografou (Você tirou uma fotografia a um soldado com quem se cruzou durante alguns segundos. Um soldado acerca do qual ignorava até o nome. E essa fotografia deu a volta ao mundo. Depois esqueceu-se do soldado anónimo e tirou outras fotografias.) A fotografia teve repercussões terríveis para o soldado, pelo que, quando acabou a guerra decidiu procurar o fotógrafo para o matar, mas, antes de o fazer, precisa que o fotógrafo saiba e compreenda algumas coisas. Pelo que iniciam um longo diálogo, sobre fotografias, sobre a vida e sobre a guerra. 
    Diálogo entre fotógrafo e fotografado ou do fotógrafo consigo próprio sobre as consequências das fotografias de guerra: Num mundo onde o horror se vende como arte, onde a arte nasce já com a pretensão de ser fotografada, onde conviver com as imagens do sofrimento não tem relação com a consciência nem com a compaixão, as fotografias de guerra não servem para nada. 
    Andrés, nas palavras de Olvido, sua mulher, nunca se propusera explicar, resolver, mudar nada. Só procurava ver o mundo na sua dimensão real, sem o verniz da falsa normalidade, pondo os dedos onde batia o pulso terrivel da vida, mesmo que os retirasse manchados de sangue.
  Mas à medida que vão falando, com o mural por fundo ou a lembrança de fotografias, vão chegando a outras conclusões: Agora sabia que nenhuma fotografia era neutra ou passiva. Todas se repercutiam no meio, nas pessoas que enquadravam.
    Algumas destas reflexões reconduzem-nos ou relembram a polémica à volta da fotografia de Kevin Carter, tirada em 1993 no Sudão e que lhe valeu o Prémio Pulitzer, bem como de outrsa fotografias sobre a guerra (questão que é também abordada e retatratada no filme The Bang Bang Club).
    As mulheres estão sempre presentes, sendo absolutamente ausentes. As mulheres de ambos já morreram. A amplificar essa presença ausente, a voz diária da mulher que acompanha os turistas no barco que passa ao pé da torre de Andrés e que Ivo desafia-o a conhecer.
     A dado passo, é dito que o homem crê ser amante de uma mulher quando na realidade é só sua testemunha.

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