Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


terça-feira, 10 de junho de 2014

Território Comanche, Arturo Pérez-Reverte (Editorial Presença)


     Mais um livro de Arturo Pérez-Reverte, mais um livro sobre a Bósnia, sobre a guerra e sobre os repórteres de guerra. Escrito como se de um diário se tratasse, um relato dos dias da guerra naquele território da antiga Jugoslávia, em 1994. Não há aqui lados, nem bons e maus, nem certo e errado. Apenas uma guerra. Era coisa de há três anos, do tempo de Vukovar e Osijek e tudo aquilo; quando os croatas ainda eram os bons, os agredidos, e os sérvios, o único mau da fita. Agora não havia quem não tivesse levado, as valas comuns dos dois lados eram abertas e todos tinham coisas a esconder.
    Ao mesmo tempo que Márquez, o fotógrafo, aguarda a explosão da ponte, acompanhamos a guerra ali, naquele momento, e todas as que a antecederam e os repórteres que as relatam e fotografam e que integram a paisagem dos territórios comanches (quem será a Maria, a portuguesa de que fala?).
    Território comanche é o lugar onde o instinto diz para parar o carro e dar meia volta. O lugar onde os caminhos estão desertos e as casas são ruínas chamuscadas; onde sempre parece estar a anoitecer e caminhas colado às paredes, em direção aos tiros que soam ao longe, ao mesmo tempo que escutas o ruído dos teus passos sobre os vidros partidos. ... Onde não vês as espingardas, mas as espingardas vêem-te a ti.
   O horror no cenário da guerra segue a par da incompreensão dos que a não vivem e do cinismo dos políticos que circulam pelos fóruns internacionais. Incompreensão que se estende ao trabalho que fazem e que mesmo o leitor não entende (eu, pelo menos, tenho dificuldade em entender). Em muitos momentos fala-nos da felicidade e do riso do repórter ou do fotógrafo que captura o horror, o terror, a morte. Mas também fala do regresso, do reencontro de todos em cada novo cenário de guerra - embora se trate sempre da mesma guerra - num retorno incompreensível para os demais. Não procura justificar este regresso, nem explicar a guerra e as suas causas (Quase nunca tentava explicá-lo. Era repórter e, na hora de trabalhar, Deus só existe para os editorialistas. Deixava a análise para os companheiros de gravata...).
    Será possível um olhar distante da guerra, quando se é espectador e narrador?

    E não consegui acabar o livro sem me recordar de Elharuna, intérprete na Bósnia-Herzegovina, que falou sobre a guerra sem que lhe tivéssemos perguntado, e que rematou dizendo: We are all damaged people.

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