sábado, 10 de janeiro de 2015

Bem hajm! Apontamentos de viagem à Arménia, Vassili Grossman (D. Quixote)

    A professora de piano do meu filho mais novo é de origem arménia. Desconhecendo quase tudo sobre o seu país, pedi-lhe que me indicasse um autor para ler. Fez mais que isso, emprestou-me este livro de Vassili Grossman, ucraniano. Grossman escreveu este livro quando esteve na Arménia a rever uma tradução para russo de um romance arménio. O livro, de 1962,  terminou por não ser editado então pelos temas tratados. 
    Como o próprio nome indica, são mesmos apontamentos de viagem ou um diário de viagem. 
    Conseguimos imaginar o autor a chegar à Arménia e a surpreender-se com a paisagem (A pedra cinzento-esverdeada não se ergue em monte ou penedo, é um esparramado no terreno plaino, um campo pedregoso; o monte morreu, o seu esqueleto espalhou-se pelo campo. O tempo envelheceu e mortificou o monte, e jazem aqui os seus ossos.), a espantar-se com as pessoas (Foi surpreendente para mim: entre os arménios há muitos loiros, de olhos cinzentos, azul-claros, azul-escuros... E é dificil dizer-se o que é mais digno de admiração, se a variedade, se a constância persistente), com a riqueza de caracteres humanos e a tentar apreender o povo arménio. Como refere, Os primeiros minutos na rua de uma cidade desconhecida são momentos especiais, insubstituiveis, inapagáveis durante meses e até anos. 
    A curiosidade pelo país e pelas pessoas vai sendo satisfeita pelas viagens e pelas pessoas que vai contactando e conhecendo. Mas o livro não se esgota nesta curiosidade e, de forma genuina, o autor fala das suas vivências, desde a viagem até aos suburbios à procura de um lugar para urinar (Corri para o descampado, escondi-me no meio dos outeiros e dos buracos....Que sentimento de felicidade) até à noite em que se sente tão mal que pensa que vai morrer e para além do terror que o assola, angustia-se com a sua solidão.
    O livro é uma verdadeira pérola porque encadeia descrições da paisagem com reflexões, apontamentos históricos com pequenas histórias pessoais, gastronomia e costumes locais, mas sem nunca enfastiar. E importa referir que, ao longo do livro, o autor revela um profundo respeito pelo povo arménio (O pequeno povo começou a parecer-me um povo gigante).

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