Prémio Nobel da Literatura 2017

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Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


domingo, 3 de maio de 2015

Madame Bovary, Gustave Flaubert (Coleção Novis)


    Conhecia o drama de Madame Bovary antes de o ler. Não me aventurei por isso a dizer "isto ainda vai acabar mal" como a jovem que estava sentada atrás de mim na estreia do filme Anna Karenina. Eu sabia como ia acabar e que ia acabar mal. Mas a história é o que menos interessa nesta obra. O que é verdadeiramente importante é a forma como a história é narrada. Depois de ler o livro, li excertos de uma edição francesa que a minha mãe tem (GF-Flammarion), e que inclui uma introdução, notas e peças do julgamento.
    Após a publicação do livro, Flaubert foi acusado e julgado por ofensa à moral pública e ofensa à moral religiosa. Curiosamente, na acusação é feita uma síntese da obra e é dito que é feita uma síntese apenas porque as pessoas poderão ler o livro por inteiro. O autor e editores são ilibados mas não deixa de ser curioso pensar na acusação por um livro atentar contra a moral e em que porventura a projecção dada à obra pelo julgamento é superior à que teria se não lhe tivesse sido submetida. A edição francesa inclui uma dedicatória ao seu advogado, dizendo Flaubert que depois de passar pelas alegações de defesa, a obra adquiriu para ele próprio uma autoridade imprevista.
     Uma nota curiosa e que é narrada na introdução é a procura da história. Flaubert corresponde-se com amigos que o aconselham a escrever sobre temas em que o lirismo se torne ridículo devido à sua tendência ao lirismo. E sugerem-lhe que escreva a história de Delaunay, aluno do seu pai. E Delaunay é Bovary. Sempre pensei que a história desse azo ao impulso da escrita e não acontecesse o contrário, querer escrever e não ter uma história para contar.
      Outro dado interessante é o facto de o autor rever sistematicamente a obra pelo que cada edição (1862, 1869 e 1873) acolhe as correcções introduzidas na versão anterior
    O livro conta já mais de 150 anos e o tempo é o maior crítico literário e sobreviver-lhe é a melhor crítica que se pode receber.
     Gostei muito de o ler. Há uma exigência e precisão na escrita que a tornam perfeita
    (...) Aliás, nada valia a pena ser procurado; tudo era ilusório! Cada sorriso escondia um bocejo de enfado, cada alegria uma maldição, cada prazer o seu fastio, e os melhores beijos apenas deixam nos lábios um irrealizável desejo de mais exaltada volúpia. (...) Mas um minuto pode conter uma infinidade de paixões, do mesmo modo que uma multidão pode caber num pequeno espaço.
    Mas a frase mais marcante do livro é a que encontramos quando Rodolphe, amante de Emma, ouve indiferente a sua declaração de amor:
    (...) era preciso dar o desconto, pensava ele, aos discursos exagerados que escondem afeições medíocres; como se a plenitude da alma não transbordasse por vezes nas metáforas mais ocas, já que jamais alguém pôde dar a exacta medida das suas necessidades, ou das suas concepções, ou das suas dores, e que a palavra humana é como um caldeirão rachado em que se batem melodias para fazer dançar os ursos, quando o que se pretendia era enternecer as estrelas.

   Não posso deixar de referir a panaceia recomendada pela mãe do Dr. Bovary para resolver os problemas manifestados por Emma, porque, em seu entender, a nora nada fazia, apenas lia romances: Resolveu-se, portanto, impedir que Emma lesse romances. 
    Os livros como desestabilizadores é-nos tão difícil de entender como a acção interposta contra Flaubert pela publicação desta obra.

1 comentário:

  1. Este é um daqueles livros de que toda a gente já ouviu falar. Ainda assim, e apesar de o ter na minha estante há tanto tempo que já nem sei quanto, nunca o tinha lido. Foi desta. E foi um ótimo início de ano.

    O livro está muito bem escrito e esta edição – para exigentes insaciáveis quanto à qualidade da tradução, como eu – estava francamente boa.

    Não foi um livro com grandes surpresas, porque já tinha uma ideia do que tratava (e de como terminava, tal como a minha mãe refere); ainda assim, gostei bastante. Gosto de livros que me despertam sentimentos; e se este livro não foi daqueles em que me senti parte integrante da história, ou em que me misturei com alguma personagem, foi bom sentir-me como espetadora daquilo que as páginas que ia passando me davam a ideia de ser um filme. Mesmo a forma como está escrito quase que pede que as palavras sejam transpostas em filme – em determinadas alturas, o leitor chega mesmo a ter acesso a informação que os personagens ainda não têm sobre uns e outros, o que não deixa de ser interessante.

    O romance conta a história de Emma Bovary, casada com Charles Bovary na expectativa de viver um grande amor, como os que lê nos livros, e de ter uma vida preenchida e interessante. Cedo se apercebe, porém, que cometeu um erro ao casar-se e que está presa a uma vida monótona e provinciana, sem qualquer perspetiva de melhoria.

    "Antes de casar, Emma julgara sentir amor; mas a felicidade que deveria resultar desse amor não aparecera, pelo que se devia ter enganado, pensava ela. Procurava agora saber o que entendia, ao certo, nesta vida, pelas palavras felicidade, paixão e êxtase, que, nos livros, lhe haviam parecido tão belas."

    "A conversação de Charles era sensaborona e rasa como um passeio da rua e nela desfilavam as ideias de toda a gente em trajo vulgar, sem excitar emoção, nem riso, nem devaneio."

    O casal muda-se para Yonville-l’Abbaye para que Emma possa mudar de ares e restabelecer-se da “doença nervosa” que acaba por desenvolver ante placidez da sua vida. Ela está grávida e acaba por dar à luz uma menina.

    E é nesta vila que a vida de Emma muda efetivamente. Conhece, enfim, o amor e a luxúria e, sentindo-se heroína equivalente às que sempre invejou nos livros, confunde o segundo com o primeiro, entregando-se às atenções que os amantes lhe vão, temporariamente, dispensando.

    "Lembrou-se então das heroínas dos livros que lera, e toda aquela lírica legião de mulheres adúlteras começou a cantar-lhe na memória, com vozes de irmãs que a seduziam. Tornava-se ela mesma agora parte autêntica dessas imaginações e realizava o longo devaneio da sua juventude, enquadrando-se naquele tipo de devaneio que tanto invejara. Além disso, Emma sentia uma satisfação de vingança. Já sofrera bastante! Mas agora triunfava, e o amor, por tanto tempo reprimido, jorrava livremente em alegre efeverscência. Saboreava-o sem remorsos, sem inquietude, sem desassossego."

    Torna-se progressivamente mais amarga e supérflua, esbanjando o que não tem mas que considera seu por direito. E nessa arrogância acaba por se afundar cada vez mais numa situação sem retorno.

    Como disse antes, não me identifiquei com nenhuma das personagens – mas reagi a elas. Particularmente a Emma Bovary, que me desperta«ou simultaneamente sentimentos de compaixão, por ser uma mulher numa época em que não existia qualquer tipo de liberdade para as mulheres, sendo obrigada a manter-se presa a um casamento infeliz e a consumir-se por isso, e de exasperação porque, como consequência, torna-se uma mulher absolutamente sufocante.

    Um clássico a não perder.

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