Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


terça-feira, 25 de abril de 2017

Enamoramento e Amor, Francesco Alberoni (Bertrand Editora)

    Há muitos anos, já, a minha mãe estendeu-me este livro, dizendo que era "um daqueles livros que toda a gente lia na [sua] adolescência". Folheei-o uma ou duas vezes, mas nunca cheguei a decidir-me lê-lo de uma ponta à outra - até agora.
    O texto é muito bonito; está escrito com uma prosa quase poética e tem passagens absolutamente apaixonantes, que não resisti a "roubar", como:

    Eu sou por isso o abslutamente único e ele o absolutamente único, não fungível com nenhum outro nem com coisa alguma. Cada pormenor, todos os pormenores da sua voz, do seu corpo, do seu gesto, se tornam os significantes desta unicidade. Aquele pormenor, aqueles pormenores, existem nela, somente nela, em nenhuma outra pessoa do mundo; ela é extraordinariamente única e extraordinariamente diferente e o assombro do amor é encontrar resposta deste ser tão único e tão ele próprio como nenhum outro.

    O autor explora a temática do enamoramento, procurando explicar os fenómenos psicológicos que ocorrem quando nos apaixonamos e como esse acontecimento nos afeta e àqueles que nos rodeiam. Um dos principais focos é o estado de espírito que considera requisito essencial para que uma pessoa possa chegar àquilo que designa como estado nascente de um enamoramento. Fá-lo, comparando esta predisposição à que se verifica quando um indivíduo adere a uma organização ou revolução. Aliás, para o autor, o enamoramento mais não é do que esta adesão mas a uma única pessoa:

    O que é o enamoramento? É o estado nascente de um movimento coletivo a dois.
    (...)
    O enamoramento não é um fenómeno quotidiano, uma sublimação da sexualidade ou um capricho da imaginação, nem tão-pouco um sentimento sui generis inefável, divino ou diabólico, antes pode ser inserido numa classe de fenómenos já conhecidos, os movimentos coletivos (...), como a reforma protestante, o movimento estudantil, o feminista (...), é um caso especial de movimentos coletivos, e entre estes e o enamoramento  há um parentesco muito próximo, muitas das experiências de solidariedade , alegria de viver, renovação são análogas.

    Confesso que não adorei a definição dada, nem esta comparação em particular. Ainda assim, compreendo que qualquer tentativa para explicar este tema, resultará sempre numa análise muito reducionista daquilo que entendo ser, para cada um de nós que se apaixona (de cada vez que se apaixona), uma das experiências mais complexas, incompreensíveis e absolutamente envolventes que vivenciamos.

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