Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


domingo, 17 de janeiro de 2016

O homem que gostava de cães, Leonardo Padura (Porto Editora)


   Depois de ouvir várias críticas favoráveis a este autor, decidi-me a procurá-lo e lê-lo. A leitura do livro "Passado perfeito" reforçou a minha vontade de ler outros livros dele e este em especial. Sabia que o tema central era o assassinato de Trotski  no México. Mas o livro ultrapassa em muito esta questão. Não sei sequer como classificá-lo. Não nos conta apenas uma história. Conta-nos muitas histórias e, a partir delas, faz-nos o retrato impiedoso do século XX, das utopias, das ideias e dos ideais e de como se morreu (se morre) por eles. Como é referido no final do livro, Ivan (o narrador/escritor mas igualmente protagonista) representa a massa, a multidão condenada ao anonimato, e a sua personagem funciona também como metáfora de uma geração e como o resultado prosaico de uma derrota histórica.
    A estrutura do livro é curiosa: começa com o funeral de Ana, mulher de Ivan, que assume o papel de narrador. Ivan está acompanhado pelo seu amigo Daniel, e a morte de Ana ocorre pouco depois da passagem do furacão Ivan por Cuba, já em pleno século XXI. E Ivan explica que o leitor compreenderá a razão pela qual "esta história, que não é a história da sua (minha) vida embora também  o seja, começa como começa." É Ana que o desafia a escrever a história que lhe tinha confidenciado o homem com quem se encontrara algumas vezes vários anos antes e que, como ele, gostava de cães.
    E sem transição - que não seja um número a assinalar um novo capítulo - passamos a acompanhar Liev Davidovitch, Trotski, em Frunze, nas estepes geladas da Quirguízia, acompanhado da fiel mulher e do filho, a aguardar que algum país responda positivamente ao seu pedido de exílio.
    E de novo viajamos, através do tempo e do espaço, e aterramos em Espanha, em plena guerra civil, e acompanhamos Ramon Mercader, comunista, integrado num batalhão que combate o avanço dos fascistas e que se vai encontrar com sua mãe, Caridad e o seu irmão mais novo, Luís. Caridad pergunta ao filho "o que estarias disposto a fazer para derrotar o capitalismo e pelo socialismo?" e a resposta afirmativa de Ramon leva-o para longe daquela guerra. Voltamos depois a encontrar Trotski e acompanhamo-lo em Prinkipo, na Turquia, de passagem por França, Noruega e finalmente no México. E depois encontramos Ramón Mercader na URSS a ser preparado para matar Trotski.
    E vamos circulando entre estas épocas, cenários e personagens, percebendo que se irão encontrar e que os encontros irão ser determinantes nas suas vidas. E percebemos que estes homens têm mais em comum do que gostarem de cães.
    Ramon Mercader vive os últimos anos de vida em Cuba e conta a sua história a Ivan, mas é o seu amigo Daniel que, já depois da sua morte, encontra o manuscrito e decide enterrá-lo com o amigo numa caixa de cartão, cheia de merda, de ódio e de toneladas de frustração e de muito medo, irão com ele: para o céu ou para a podridão materialista da morte. Talvez para um planeta onde as verdades sejam ainda importantes.
     Vale a pena ler o livro, embora confesse o peso pesadíssimo das descrições da guerra e das execuções sucessivas de Estaline, com um detalhe que embora necessário para a compreensão do ambiente, o tornam um livro difícil.

    Curiosamente, o título do livro é o título de um conto de Raymond Chandler, publicado com outros contos, incluindo o que dava nome ao livro "O assassino à chuva". É este livro que Ivan leva consigo uma das vezes que se vai encontrar com o homem misterioso à praia.

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