sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Contos de cães e maus lobos, Valter Hugo Mãe (Porto Editora)


  O primeiro livro de Valter Hugo Mãe que leio e não será seguramente o último. Segundo o meu amigo João, que mo ofereceu, a razão da escolha resultou de incluir um prefácio de Mia Couto. Curiosamente há, sente-se, uma afinidade entre ambos, como se a linguagem, mais que a língua, os juntasse e dificultasse a identificação de cada um. São de Valter Hugo Mãe as palavras: 
 Mãe, acho que fiquei despreocupado da lucidez. Ouço sempre um pássaro cantar. Talvez só me cure se aprender a voar. Mas podiam ser de Mia Couto.
     Depois de Um pequeno prefácio para contos gigantes, vêem os contos, antecedidos da arte de diversos artistas plásticos. E ficamos sem saber o que nasceu primeiro, se o conto, se a arte que o antecede. Se Valter Hugo Mãe olhou para os desenhos, todos a preto e branco, e partiu para a escrita ou se depois de escrever o conto o deu ao artista plástico para que o ilustrasse. Ou se ambos trabalharam separada e simultaneamente, partilhando apenas a ideia, o titulo.
    Mas a leitura destes contos deleitou-me. A leveza aparente das histórias é contrariada pela escrita, pela reflexão, até pela moral que encontramos em quase todos os finais:
    Toda a vida precisamos de estar atentos, se assim não fizermos vamos perder muito do mais importante que acontece em nosso redor (O rosto - Arte de Daniela Nunes);
     Devemos sempre lembrar que ler é esperar por melhor (Bibliotecas - Arte de Jas);
    Quem sabe esperar é dono de um tesouro (A princesa com alma de galinha - Arte de Joana Vasconcelos com Alice Vasconcelos).
     A homogeneidade do livro dificulta a escolha de um conto, mas senti-me particularmente tocada pelo conto As mais belas coisas do mundo (Arte de José Rodrigues) sobre a ligação entre uma criança e o avô. Sobre a morte, o amor e as memórias. Sobre o que fica. E opto por não roubar frase nenhuma e convidar à leitura. Se não do livro, pelo menos deste conto. Lindíssimo. Como aliás todo o livro.
    Uma palavra final para os desenhos que antecedem os contos, alguns de artistas plásticos de que nunca ouvi falar mas que irei procurar, e ainda para a cuidada edição. 

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