terça-feira, 15 de março de 2016

Olhos azuis, cabelo preto; Marguerite Duras (Público - Coleção Mil Folhas)

    A minha estreia com Marguerite Duras foi uma experiência que me deixou dividida. O pequeno romance é diferente, tanto em conteúdo como em formato; no entanto, está escrito de uma maneira tão bonita que, quando o terminei, me apercebi que mais de um terço das páginas tinha o canto dobrado (sinal que havia pelo menos uma frase que eu queria "roubar" daquela página) - e o livro não chega às cem páginas.
    A história passa-se entre um homem e uma mulher; a cena desenrola-se essencialmente num quarto. É-nos passada a ideia de que devemos assistir ao desenrolar do enredo como espetadores na plateia de um teatro: 

    Far-se-ia noite na sala, a peça começaria.

   A descrição do cenário, do perfume sexual, o dos móveis, do acaju escuro, deveria ser lida pelos atores no mesmo tom que usariam para contar a história. Mesmo se, ao acaso dos teatros diferentes onde a peça fosse representada, os elementos desse cenário não coincidissem com o enunciado que se dá aqui, esse enunciado continuaria a ser o mesmo.
    E esta peça começa com uma festa de verão, num hotel perto do mar. De fora, um homem vê outro homem à janela do hotel, de olhos azuis e cabelo preto. Estão próximos mas, de repente, ouve-se um grito e surge uma mulher que leva o homem da janela consigo, para fora da vista do outro que o olhava e que fica devastado.
    Mais tarde, homem e mulher encontram-se num café, sem saberem que ambos choram a perda do mesmo homem:
    Ele senta-se a uma mesa. Ela nunca o viu, e ainda mais do que ele nunca a viu a ela.
   Ela olha-o. É inevitável. Está só, é belo e está cansado de estar só, tão só e tão belo como qualquer pessoa a morrer. E chora.
    Para ela, ele é tão desconhecido como se não tivesse nascido.
   Ela deixa as pessoas com quem está. Vai para a mesa desse que acaba de entrar e que chora. senta-se em frente dele. Olha-o.
    Depois de trocarem umas palavras, combinam que ele lhe pagará para ela passar as noites em casa dele. Passam juntos seis noites, em que se observam um ao outro, por fora e por dentro, quase sempre sem se tocarem. E choram a perda do homem de olhos azuis e cabelo preto (como ela), sem saberem, quase até ao fim, que choram pelo mesmo homem. Devagar vão-se aproximando, vão-se conhecendo, quase sem o quererem, até que chega a última noite:

    Ela diz que talvez tenham começado a morrer.
   Ele diz que não sabe nada sobre a morte, que é um homem que não sabe quando amou, quando ama, quando morre.

    É um livro cheio de mágoa que mais do que compreendido, deve ser saboreado. É bonito; mas é estranho.

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