Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


domingo, 15 de maio de 2016

O que o dia deve à noite, Yasmina Khadra (Bizâncio)

  
    Não consigo explicar porque há uns anos comecei a ler este livro e desisti após as primeiras páginas. Agora aconteceu-me o contrário, depois de ter abandonado alguns livros a meio (na maioria dos casos, quase no início), quando começava a desesperar, peguei neste livro, O que o dia deve à noite, e desta vez foi paixão às primeiras palavras.
    A história decorre na Argélia, ainda uma colónia francesa, e inicia-se em 1936. Com exceção da parte dedicada a Émilie, as três outras partes ostentam o nome da cidade (ou parte da cidade) em que Younes, o protagonista, vive. Começa em Jenane Jato para onde Younes vai viver com os pais e a irmã depois de terem perdido toda a colheita e terem de abandonar o campo. A miséria é tremenda e particularmente violenta para as crianças e as mulheres. O pai recusa-se a aceitar a ajuda do irmão que reside na cidade, mas termina por lhe entregar o filho para lhe assegurar uma vida melhor mas mantendo a esperança de um dia o ir buscar. Younes (que passam a chamar Jonas) é criado pelo tio, argelino, farmacêutico, e pela sua mulher francesa e católica, ficando desta forma entre dois mundos, e esta situação há-de lhe ser lembrada em vários momentos da vida (Não pertencemos ao mesmo mundo, senhor Younes. E o azul dos teus olhos não basta. É desta forma que Isabelle acaba o namoro depois de descobrir que Jonas é Younes, logo árabe). Apesar da separação da família e da expetativa de um dia o pai voltar, Jonas tem uma infância feliz. 
    A segunda parte do livro tem o nome de Rio Salado para onde foram viver depois de o tio ter sido detido pelas suas convições nacionalistas. As sequelas da prisão e a ideia generalizada que confessara tudo logo no primeiro interrogatório acompanham o tio  ao longo da sua vida, tendo este perdido por várias vezes a razão. É em Rio Salado que Jonas se apaixona perdidamente e embora Émilie o ame também, Jonas nunca poderá retribuir-lhe o amor em virtude da promessa que fez à mãe dela. É também em Rio Salado que acompanha os primeiros atos de insurreição que conduzirão à independência da Argélia e, embora pacifista, é obrigado a escolher um lado.
    A última parte decorre em França, em Aix la Provence, após a morte de Émilie, onde se cruza com os seus amigos que optaram por partir com a independência da Argélia e se reconcilia com o passado.
    E se a história nos cativa desde o início, a escrita não fica atrás. Curiosamente, são as palavras do tio de que se vai recordando ao longo da vida, que que são cheias de poesia:
    - Arranja uma mulher, Younes. Só o amor consegue vingar-nos dos golpes baixos da vida. E lembra-te: se uma mulher te amar, nenhuma estrela estará fora do teu alcance, nenhuma divindade te chegará aos calcanhares.  
   - Nunca a posteridade suavizou a opressão das campas. Tem apenas o mérito de moderar o nosso medo da morte pois não existe terapia mais apropriada para a nossa inexorável finitude do que a ilusão de uma bela eternidade ....No entanto, existe uma que tem muita importância para mim: a memória de uma nação esclarecida. É a única posteridade que me faz sonhar.
    E se a reflexão sobre o amor, a amizade e a morte estão sempre presentes (...admiti que um ente querido tinha o direito de se extinguir como o sol ao cair da noite, como um círio ao vento, e que o mal que nos inflige ao partir faz parte integrante das coisas da vida) a descolonização e os primeiros anos de um país novo são a outra face do livro (Os Franceses foram-se embora. Os judeus e os ciganos também. Já só estão entre vocês. Então porque se devoram uns aos outros?). E estas últimas questões, ainda muito pouco abordadas na literatura em língua portuguesa, e aqui tratadas já com a distância que o tempo permite,  pareceram-me muito interessantes e quase suavizadoras de uma imagem que repetidamente se transmite de uma descolonização portuguesa falhada por contraponto com os anteriores processos de descolonização.
   Uma história a reter e a justificar a procura de outros livros do mesmo autor. 

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