sexta-feira, 4 de abril de 2014

Combateremos a sombra, Lídia Jorge (Edições D. Quixote)

    Confesso que gostei tanto deste livro quanto me surpreendeu. Há muitos anos que não lia Lídia Jorge e tinha a ideia que os livros dela eram pesados e dificeis. Daqueles que reservamos para as férias, para lermos com espaço e tempo. Provavelmente tê-lo-ia apreciado mais se o tivesse lido lentamente, sentada no meu sofá. Mas é um livro irrestivel desde o início, daqueles que não conseguimos largar. Começamos a ler e ficamos presos:
    Deveríamos rir-nos da fragilidade da memória, ou pelo menos sorrirmos das artimanhas do seu esquecimento. Na verdade, passados três anos depois da passagem do Milénio, se nos perguntarem o que sucedeu durante essa noite que então tomámos por memorável, pouco mais do que a figura sideral de um fogo-de-artíficio em forma de chuva de estrelas a cair sobre o cenário de um rio nos virá à mente. E no entanto, a vida não se passou bem assim.
    Para além da escrita, ficamos reféns do enredo, porque o que pensávamos que era um romance, uma história de amor, uma história de solidão, passa rapidamente para uma história policial, para um fresco da vida atual. E sempre com o divã do psicanalista e a sua agenda a abrir-nos as portas.
     Está cá tudo: a passagem do Milénio, Lisboa, o rio, os barcos, os políticos, o casamento, os criminosos, a droga, os desajustados, os loucos....Até a escolha do cenário é perfeita, centrado em Lisboa, na zona de Santos, com a presença constante do Parlamento. 

    Curiosamente, Combateremos a Sombra, foi distinguido com o Prémio Charles Bisset 2008, atribuído pela Associação Francesa de Psiquiatria, mas essa é de facto a chave para a atração do livro, o facto de ter como protagonista um psicanalista, cuja vida se desintegra e refaz ao mesmo tempo que vai acompanhando e deslindando a mensagem dos seus doentes e dessa forma descobre o mundo escondido do crime.

Sem comentários:

Enviar um comentário