domingo, 22 de fevereiro de 2015

Esteiros, Soeiro Pereira Gomes (Editorial Avante)

    Esteiros. Minúsculos canais, como dedos de mão espalmada, abertos na margem do Tejo. Dedos das mãos avaras dos telhais, que roubam nateiro às águas e vidores à malta. Mãos de lama, que só o rio afoga.
    Assim é a frase de enntrada no livro de Soeiro Pereira Gomes, e assim fica feito o resumo do mesmo. Um romance que acompanha os "meninos-homens" que tiveram de abandonar a escola para pedinchar trabalho - ou submeterem-se mesmo a pedir esmola, ou roubar fruta para vender - a fim de poderem contribuir um pouco para mitigar a miséria da família.
    «O silêncio da tarde convidava a confidências. Contaram-nas. Como velhos amigos, descreveram a história das suas vidas curtas, sem história. Gaitinhas confessou a mágoa de ter renunciado à escola porque a mãe adoecera.
    (...)
    A voz de Gaitinhas era de lágrimas cristalizadas. E Gineto teve pena que ser doutor não fosse coisa que se roubasse.»
    São histórias tristes, de crianças que não o puderam ser na sua plenitude, por serem forçadas a crescer demasiado rápido. E, no entanto, são histórias cheias de esperança, resiliência e sonhos, como apenas as crianças conseguem senti-los.
    «No portal, à espera do caldo, só o sonho matava a fome. Guedelhas regressava ao campo de jogos, onde havia bolas de couro e borracha, e público numeroso que o vitoriava. Saguí fizera-se caixeiro de mercearia - a loja grande da praça - mais para comer do que para aviar. E Malesso andava a cavalo - calça justa e chapéu largo - entre manadas de toiros.»
    Maravilhosamente escrito, retratando a realidade dos trabalhadores da época - e, quiçá, de muitos ainda nos dias de hoje -, de vidas duras, de homens explorados.

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