Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O Luto de Elias Gro, João Tordo (Companhia das Letras)


    Foi estranho para mim ler este livro, uma vez que, como penso já ter mencionado em entradas anteriores, fiz um curso de escrita com o João Tordo. Do pouco que pude conhecer dele, confesso que, em alguns momentos, me senti uma intrusa a espreitar sem autorização uma fase - muito dolorosa - da sua vida. Isto porque me foi impossível dissociar-me desse conhecimento, ou seja, enquanto lia era como se a história me estivesse a ser narrada pelo próprio autor e, não poucas vezes, dei por mim a perguntar-me onde terminava a realidade e começava a ficção.
    Usando como cenário uma ilha algures no Atlântico, onde se fala francês, o escritor veste-se de um narrador presente que, para todos os efeitos, decidiu deixar de viver. Nessa ilha, num farol há muito desabitado, tenta refugiar-se dos seus fantasmas por intermédio da bebida e da inércia. Mas não é bem sucedido porque, mesmo sem o querer, acaba por se envolver com os habitantes da ilha, particularmente com Elias Gro (Eu não o largo. Deixe estar que não se livra de mim tão facilmente.) e a sua filha de dez anos, Cecília (Não chores.).
    O livro pareceu-me um testemunho, um argumento para o autor poder expiar o seus demónios e aprender a lidar com eles. É um relato - em momentos, muito forte - de uma viagem ao interior humano, naquilo que tem de melhor e de pior e que só se mostra no mais profundo desespero. Tem passagens crudelíssimas e outras muito bonitas, qualquer uma das quais nos comove. Em alguns momentos, parece-nos que se deixa enredar nas descrições, esquecendo a narrativa, mas mesmo esses momentos entendi-os como um adiar intencional do momento em que ele teria novamente de encarar aquilo que o sufocava.

    Foi aí que comecei a fazer o luto. Observando as nuvens (...) chorei como uma criança. Chorava porque não sabia mais o que fazer, porque as lágrimas antecediam qualquer possibilidade de as deter dizendo-lhes: calma, fiquem onde estão, que eu arranjarei razões para que não caiam.

    No fundo, é uma história sobre o sofrimento que nos traz um coração despedaçado e a quase-loucura de saber que fomos os únicos responsáveis por esse despedaçar; e sobre como, por mais que nos recolhamos sobre nós próprios, sabemos que continuamos vivos quando não conseguimos manter-nos indiferentes ao sofrimento alheio, dessa forma egoísta de precisarmos de sentir que somos precisos.

    O reverso da incomensurável perda é a consciência dessa perda. E a consciência chega através da dor. A dor não costuma mentir; nesse sentido, é o que mais importa. Sem ela, passaríamos do sofrimento momentâneo ao esquecimento.

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