domingo, 16 de abril de 2017

Toda a luz que não podemos ver, Anthony Doerr (Editorial Presença)

 
  Vi este livro nas mãos de uma colega e fiquei com muita vontade de o ler. O livro está estruturado em 13 capítulos, começando no zero - 7 de agosto - e acabando no treze - 2014 - embora não esteja cronologicamente estruturado. Começamos por acompanhar Marie Laure, uma menina francesa, cega, que vive com o pai, serralheiro, encarregado das chaves do Museu Nacional de História Natural em Paris.
    O pai faz maquetes da zona onde habitam em Paris (e mais tarde de Saint Malo) para que a filha aprenda a deslocar-se autonomamente no exterior. Todos os aniversários Marie Laure recebe do pai uma caixa ou outro objecto cuja abertura ela tem de descobrir com uma prenda no interior e, quando pode, livros de Jules Verne, em braille. Quando Paris é ocupada partem ambos para Saint Malo, onde reside um tio-avô do pai que sofre de agorafobia. O pai leva consigo uma pedra raríssima e preciosa, que se crê proteger quem a possui e amaldiçoar todos os que o rodeiam. Foram feitas mais três réplicas que partirão com outros tantos funcionários, sendo que nenhum sabe se a pedra que transporta é a verdadeira. 
    O tio avô vive com uma empregada, Madame Manec, e o trauma de que sofre foi fruto da morte do irmão com quem  fazia programas de rádio para crianças. Na Alemanha, este programa era ouvido por Werner e Jutta, dois irmãos que viviam num orfanato. Werner revela-se um jovem com capacidades excepcionais pelo que, em vez do destino habitual dos jovens do orfanato, trabalhar nas minas, vai para uma escola e depois é mobilizado para localizar emissões de rádio nas zonas ocupadas.
    O pai de Marie Laure tenta regressar a Paris, deixando a filha com o tio avô e com Madame  Manec, mas é preso e depois de algumas cartas que a filha recebe, nunca mais sabem nada dele. Madame Manec entretanto envolve-se em actividades de resistência, trazendo coordenadas - dentro de pão - e outras notícias para serem transmitidas pelo rádio que o tio avô mantém no sótão. Percebemos nessa altura que Werner e Maria Laure irão encontrar-se e de facto Werner localiza o rádio mas não o denuncia e quando entra em casa de Marie Laure termina por matar um sargento alemão, doente com leucemia, que procurava desesperadamente a pedra por crer na lenda que assegurava que quem a possuísse não morreria.
    Em vários momentos do livro receei que a história se transformasse num lugar comum, permitindo que Werner e Marie Laure sobrevivessem ambos à guerra e vivessem felizes para sempre. Mas Werner é preso e morre depois de ter tirado Marie Laure de casa, explicando-lhe para onde se deveria dirigir, dado que os aliados já se encontravam a bombardear Saint Malo. É Jutta, a irmã,  quem anos mais tarde recebe a mochila de Werner e procura Marie Laure. 
    Mas dizer isto, é dizer muito pouco do que cabe neste livro. Se calhar a história principal é menos importante do que todas as outras que se sucedem e que têm como cenário principal a II Guerra Mundial e a devastação que a todos os níveis causou. 
    E é um privilégio ler um livro que associa uma escrita magnífica a uma história fantástica. Não é por acaso que ganhou o Prémio Pulitzer 2015 e foi finalista do National Book Award.
    Roubei umas frases mesmo da última página do livro:
   E será assim tão difícil acreditar que as almas também podem percorrer tais caminhos? (...) Que tripulações de almas poderão voar em diferentes sentidos, desvanecidas mas audíveis desde que se lhes preste a devida atenção? Sobrevoam as chaminés, transitam nos passeios, infiltram-se nos casacos e nas camisas e nos esternos e nos pulmões e emergem do lado oposto, o ar uma biblioteca e o registo de cada vida vivida, todas as frases ditas, todas as palavras transmitidas reverberando em cada movimento contínuo.
   A cada momento, pensa ela, alguém para quem a guerra era uma memória cai fora do mundo.   

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