quarta-feira, 5 de março de 2014

A ponte sobre o Drina, Ivo Andric (Cavalo de ferro)

    Há já alguns anos passei alguns dias em Santo Domingo onde era com frequência interpelada sobre o meu país. Quando respondia que era de Portugal, invariavelmente era brindada com o nome de Luis Figo. Embora alheada então como agora do futebol, sempre me fascinou a forma como aproxima as pessoas e ultrapassa fronteiras.
     Uma noite, o grupo de pessoas com quem estava, foi interpelado por um individuo, obviamente embriagado, e que nos dirigiu a mesma pergunta. Quando respondemos que éramos portugueses, ele retorquiu de imediato: Fernando Pessoa.
     Fiquei surpreendida e não pude deixar de pensar que eu, como provavelmente as outras pessoas com quem estava, desconhecia o nome de qualquer poeta ou escritor dominicano que permitisse reotorquir àquele individuo que desapareceu, aos tropeções pela rua, empatando o diálogo.
    Desde então, sempre que vou a um pais, à geografia, clima, história e património, adiciono agora a procura de escritores e a leitura de livros.
    Estando previstas este ano algumas deslocações à Bósnia Herzegovina, comecei por procurar um livro que não encontrei - presumo que a edição se tenha esgotado - "Como o soldado conserta o gramofone" de Sasa Stanisic. Na Livraria do Viajante quando perguntei pelo livro, indicaram-me este "A ponte sobre o Drina" acompanhado da seguinte indicação: É um dos livros da minha vida.
    É de facto um livro fantástico, que tem como protagonista principal a ponte:
    Assim nasceu a ponte com as suas portas e assim se desenvolveu a cidade em volta dela. Depois disso, durante um período de mais de trezentos anos, o seu papel na expansão da cidade e o seu significado na vida dos seus habitantes foram similares ao que já acima descrevemos. E o significado e a substância da sua existência residiam, por assim dizer, na sua permanência. A sua linha luminosa na composição da cidade era tão inalterável como a silhueta nas montanhas no céu. O mundo mudava, gerações humanas sucediam-se, mas ela permanecia inalterável como a água que corre sob os seus arcos. Naturalmente também ela envelheceu, mas numa escala de tempo mais vasta não só do que a existência humana, mas também da duração de uma série de gerações: de tal maneira mais ampla que os olhos dos mortais não se podem aperceber deste envelhecimento. A sua vida, ainda que em si finita, assemelha-se à eternidade, pois o seu termo não é previsível.
    O livro inicia-se no século XVI, em Visegrad, na fronteira entre a Sérvia e a Bósnia. O Grão-Vizir quando criança, tinha sido separado da sua família e obrigado a atravessar o rio para o outro lado. A deixar o cristianismo e a abraçar o islamismo. Anos depois determina a construção da ponte, que acompanhamos em detalhe. Ao domínio turco segue.se a ocupação austro-húngara e depois a I Guerra Mundial. A ponte é o centro daquela cidade e dos seus habitantes. A única pena que tive foi no abandono de algumas personagens que só tansitoriamente circulam pelas páginas do livro.
     O livro acaba quando um pilar da ponte é atingido:
    Não precisava de se virar ( e por nada deste mundo o faria) para ver a cena: o pilar arrancado pela raiz como um tronco de árvore gigantesco e feito em mil pedaços, à direita e à esquerda, os arcos, brutalmente mutilados, estendendo dolorosamente os cotos um para o outro tentando unir-se através de um vazio de uns quinze metros de largura.
    Um livro extraordinário e que explica muito da realidade daquela país.

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