domingo, 13 de março de 2016

Vai e põe uma sentinela, Harper Lee (Editorial Presença)

   
    Vários exemplares desta obra passaram pelas minhas mãos este Natal, entre os que comprei para oferecer, recebi - e tive que trocar - e recebeu a minha filha...
     Era inevitável que acontecesse: trata-se como é sabido do segundo livro publicado desta autora, encontrado pouco antes da sua morte e que terá sido escrito antes do livro "Matar a cotovia" (na edição que eu li, já com vários anos, o título era "Não matem a cotovia"). Este livro foi determinante para eu ter optado pelo curso de Direito, segundo a minha mãe. A minha memória não lhe atribui um papel tão determinante mas este livro é seguramente um dos livros da minha vida. Optei por não relê-lo. Se o tivesse feito, provavelmente cairia na tentação de tentar encaixar um no outro, sobretudo as pessoas. Li-o assim, como o terá lido o editor que, segundo se conta, sugeriu a Harper Lee que escrevesse a história que deu origem ao livro que foi então publicado e premiado com o Prémio Pulitzer em 1961. E é surpreendente, pois são dedicadas poucas linhas a esta história, poucas mais que estas: Atticus usou toda a sua experiência profissional, utilizou inteligentemente uma acusação pouco cuidadosa, pronunciou-se frente ao júri e conseguiu o que nunca sucedera antes ou sucedeu depois em Maycomb: a absolvição de um rapaz de cor acusado de violação. A testemunha principal da acusação era uma jovem branca.
    É de facto impressionante que o editor tenha percepcionado nesta passagem a história que merecia ser escrita e publicada. E o editor também estava certo quando optou por não publicar este livro, publicado mais de 50 anos depois de ter sido escrito, admitindo até que se tivesse sido então publicado mereceria uma compreensão e empatia dos leitores que agora dificilmente logrará. A história é simples:
    Jean Louise regressa a Maycomb e surpreende-se ao descobrir que Atticus o seu pai participa no conselho de cidadãos e que defende a segregação racial, considerando que os negros aqui no Sul estão ainda na infância enquanto povo(...) fizeram um progresso enorme para se adaptarem ao modo de vida dos brancos, mas estão ainda muito longe. Jean Louise termina por se reconciliar com o pai (não posso vencê-lo e não posso juntar-me a ele....) mas apesar da diferença entre ambos, também ela decide não casar com Hank, porque não é um dos nossos (ama quem quiseres, mas casa-te com os teus). 
    
    De referir ainda a questão da tradução, e se há alguns termos que me suscitam algumas dúvidas, há uma que me parece obviamente incorreta, que é a tradução de uma lengalenga infantil: Eeny, meeny, miny, moe. Catch a nigger by his toe. When he hollers let him go...Em nota de rodapé, como tradução livre, é indicada a nossa lengalenga Um dó li tá....ora essa opção ignora a conotação racista da primeira que não surge por acaso, pois vem à memória de Jean Louise quando sai de casa de Calpurnia, a velha criada negra, e se apercebe da frieza e da distância que existia agora entre ambas.


    É inevitável a tentação de editar uma obra destas, de uma autora de um livro único, vencedora de um Pulitzer, mas o respeito que nos merecem a obra e a autora, deveriam ter evitado a publicação deste livro.
     

2 comentários:

  1. Saudações a todos. Venho sugerir as capas para livros em tecido na pág da Tecido de Ideias.
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  2. Muito dececionada com o livro, acabei por desistir da leitura por volta da centésima página. Eu comecei por reler o "Não matem a cotovia" e por isso, este segundo (primeiro) livro desapontou-me muito em dois aspetos principais:
    Em primeiro lugar as incongruências de episódios e personagens entre os dois livros. Sei que este romance foi escrito primeiro e o outro foi aquele que foi verdadeiramente trabalhado mas, ainda assim, por respeito com os leitores e mesmo com a autora, considero que deveria ter sido dada mais atenção aos pormenores e, eventualmente, ter sido feita uma revisão dos aspetos mais incoerentes.
    Em segundo lugar, e aquilo que me fez acabar por desistir do livro, é a tradução pavorosa que, infelizmente, já começo a associar às obras editadas pela Presença. Desde que comecei a ler que achei que toda a linguagem era um pouco estranha, mas o original (pelo menos em "Não matem a cotovia") também não é fácil. O pior é a quantidade de "traduções à letra", que ou não fazem qualquer sentido em português, por serem termos e expressões que não se usam, ou que nem sequer têm o significado igual ao original (um exemplo é o termo "revivalismo", que suponho que venha do original "revival" - acontece que em inglês este termo pode ser associado a uma cerimónia religiosa mas o mesmo não acontece em português). E nem cheguei à parte da lengalenga que a minha mãe assinalou em cima... aí a opção de não traduzir à letra também foi um tiro no pé.
    Por ser a obra que é, mais, de quem é, sei que vou acabar por ler. Mas vou ler no original.

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