sábado, 28 de novembro de 2015

Mulheres de Cinza, Mia Couto (Caminho)


   "Mulheres de Cinza" é o Livro Um de uma trilogia moçambicana "As areias do Imperador". Fui com uma amiga ao lançamento na FNAC, em Lisboa. A poucos dias do aniversário do meu pai, fui decidida a comprar um exemplar para ele e outro para mim, autografados. A sala em que decorria o lançamento era pequena para acolher tanta gente, mesmo o écran, colocado no exterior da sala, de pouco servia, porque o vozear dos presentes impedia que ouvíssemos os intervenientes. Voltámos quando o lançamento já terminara e se formara uma fila enorme para conseguir o autógrafo do autor. Fizemos as contas distribuindo minutos pelas pessoas que se encontravam à nossa frente, receando que a espera se prolongasse por horas, mas o Mia Couto, acompanhado pelo seu editor, trocava algumas palavras com os leitores e rapidamente assinava e devolvia o livro. Saímos. Cada uma com os seus exemplares assinados.     
    O meu pai, no dia de anos, 3 de novembro, recebeu três exemplares deste livro. Ficou com o que lhe ofereci, autografado. Era uma prenda natural, dado o autor e o tema tratado. Como é dito na badana Este é o primeiro livro de uma trilogia sobre os derradeiros dias do chamado Estado de Gaza, o segundo maior império em África dirigido por um africano. Ngungunyane (ou Gungunhane como ficou conhecido pelos portugueses)....
    Conheço mal a história deste período mas sabendo que Gungunhane foi derrotado pelos portugueses e conhecendo a história apenas  pelo lado dos vencedores, pensei que iria ouvir (ler) o outro lado da história. Ignorava é que havia muitos outros lados. E que iria ouvir a história pela boca dos pobres ( A diferença entre a Guerra e a Paz é a seguinte: na Guerra, os pobres são os primeiros a serem mortos; na Paz os pobres são os primeiros a morrer.) ou dos que estão no meio, entre os que guerreiam, e só tentam sobreviver. 
    O livro está escrito a duas vozes, cada uma ocupando capítulos intercalados, Imani (que na sua língua materna quer dizer "quem é?") e o sargento Germano de Melo que fala através das cartas que redige e envia ao Conselheiro José d' Almeida. O contraste entre o mundo de ambos não impede a sua aproximação, que resulta também do isolamento em que se encontra o português e da solidão sentida por Imani.  
    A presença portuguesa assegurada por um português sozinho num entreposto e a quem os indígenas exigem proteção - os que prometem e nunca cumprem - divididos e desprotegidos no conflito que opunha os portugueses e os VaNguni - cujo chefe era o imperador Gungunhane  -  é o cenário de fundo em que assistimos à vida da família de Imani, dos seus pais e irmãos. A família está dividida pela lealdade aos dois lados, numa estratégia de sobrevivência definida pelo pai, mas cujas consequências não consegue acautelar.
    Ao longo da leitura, fui somando frases para roubar - a escolha não foi fácil, mas não podia citar o livro inteiro. Deixo apenas algumas:

 (...) Alguns de nós, humanos, temos esse mesmo destino: falecidos por dentro, e apenas mantidos pela parecença com os vivos que já fomos.
    (...)  Se permanecesse imóvel por um tempo, aconteceria o inverso daquilo que ela esperava: as letras é que começariam a olhar para ela. E iriam segredar-lhe histórias. Tudo aquilo parecem desenhos, mas dentro das letras estão vozes. Cada página é uma caixa infinita de vozes. Ao lermos não somos o olho; somos o ouvido.
(e a propósito de Portugal) Mal ele sabia da nossa pequenez, que não vem da geografia mas de um atávico estado da alma que confunde saudade com destino.
    (...) Um irmão somos nós mesmos, mas por metade.

    Fechado o livro parece-me que o único pecado é ter que aguardar pelos outros volumes e permitir que entretanto o tempo vá dissolvendo as  personagens cujas imagens se foram incrustando em mim.  

2 comentários:

  1. Uau... Fiquei mais curiosa ainda. ja li alguns livros de Mia Couto e me fascina a sua maneira de contar as hi/estorias... Assim que for para Maputo compro

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    1. Penso que será uma oportunidade excelente ler este livro em Maputo. Como digo, o único defeito é termos de aguardar pelos outros volumes. Boa viagem e boas leituras
      Ana Vargas

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