sexta-feira, 6 de março de 2015

O retorno, Dulce Maria Cardoso (Tinta da China)


    A 1ª edição de O retorno é de 2012 pelo que já vai desaparecendo dos escaparates e dos destaques das livrarias mas, recentemente e por coincidência, várias pessoas me falaram nele. O livro trata, como o nome indica, do retorno, dos retornados como foram designados e ficaram conhecidos aqueles que após a revolução de 1974 escolheram sair das ex colónias e vir para Portugal, tivessem nascido e vivido cá ou não.
    É um livro muito bem estruturado e escrito. O narrador, Rui, é um adolescente que vive com os pais e com a irmã em Luanda. Por decisão do pai, convicto que a situação que se vive vai acalmar, permanecem em Angola mesmo quando quase todos os vizinhos e conhecidos já haviam partido. Partem depois, à pressa, sem o pai, levado por um bando que o confunde com um criminoso, o carniceiro do Grafanil.
    A chegada a Lisboa, à metrópole, é uma decepção. Segue-se a instalação temporária num hotel de cinco estrelas, perto do mar. O que parece um espaço idílico para viver transforma-se na realidade num cenário claustrofóbico em que vivem mas que não sentem como casa. A angústia por desconhecer o paradeiro do pai, a ansiedade com a doença da mãe, o medo quanto ao futuro, o desprezo a que são votados pelos outros, os que residem na metrópole, obriga-o a amadurecer. O regresso do pai, em que já não acreditava, permite-lhe recuperar o lugar de filho e adolescente.
     Tenho uma memória reduzida desta época, mas recordo-me claramente dos retornados e da forma como os víamos e senti-me por isso retratada na forma distante, receosa e mesmo discriminatória como os encarávamos. Ao mesmo tempo, a leitura deste livro colocou-me na posição do outro, que retornou a uma terra que, em muitos casos, nem sequer conhecia, sem saber como iria ser o dia seguinte.
    Um retrato acutilante do nosso país, daquele período e mesmo antes:
(...) a mãe do vosso pai teve nove filhos, nove bocas para comer e dezoito braços para trabalhar, só se deitava a conta aos braços, que às bocas podia roubar-se quase tudo, umas rodelas de cebola numa côdea de pão calavam os roncos das barrigas. Se o Victor tivesse ouvido a mãe saberia que nada nem ninguém obriga mais do que a fome e que o pai embarcou no Pátria mais obrigado do que qualquer soldado. (...)   

2 comentários:

  1. Eu adorei ler este livro. Quero cruzar-me com mais produções de Dulce Maria Cardoso. :)

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  2. Foi o primeiro livro desta autora que li, mas também quero ler outros que ela tenha publicado...

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