Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


sábado, 13 de setembro de 2014

Mil Sóis Resplandecentes, Khaled Hossini (Editorial Presença)

   Mil Sóis Resplandecentes é um livro que relata a vida de duas mulheres afegãs, Mariam e Laila, que, pelos malogros da vida se veem ambas casadas com um homem absolutamente primitivo.

     Mariam é filha ilegítima de um homem abastado, dono de um cinema em Herat, casado com três mulheres, e da sua antiga criada. Cresce na ânsia de agradar o pai, que idolatra, ignorando os queixumes constantes da mãe que tenta envenenar a relação da filha e do pai, dizendo que ele não passa de um mentiroso que no fundo não quer saber dela. "Sabes o que ele disse às esposas, à laia de defesa? Que eu é que o seduzi. Que a culpa era minha. Didi? Percebes? É isto que significa ser mulher neste mundo. (...) Aprende já isto e aprende bem, minha filha: assim como a agulha de uma bússola aponta para o norte, também o dedo acusador de um homem encontra sempre uma mulher. Sempre. Recorda-te disso, Mariam." 
    Ignorando os avisos da mãe de que morreria se ela a abandonasse, quando faz quinze anos desloca-se sozinha à cidade para visitar o pai - que não a recebe, deixando-a mesmo passar a noite no chão, à porta da sua casa. Quando, expulsa de manhã, regressa ao casebre pobre onde vive, descobre a mãe morta. Vai então viver com o pai, durante um período muito curto, até as mulheres dele arranjarem um marido para ela, em Cabul, que a obrigam a aceitar.

     Laila nasce numa das casas vizinhas de Mariam e do marido, Rashid, quando Mariam tem 19 anos - casada há 4. Tem uma infância relativamente feliz, ao lado do seu melhor amigo Tariq, durante o domínio soviético do Afeganistão. O pai é extremamente presente, mas a mãe é uma mulher deprimida por ter deixado ir - e, mais tarde, perder - os seus dois filhos mais velhos para a guerra. O pai de Laila não descura de todo a sua educação: "O casamento pode esperar, a educação não. Tu és uma rapariga muito, muito inteligente. Falo a sério. Podes vir a ser aquilo que quiseres, Laila. É algo que eu sei. E sei também que quando esta guerra acabar, o Afeganistão vai precisar tanto de vocês como dos seus homens, talvez ainda mai. Porque uma sociedade não tem hipótese nenhuma de progredir se as suas mulheres forem ignorantes, Laila. Hipótese nenhuma." Quando a sua casa é bombardeada, nos confrontos após a derrota dos comunistas, e os pais são mortos, Laila é recolhida por Rashid, que acaba por convencê-la a casar-se com ele.

    As duas mulheres passam a apoiar-se incondicionalmente, presas a um casamento infeliz com um homem que as maltrata, e prisioneiras da sua própria condição de mulheres durante o regime talibã que as impede de sequer saírem de casa sem a presença de homem.

    Conta atrocidades escabrosas e revoltantes e, no entanto, é um livro lindíssimo, que nos toca profundamente - comoveu-me, indignou-me e mexeu bem lá no fundo - e que não deve deixar de ser lido.

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