domingo, 15 de fevereiro de 2015

A baía dos anjos, Anita Brookner (casa das letras)


  Há livros certos para alguns momentos da nossa vida ou há momentos certos para lermos alguns livros. Foi o que aconteceu com este livro, a baía dos anjos. Comprado há já alguns anos, seguramente atraída pelo título e pela leitura da contracapa, arrastava-se penosamente entre a minha mesinha de cabeceira e a estante da sala, mas persistindo sempre em chamar-me a atenção. Mais de uma vez iniciei a leitura que abandonei. Não sei explicar porquê. Desta vez, passou-se o contrário. Comecei a lê-lo e custava-me interromper a leitura que retomava sempre que podia.
    É uma reflexão profunda e íntima sobre as relações familiares e afetivas, o envelhecimento e a morte (Que coragem deve ser precisa para envelhecer!). Centrado essencialmente na relação mãe/filha(o), na dependência que existe entre ambas(os) mas também na necessidade de criar distâncias e definir um percurso de vida autónomo:
- Sim, aquele amor era uma espécie de liberdade. Tem-na com a sua mãe. Mas, como já percebeu, transforma-se em algo mais trágico. Somos obrigados a cuidar, a assumir responsabilidades, justamente na altura em que a nossa própria vida nos chama.
    O livro aborda também as relações afetivas e o desmoronar das ilusões que as rodeiam. A resignação a relações possíveis em detrimento das relações sonhadas (Sorri com irritação da minha anterior versão de um final feliz, percebi tardiamente que na literatura é infligida a todos os personagens algum tipo de provação...). Mas é neste aspecto que o livro, para mim, é menos bem sucedido, nesta resignação que assistimos primeiro na mãe e depois na filha:
Fazia-me sentir sozinha de uma maneira diferente, e nunca me acostumei a esse tipo de solidão.
- Julgava que o casamento era um remédio para a solidão.
- Também eu. (...) Tivemos uma vida agradável, é certo, mas era como entrar numa peça sem fazer uma audição. (...) E às vezes só me apetecia era sair de casa, ficar sozinha outra vez.
    O convívio da filha, Zoe, com o segundo marido da mãe, bastante mais velho que esta, coincidindo com o fim da sua relação apaixonada com Adam, podia tê-la tornado cínica ou desconfiada, mas dificilmente se compreende a sua resignação a uma relação que funciona essencialmente como um antídoto contra a solidão,  à relação possível para uma mulher que já não é uma jovem.
    É apesar de tudo, um livro fortissimo, sobre a vida, a morte, os afetos, a solidão, a tristeza, mas também a felicidade que podemos encontrar em pequenas coisas.

      A baía dos anjos, que dá o nome ao livro, é a baía onde se localiza Nice, cidade da Riviera francesa onde se desenrola parte deste romance.

1 comentário:

  1. Na verdade não sei se deveria fazer uma crítica a este livro, porque não acabei de o ler; o que consiste numa crítica por si só.
    Achei o estilo de escrita pouco literário e enfadonho; por diversas vezes li parágrafos inteiros sem reter uma única palavra.
    Surpreendentemente recebeu o Booker Prize.
    Fiquei curiosa por conhecer os critérios de atribuição do prémio. Talvez o decorrer do livro acabasse por ser melhor, mas já tinha chegado a meio sem compreender onde nos levava aquela história banal de uma mãe e de uma filha que se separam quando a mãe volta a casar. O noivo é um homem velho e aparentemente muito rico, que lhes dá a ambas uma vida bastante mais desafogada. No entanto, o casamento não parece ter qualquer tipo de sentimento; é quase contratual. E nada na história nos faz ficar agarrados ao livro, o que é pena porque a descrição inicial de Zöe (a narradora) sobre si mesma até se aplicaria muito bem a mim:

    «Demasiado racional, mesmo em criança, para acreditar numa fada madrinha, aceitava como parte do plano da natureza que, depois de uma vida inteira a varrer o chão da cozinha, acabaria por ir ao baile, que o sapatinho servia e casava com o príncipe.»

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