quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Sputnik, meu amor; Haruki Murakami (Casa das Letras)

    Há uns tempos tentei ler um livro do Haruki Murakami, mas não consegui ficar interessada e (a custo) pousei-o. Agora a frequentar um curso de escrito, foi-nos dado a ler o excerto final deste romance - Sputnik, meu amor -, que é lindíssimo e, porque o livro em si foi recomendado, li-o. E gostei muito. Lê-se muito bem. É pequeno e fácil, mas está muito bem escrito e tem passagens e frases muito bonitas (a perceção é a soma dos nossos mal-entendidos).
     O narrador, K., conta a história de Sumire, uma rapariga de vinte e dois anos que conheceu na faculdade, antes de ela ter desistido dos estudos para se tornar escritora, e por quem está apaixonado. Sumire conhece Miu, cerca de 17 anos mais velha (se não estou em erro), no casamento de uma prima e apaixona-se por ela imediatamente. Nunca se tendo apaixonado, nem tão-pouco sentido qualquer tipo de desejo sexual por ninguém, Sumire vê-se totalmente arrebatada por esta paixão por uma mulher inacessível por conta de um trauma do passado.

    Aquela mulher amava Sumire, mas não sentia por ela desejo sexual. Sumire amava aquela mulher e, mais, desejava-a. Eu amava Sumire e desejava-a. Sumire gostava de mim, mas não me amava nem tão-pouco sentia desejo sexual por mim. Pela minha parte, podia sentir desejo por outras mulheres anónimas, mas não amor. Era tudo muito complicado. Mais parecia o enredo de uma peça de teatro existencialista.

    Estou apaixonada por Miu, pela que está deste lado, escusado será dizer, mas também amo a Miu que está do outro lado. Quando penso nisso, é como se sentisse um barulho - um estalo perfeitamente audível - dentro de mim, como se ficasse partida em duas, como se a divisão interior da própria Miu se tivesse apoderado de mim. Estou na presença de um sentimento esmagador e sei que não posso fazer para o contrariar.
    E, contudo, existe uma questão em aberto. Se este lado, onde Miu agora se encontra, não for o mundo real - isto é, se for, na verdade, o outro lado, qual é o meu lugar, eu que existo no mesmo plano espacial e temporal que ela?
    Quem sou eu afinal?

    Miu convida Sumire para trabalhar consigo e, pouco tempo depois, encetam uma viagem à Europa, começando por Itália, passando por França e terminando com umas breves férias numa pequena ilha Grega. É então que Sumire desaparece e Miu pede a K. que vá ter à ilha.

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