segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A Eterna Demanda, Pearl S. Buck (Elsinore)

    "A Eterna Demanda" é-nos dado a conhecer como o último trabalho de Pearl S. Buck, ainda incabado, cujo manuscrito foi descoberto, e recuperado, em 2012 pela família da autora. O prefácio, que é escrito pelo filho Edgar Walsh - um dos vários filhos que Pearl Buck e segundo marido, o seu editor Richard Walsh, adotaram -, guia-nos um pouco sobre a vida da autora e, sobretudo, os seus conturbados últimos anos de vida. Gostei muito de a conhecer melhor através deste prefácio.
    Edgar Walsh apresenta-nos o trabalho da mãe como "um trabalho imperfeito", referindo que a mãe "era uma perfecionista, e este livro está longe de ser perfeito. Não deixou instruções sobre o aspeto que o romance deveria ter na sua forma final". Mais refere que "todavia, para os seus leitores passados e atuais, esta obra, representa uma oportunidade única de conhecê-la realmente e de compreender os seus sentimentos e convicções".
    Foi exatamente isso que senti. Claro que, em parte, posso ter sido levada a sentir isso por causa da leitura desta nota introdutória, mas penso que é bastante clara para o leitor a perceção que Rann, ainda que um jovem rapaz, é uma projeção para o papel da própria autora, da sua incansável busca (eterna demanda) pelo seu papel no mundo e a sua insaciável  sede de conhecimento. Rann é, em grande parte - e penso não ser abusivo da minha parte afirmá-lo - a personificação do mundo interior da autora que lhe deu vida, dos seus anseios das suas preocupações, da sua visão do mundo.
    Tenho a sensação de que a vida me ensinou demasiado, até agora, e me tornou mais sábio do que eu devia ser ou desejaria ser. (...) Fica-se com medo de tanta sabedoria. Aceitar cada dia como uma página solta, para ser lida com cuidado, saboreando cada pormenor, isso para mim é o melhor, creio (...) e tenho a certeza de que me aproximarei do fim da vida com a mesma curiosidade que me importunou até agora, por todas as coisas. Talvez um dia eu olhe para trás, para essa vida inteira, como se fosse apenas uma página de toda a minha existência, e se o fizer tenho a certeza de que será com a mesma sede de saber mais... com o claro conhecimento de que há verdades cujas razões não podemos saber. Talvez esse seja o desígnio de tudo... a eterna demanda.
    A junção dos mesmos americanos e chinês é assinatura de marca da autora e está novamente bem presente neste romance:
    - Eu sou sempre direta. Acho que é a minha costela americana.
    - És muito ais americana do que julgas. Há um mundo de diferença entre tu e o teu pai.
    - Eu sei... por vezes bem demais! Mas ele não sabe.
    - Isso é por ele ser totalmente chinês.
    É, no entanto, um romance triste, que foca a fugacidade da vida, a procura incessante do nosso papel neste mundo, e temas como como a homossexualidade e a marginalização das minorias, por vezes auto-infligida. A autora tenta terminar com uma nota mais positiva, e gostei disso; no entanto, sinto o mesmo que o filho: "senti que, se ela tivesse vivido mais tempo, teria alterado algumas partes e prolongado ou alterado o final".
    De facto não foi um livro que tenha adorado, muito por sentir sempre a falta de... qualquer coisa! No fundo, existe todo um desfiar de pensamentos que carece de um fio condutor mais elaborado entre eles. Tinha bastante potencial para ser mais desenvolvido.

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