Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Somos o esquecimento que seremos, Héctor Abad Faciolince (Quetzal)

    O João trouxe este livro quando foi à Colômbia. Foi-lhe recomendado o autor, Héctor Abad Faciolince, e este livro em especial, que ele comprou na versão original, El olvido que seremos, mas que não consegui ler. Cativada pelo pouco que tinha lido, decidi comprar o livro em português Somos o esquecimento que seremos.
    Sabemos logo ao iniciar o livro que se trata de uma homenagem ao pai do autor:
    É um dos paradoxos mais tristes da minha vida: quase tudo o que escrevi foi escrito para alguém que não me pode ler, e mesmo este livro não é mais do que uma carta a uma sombra.       
    E duas folhas depois, nova dedicatória, desta feita uma citação de Yehuda Amijai:
    E, por amor à memória, trago sobre o meu rosto o rosto do meu pai.
    O livro está dividido em vários capítulos e partes e, através de uma quase autobiografia, o autor vai contando a história da família, composta por dez mulheres, um menino e um senhor, a que junta depois os avós, tios e demais família. A ligação fortíssima que mantinha com o pai resultava provavelmente deste desequilíbrio, de ser o único filho varão, mas também do contraponto que o pai representava, em termos religiosos e de educação, à mãe. O pai, Héctor Abad Gómez, médico de formação, professor universitário, fundador da Escola de Saúde Pública, dedicou a sua vida a lutar pelos direitos humanos e, nos últimos anos de vida, contra a epidemia que assolava a Colômbia que, no ano da sua morte, registou as taxas de homicídio mais altas que os de um país em guerra, a violência.
    Era, como se definia, um híbrido: cristão na religião,(...) marxista na economia (...) e liberal em política.
    Mas é sobretudo na relação pai/filho que assenta o livro e na tolerância que o pai registava com todos mas particularmente com o filho: O que eu sentia com mais força era que o meu pai tinha confiança em mim, fizesse o que eu fizesse, e que também depositava em mim grandes esperanças (embora sempre se apressasse a garantir-me que não fazia questão de que eu alcançasse qualquer coisa na vida e que a minha mera existência era suficiente para a sua felicidade, a minha existência feliz, fosse ela qual fosse).
    O livro é excecional, muito bem escrito, mas senti que tem dois registos, separados pela morte do pai. Até esse momento, é um livro sobre a família e sobre o imenso amor que une pai e filho em que nalguns momentos encontramos o denominado realismo mágico de alguns (anteriores) autores sul americanos. Depois da morte do pai (ou da morte de Marta que antecede a morte do pai, como se fosse um prefácio anunciador da tristeza que marcaria definitivamente a família) o registo é realista, nalguns momentos quase jornalístico.
    O livro é, como diz repetidamente o autor, contra o esquecimento. É, aliás, assim que encerra o livro. Os livros são um simulacro de recordação, uma prótese para recordar, uma tentativa desesperada de tornar um pouco mais perdurável o que é irremediavelmente finito. Todas essas pessoas de que se tinge a trama mais íntima da memória, todas essas presenças que foram a minha infância e a minha juventude, ou já desapareceram e são apenas fantasmas, ou então, como eu, estão a caminho de desaparecer, como projetos de espectros que ainda se movem pelo mundo.
    Mas ao homenagear o pai, resgata do esquecimento todos os outros que menciona. Gostei muito de ler este livro e espero por isso poder adiar mais um instante o esquecimento que seremos.

    Duas notas finais: o título do livro é o primeiro verso de um poema de Borges, que o pai levava no bolso, juntamente com a lista de pessoas a abater que o incluía, quando foi morto. Houve muitas dúvidas quanto à autoria do poema e na breve pesquisa que efetuei encontrei um artigo  interessantíssimo do autor  Un poema en el bolsillo (letraslibres.com) que confirma  a autoria.
    Fui surpreendida durante a leitura pelo cântico que na infância as criadas e as irmãs entoavam em procissões que faziam pela casa durante o mês de maio (A treze de maio/na Cova da Iria...) porque onde entrava a Virgem jamais entraria Satanás. Não me surpreendi pela devoção, mas pela cantiga que pelos vistos atravessou o Atlântico e era cantada nos lares católicos colombianos.


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