quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Não matem a cotovia, Harper Lee (Publicações Europa América)

     Li este romance de Harper Lee - na sua versão mais recente, "Matarm a Cotovia", da editora Relógio D'Água - há muitos anos e lembro-me de o ter adorado. Com a publicação do segundo romance da autora (poucos meses antes do seu recente falecimento) - "Vai e põe uma sentinela", Editorial Presença - decidi relê-lo e fiquei surpreendida com vários aspetos. Em primeiro lugar, o pouco que me recordava da história. Geralmente ao relermos um livro, mesmo que não nos lembremos de todos os detalhes, há episódios ou passagens marcantes que reconhecemos. Isso praticamente não me aconteceu nesta leitura. Em segundo lugar, o facto de não ter ficado completamente enredada na história. Tenho ideia que quando li o livro pela primeira vez, fiquei completamente absorvida, o que também não aconteceu agora. Por último, a terrível tradução desta edição das Publicações Europa América. É mesmo uma tradução pobre, repleta de expressões que não se utilizam em português - e penso que também não se utilizavam em 1964 (ano de publicação). Parte da minha "não adesão" ao livro se relacionou com este aspeto, porque me levou várias vezes a estranhar as frases que lia e a desligar-me da história para avaliar a maneira como estava escrita.
    Se me recordava que era a história do julgamento de um homem negro, Tom Robinson, acusado de violar uma mulher branca, Mayella Ewell, em pleno em apartheid, não me recordava que ocupava uma porção tão pequena do romance. Porque na verdade, o livro é muito mais do que isso. Passado em Maycomb County, no Alabama, a história é contada por Scout Finch (Jean Louise Finch), filha e irmã mais nova de Atticus Finch e Jem Finch (Jeremy Finch), respetivamente, e descreve a infância das duas crianças, passada na companhia do seu amigo Dill, que tentam compreender o mundo em que vivem, uma sociedade que discrimina e divide as pessoas que a compõem com base no local em que vivem, nos estudos que têm e na cor da sua pele.

    - Não, toda a gente tem de aprender, ninguém nasce a saber. Esse Walter é esperto como os demais, o que acontece é que se atrasa às vezes porque tem de ficar em casa a ajudar o pai. Não há nada de errado com ele. Não, Jem, eu acho que só há uma espécie de pessoas: pessoas.
    (...)
     - Isso era o que eu pensava também - disse ele por fim -, quando tinha a tua idade. Se há apenas uma espécie de pessoas, porque não se podem dar bem umas com as outras? (...)

    Atticus, advogado, é designado para defender Tom Robinson, enquanto os seus filhos se debatem com os preconceitos da sociedade por causa dessa decisão ("...antes de viver com as outras pessoas, eu tenho de viver comigo mesmo. A única coisa que, para mim, não se submete à regra da maioria é a consciência de uma pessoa."). Não compreendem por que motivo o pai é chamado de "amigo dos negros" nem compreendem o que isso significa, apesar de entenderem que é uma expressão pejorativa, ou por que motivo Tom Robinson  não tinha qualquer hipótese de ser absolvido em tribunal.

    - Como puderam eles fazer isto. como puderam?
    - Não sei filho, mas fizeram. Já o fizeram antes, fizeram-no esta noite e voltarão a fazê-lo. E quando o fazem... parece que apenas as crianças choram. Boa noite.

    De relembrar que o livro ganhou o prémio Pulitzer para ficção em 1961.


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