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A nova rubrica quinzenal da nossa página afiliada, Ponto&Vírgula, começou com o testemunho na nossa co-autora Ana Vargas.

Acompanhe a partir daqui os textos publicados:

#1 Leio, logo... crio laços, por Ana Vargas (24/04/2018)
#2 Leio, logo... empilho, por Sofia Guedes Vaz (08/05/2018)
#3 Leio, logo… sonho, por Alexandre Gusmão (22/05/2018)
#4 Leio, logo… exploro, por Lucinda Afreixo (05/06/2018)
#5 Leio, logo... preservo, por Manuela Pires (19/06/2018)
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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Canção doce, Leila Slimani (Alfaguara)

   
    Canção doce é um livro muito perturbador e de uma enorme violência. Logo na contracapa lemos o resumo e ficamos a saber a história. Myriam, mãe de duas crianças pequenas chega a casa mais cedo para surpreender os filhos que estão com uma ama. E o livro começa assim:
    O bebé morreu. Bastaram alguns segundos. O médico garantiu que ele não sofreu. Deitaram-no dentro de um saco cinzento e fizeram deslizar o fecho de correr sobre o corpo desarticulado que boiava no meio dos brinquedos. Quanto à menina, ainda estava viva quando chegaram os serviços de emergência.
   Não é um livro de suspense no sentido clássico, pois sabemos logo no início o drama que se vai abater sobre aquela família e de quem é a responsabilidade. E se o livro começa justamente pelo fim, percebemos que o importante é  o caminho que é feito até àquele momento. Os passos dados, os sinais ignorados que conduziram àquele desfecho. Mas o trágico é sentir que podia acontecer connosco. É sentirmos que somos a Myriam no momento que entra em casa, desejosa de surpreender os filhos. 
    Para o leitor é fácil ir descobrindo os sinais que Louise, a ama, vai revelando ao longo do tempo que trabalha com as crianças e que evidenciam uma ligação doentia, uma dependência patológica daquela família, que tinha a perceção justamente oposta, isto é, que eles é que dependiam dela. Mas percebemos também que fora do livro, na vida real, poderíamos ter ignorado todos estes sinais, como eles fizeram, porque só fazem sentido quando o drama acontece.
    A identificação com Myriam não acontece apenas no momento inicial - ou final - quando entra em casa naquele dia fatal, mas ao longo do livro, no desejo da maternidade, no cansaço, na ambiguidade entre o trabalho e a família, no sentimento de culpa. No medo (desde que eles nasceram, Myriam tem medo de tudo. Sobretudo de que morram.)
    Não deixa de ser curioso, o facto de Myriam recusar contratar uma árabe, embora ela seja descrita como o sendo, porque desconfia daquilo a que chama "solidariedade entre imigrantes" e por isso escolhe Louise, uma francesa. Talvez o ponto fraco deste livro seja justamente Louise, quando admite que não sabe amar e diz para ela própria Alguém tem de morrer. Alguém tem de morrer para que sejamos felizes. Não se percebe bem o que despoleta esta atitude, esta mudança nela até aí sempre tão dedicada às crianças (Adora, no entanto, aquelas duas crianças, que passa horas a observar.)
    Um livro a não perder, que mexe connosco, nos emociona, nos revolta, nos magoa. Um murro no estômago.
   

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