domingo, 18 de dezembro de 2016

A vida em surdina, David Lodge (Asa)

   
    David Lodge tem a qualidade de nos levar para o universo dele logo às primeiras palavras. Lemos o início do livro e estamos lá, ao lado daquele indivíduo de óculos, alto e grisalho, parado na orla da multidão, com o tronco inclinado para a frente e quase em cima da rapariga de blusa de seda vermelha. Sabemos depois que aquele indivíduo é Desmond, o protagonista, o autor provavelmente.
    Desmond é um professor universitário, reformado, casado com Fred - diminutivo de Winifred - que é sócia de uma loja de  decorações em clara expansão. É o segundo casamento de ambos, na sequência, no caso de Desmond, da morte da primeira mulher.      O livro decorre entre novembro de 2006 e março de 2007, sendo escrito na primeira pessoa, como se de um diário se tratasse (isto parece estar a tornar-se uma espécie de diário, ou notas para uma autobiografia, ou porventura uma simples terapia ocupacional) e na terceira pessoa, entrando em cena um narrador que é simultaneamente um observador que reitera determinados acontecimentos ou contextualiza certas situações:
    (...) havia momentos em que tinha vontade de recusar por completo os convites, mas quando ponderava as consequências de uma tal decisão, a ideia infundia-lhe uma espécie de terror (...)
    (...) é de estar sozinho que tenho pavor (...)    
    
     Se a surdez e a reflexão sobre as suas consequências são um tema constante, vamos acompanhando a vida de Desmond, que decorre entre a zona norte onde vive com a mulher e Londres onde habita o seu pai, muito idoso e crescentemente incapaz. O pai recusa-se a ir viver para um lar e a ida, por um período curto, para casa do filho no Natal, potencia um conjunto de situações difíceis de gerir.  A mulher gosta muito da época natalícia e esmera-se a preparar a festa na qual reúne a família, o pai e os filhos de Desmond, e a mãe e os filhos dela própria, seguida de uma festa para os amigos a 26 de dezembro. Entra entretanto em cena a rapariga de blusa de seda vermelha que está a fazer o doutoramento sobre bilhetes de suicídio e que o vai envolvendo numa teia cujos objectivos de alguma forma nos escapam.
    O internamento e morte do pai, que coincidem com o nascimento da sua primeira neta, colocam em ordem o caos em que se encontrava a vida de Desmond, levando a uma reaproximação com a mulher e à reconciliação com a sua vida e consequentemente com a surdez.
    Nas reflexões que faz sobre a surdez, compara-a com a cegueira e e a relação dos outros com os surdos e os cegos e de facto é distinta - a surdez é cómica, da mesma maneira que a cegueira é trágica - mas representam ambas uma perda.
    Como nos restantes livros deste autor, rimo-nos, enredamo-nos na história e, simultaneamente, pensamos na vida, no envelhecimento e na morte.

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