sábado, 22 de fevereiro de 2014

O Outro Eu, Daphne du Maurier (Relógio d'Água)



    É curioso como as coisas se dão. Li Rebeca da Daphne du Maurier já lá vão dez anos ou mais, pela coleção Livros do Brasil. Desde essa altura que tenho sublinhado na contra capa o título da mesma autora, O Outro Eu. Faz um mês vi um filme (Scapegoat) por acaso e vi, com surpresa, que era baseado num romance de du Maurier. Imediatamente, pela história, mesmo sem saber a tradução do título para português, percebi que tinha de ser o romance que há tantos anos assinalara para ler. Pois esse romance foi recentemente re-traduzido e editado pela Relógio d’Água e li-o de um trago só. As diferenças são significativas, entre o filme e o romance e, como de costume, o romance ganha. Mas o filme também é muito giro.
    John, o narrador, é um inglês desiludido com a vida, de férias em França, cuja língua e costumes o fascinam. Para fim de viagem, tencionava passar uns dias na abadia Grande-Trappe, quando, a caminho, é confrontado com um sósia, de nome Jean. «Foi uma estranha e repentina sensação, ao mesmo tempo de medo e de repulsa», e Jean de Gué, conde de St. Gilles, leva John a jantar e beber. Falam um pouco das suas vidas, tão distintas uma da outra, mas tão angustiantes para cada um deles. E, no dia seguinte, John acorda no quarto reservado por Jean, despojado dos seus pertences, e com o motorista do conde a bater-lhe à porta do quarto para o levar para o Chateau. Sem saber o que fazer, John acaba por escolher tomar a identidade de Jean e ver como a família do conde reagiria à sua presença. A sua surpresa é tanto maior quando percebe que nem aqueles que viviam tão próximos de Jean têm a capacidade de assimilar a troca.

Não havia o direito de brincar com a vida das pessoas. (…) Jean de Gué procedera mal. Fugira da sua vida quotidiana, esquivara-se aos sentimentos que ele próprio havia provocado. Sem a sua ação sobre eles, nenhum desses membros da família teria agido como agira, nessa noite. (…) Jean de Gué fracassara. Ainda era mais falhado do que eu (…). Compreendi que ele não regressaria mais. (…) Podia fazer o que quisesse, sair daquela casa ou ficar.

    Ao assumir-se como Jean, John precisa então de decidir quem quer ser dali para a frente. 

Nenhum espião em serviço neste país dispunha de tão perfeito disfarce, de tão bela oportunidade para experimentar a fraqueza dos outros – se tal fosse o seu propósito. Qual era o meu? Ontem, conciliar. Hoje, divertir-me. E não havia razão para que os dois se mostrassem incompatíveis.

    Lutando entre as duas personalidades – a de Jean, para não ser descoberto, e a sua, para manter as suas noções de moral – John vai tomando decisões que alterarão definitivamente o percurso da família infeliz e dividida de Jean, pela qual desenvolve um grande carinho.

- Quero que sejam felizes (…). Não a felicidade como De Gué a concebe, mas a que está encerrada dentro deles e que eu descobri. (…) Ele é um demónio.
- Nesse ponto enganas-te. (…) Não é um demónio. É um homem como os outros, como tu. (…) Se fosse um demónio, (…) há muito que o teria deixado.

    É um livro muito bem escrito e que explora o eu idade na sua forma mais crua.

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