Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


domingo, 30 de abril de 2017

A vegetariana, Han Kang (D. Quixote)

   
  A vegetariana é um livro absolutamente inquietante e arrebatador. Ao longo da sua leitura tive impressões distintas, inicialmente pensei que esta história não poderia decorrer ou ter como cenário outro país ou outra cultura, mas noutras partes pareceu-me universal nos problemas que aborda e na forma como o faz. 
  O livro tem três partes, a primeira dá o nome ao livro, A vegetariana, e é narrada na primeira pessoa pelo marido de Yeong-hye, a segunda parte tem o título Mancha mongólica e é contada pelo cunhado e a terceira parte, Árvores flamejantes, é narrada pela irmã. Todas as partes acabam de forma inquietante, como uma espécie de clímax da parte respetiva.
    
    A protagonista, Yeong-hye, é a mulher, a cunhada, a filha, a irmã, mas nunca tem voz ativa, a não ser em pequenos diálogos, quando responde ao que lhe é perguntado. O marido descreve-a como uma pessoa banal (....sempre pensei nela como alguém que não tinha rigorosamente nada de especial.) nem atraente, nem repulsiva pelo que não havia motivo para que não se casassem. Aliás, ele próprio confessa que uma mulher bonita ou inteligente ou sensual teria acabado por perturbar a sua existência.    
    Toda a sua vida  se desmorona quando a mulher tem um sonho e se torna vegetariana. Mas esta decisão, tão comum atualmente, é sustentada exclusivamente pelo sonho que teve e é acompanhada de uma recusa de comer vários alimentos além da carne  e por um conjunto de comportamentos que indiciam que por trás daquela decisão há uma perturbação maior. Neste capítulo há uma cena particularmente violenta quando a família de Yeong-hye se reúne em casa da irmã, em que para além do marido e dos pais, estão os irmãos, os cunhados e os sobrinhos. Percebemos então que o pai é uma pessoa extremamente violenta e que Yeong-hye sofreu muito durante a infância.
    O cunhado, um artista que estava inativo nos últimos anos, fica fascinado pela mancha mongólica que sabe que a cunhada tem, começa a imaginar obsessivamente o corpo dela coberto de flores e ela acede ao seu desejo de o pintar e filmar. Na terceira parte, já só a irmã a visita na instituição onde está internada e aí percebemos que o desejo dela é tornar-se vegetal. Uma árvore.
    O livro tem uma cinta que num dos lados indica que foi o romance vencedor do Man Booker International Prize e, do outro lado, tem um comentário de Ian McEwan, escritor que muito aprecio, que considera este livro um pequeno romance sobre sexualidade e loucura que merece todo o sucesso que alcançou. Eu penso que é sobretudo um romance sobre a loucura versus normalidade e como o espaço que os separa é tão estreito. Aliás, a irmã de Yeong-Hye diz-lhe já no final:
     Sabes, eu também tenho sonhos. Sonhos....e também podia deixar-me dissolver neles, deixar que eles tomassem conta de mim.... Mas tenho a certeza de que há mais coisas além dos sonhos. A certa altura, temos de acordar, não é?

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