domingo, 31 de janeiro de 2016

A morte de Ivan Ilitch, Lev Tolstoi (Leya, SA)

   Nos últimos meses li várias referências a este livro. A que mais me impressionou foi a menção que lhe é feita por João Lobo Antunes numa entrevista ao Expresso (publicada a 24 de dezembro de 2015). Curiosamente, o prefácio desta edição é de António Lobo Antunes que o descreve como fazendo o retrato implacável da nossa condição: não há sentimento que nele não figure, não há emoção que não esteja presente.
    Acabei de o ler e voltei ao início, porque senti que não tinha conseguido apreendê-lo na totalidade. E lido uma segunda vez, volto a sentir o mesmo. Há um quase paradoxo entre a dimensão do livro (não chega a ter cem páginas) e a imensidão e profundidade das questões tratadas. Fala da morte, é sabido. O título denuncia-o. Mas trata  igualmente da vida, da forma como vivemos quando a morte não está nos nossos horizontes e depois, perante a morte, como se reduz e fica condicionada no tempo e no espaço.  (Não é possível que a vida seja assim tão sem sentido, tão abjecta. E se ela fosse assim tão abjecta e sem sentido, para quê então morrer, e morrer sofrendo?). De como condiciona a vida de quem está a morrer e de todos que convivem de perto. A leveza com que abordam a doença ou, pelo contrário, a angústia com que encaram o doente, o contraste que a saúde dos outros causa no doente, a percepção de que a vida continua - continuará para os outros - agrava ainda mais a sensação de solidão do moribundo que sente que a sua morte, a doença, é uma afronta para os outros.
    A morte de Ivan Ilitch descreve minuciosamente a vida dele e da sua família, a infância, as suas ambições profissionais, a sua escalada social e o casamento (Restavam apenas os raros momentos de afeição dos esposos, mas que eram breves. Eram ilhotas onde eles acostavam por algum tempo, mas depois voltavam a partir para o mar da hostilidade velada que se manifestava no alheamento um do outro.). Tudo irrelevante na altura da morte.  (Era como se descesse uma montanha imaginando que a subia.)
     A morte até aí relegada para o esquecimento, torna-se evidente (No fundo da sua alma sabia que estava a morrer, mas não só não estava acostumado a isso como simplesmente não compreendia, não podia compreender de modo algum.) e há quase uma recusa, como se pudéssemos estar isentos da mortalidade.
    A única forma de fazer justiça a este livro, seria reproduzi-lo aqui. Tudo o que disser fica aquém, mas quando acabei de o ler, pela segunda vez, pareceu-me que todas as matizes de sentimentos, tudo o que podemos sentir perante a morte, estão magistralmente mencionadas aqui. A injustiça da morte nos atingir, a dúvida sobre o que fizemos para merecer morrer, o medo, a angústia (Ainda há pouco estava aqui e agora vou para além. Para onde?), a solidão, a ausência de Deus. Até a esperança no momento da morte (Em lugar da morte havia uma luz.)
    Um livro a que irei regressar.

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