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quarta-feira, 10 de julho de 2019

O domador de leões, Camilla Lackberg (D. Quixote)

    Continuo a surpreender-me com a explosão dos livros policiais de autores nórdicos que, tenho a sensação, substituíram as escritoras britânicas, já com alguma idade e cabelos brancos que, entre chávenas de chá, imaginavam crimes e criminosos hediondos. Parece-me, porém, que nenhum crime nem criminoso inventado por elas chegava aos pés destes. Mas não é a maldade ou o horror do crime que faz um bom livro policial nem sequer o seu desfecho ou o suspense que o antecede. Para mim, que não tento sequer adivinhar o autor do crime, um bom livro policial é aquele em que vamos descobrindo lentamente as pistas que vão sendo plantadas parcimoniosamente, conduzindo-nos, como se estivéssemos na cabeça de quem investiga o crime, à descoberta do criminoso. Mas em que o mais importante é o motivo, a causa do crime.
   Desta autora, é o terceiro livro que leio, depois d'A Ilha dos Espíritos e A Sombra da Sereia, e neles encontro a ideia do mal gratuito, sem razão aparente ou que o justifique. A ideia  de que alguém pode nascer mau, de uma maldade mórbida, letal para todos os que o rodeiam independentemente do ambiente em que vive e foi criado. Admito que isso possa acontecer, mas em situações excepcionais, contudo estes livros alimentam-se dessas situações como se fossem a regra.
     Já no segundo livro senti a redundância da história e, neste terceiro, esta sensação ainda é mais óbvia. Os três livros decorrem em Fjallbacka e os protagonistas são Patrick Hedstrom, investigador, e a sua mulher, Erica Falk, escritora. O trabalho de investigação que Erica faz para o livro que tem em mãos cruza-se com a investigação que o marido está a fazer e é decisiva para o desfecho da mesma. No meio disso tudo há a vida familiar de ambos, os filhos pequenos do casal, a irmã de Erica, Anna, e as pessoas que trabalham com Patrick na polícia.
    Apesar de tudo, confesso a total dependência do livro mal se começa a ler. Só isso pode justificar que em tão pouco tempo tenha devorado as mais de 400 páginas do livro.

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domingo, 25 de março de 2018

A Cozinha Açafrão, Yasmin Crowther (Dom Quixote)

Yasmin Crowther  @ Clube de Leituras
    Existe sempre um certo receio em começar um novo livro: vamos gostar?; vai prender-nos?; vamos passear com ele indefinidamente, inventando sempre uma nova desculpa para não lhe pegarmos? E se este novo livro vem na sequência de um outro que não nos despertou interesse, o receio é ainda maior. Afinal, com tanta coisa para ler, o que menos nos apetece é perder tempo com livros que não nos tocam.
    Por esse motivo, quando peguei em A Cozinha Açafrão, depois de ter desistido da leitura de Era Tudo tão Bom, queria mesmo que fosse um livro que me envolvesse. Apesar de tudo, já estava na minha estante há algum tempo, porque foi uma compra impulsiva à conta da promoção em que se encontrava; ainda assim, uma amiga muito querida já me tinha dito que tinha gostado, descrevendo-o como «muito forte». E é. Subscrevo a opinião.
    Gosto de livros sobre outras culturas; é a minha forma de viajar e conhecer o mundo sem ter de sair de casa nem pagar uma fortuna. Neste em particular, o choque entre realidades fica bem patente porque é parte do tema dele. 
    Maryam Mazar é filha de um influente homem do Irão. Com dezasseis anos, luta contra as amarras da tradição que lhe exigem o casamento com alguém da sua classe, quando o que mais quer é estudar e tornar-se independente por meios próprios. Numa noite de conflitos cerrados na região, é resgatada pelo ajudante do pai, Ali, por quem nutre talvez uma paixão de adolescente. Depois dessa noite, a vida de Maryam sofre uma reviravolta irreversível, que a marca para sempre e a leva ao exílio, por parte do pai, primeiro para Teerão e depois para Londres.
   É em Londres que refaz a vida, casa com Edward e juntos têm uma filha, Sara. Mas a vida passada de Maryam persegue-a e não a deixa estar plenamente viva em Londres. A chegada do sobrinho vem reabrir a porta atrás da qual Maryam tanto se esforçara por manter trancados os fantasmas da sua adolescência, e ela vê-se forçada a abandonar a família para se reconciliar com o passado. 
   É uma história cruel, que nos mostra como as feridas que nos marcam nos perseguem por toda a vida e, mais tarde ou mais cedo, se reabrem e acabam por se repercutir também naqueles que nos rodeiam («...não é só a vida dela (...). É também a vida da família dela aqui, e agora, a família em Inglaterra. A história é que ela partiu o coração ao pai, e agora também te magoa a ti, não é, com esta vida dela?»). É a história de uma mãe perseguida por um trauma que se esforça por esconder, e de uma filha que se se sente traída por esse passado que não lhe pertence mas que a acompanha sempre  E é uma história de reencontros, de reconciliações, de como precisamos realmente de entrar na pele do outro para podermos perceber que a vida e as decisões tomadas não se pintam apenas de preto ou branco.

   «Depois de ele ter saído, Maryam apanhou o cabelo. Procurou na mala o chador cor-de-rosa que comprara com Mairy no bazar há anos atrás, sacudiu-o para o abrir, e segurou-o em frente à cara; um cheiro a lavanda inglesa nas dobras. Colocou-o à volta da cabeça e dos ombros e ajoelhou-se para se ver no fragmento de espelho que Noruz apoiara no parapeito da janela. Estava com um ar cansado, ela sabia-o, e pôs creme na cara, a fragrância recordando-lhe a sua casa de banho de mármore de Londres. Respirou fundo, tentando manter unidas as fronteiras rasgadas do seu mundo, passando cautelosamente de um lugar para outro.»

    Um crítica? Como já vem sendo hábito - infelizmente - a tradução. Alguns pontos não consegui perceber se eram de facto pequenas falhas linguísticas ou tentativas de manter essas falhas que teriam sido dadas no original. Mas não eram todos.

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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O segredo de Joe Gould, Joseph Mitchell (D. Quixote)

    A primeira referência que vi a este livro, O segredo de Joe Gould, foi ao prefácio de António Lobo Antunes. Foi por aí que comecei a lê-lo. É um prefácio entusiástico que começa da seguinte forma:    Este é, sem dúvida, um dos melhores livros que li nos últimos anos....Depois de o ler compreendi o entusiasmo, que me parece resultar mais da personagem tratada que do autor.
    Por partes: este livro é, como explica o autor, constituído por dois retratos da mesma pessoa, Joe Gould, escritos para um rubrica de perfis do The New Yorker, o primeiro em 1942 e o segundo, 22 anos depois, em 1964, já depois da morte dele.
    Joe Gould nasceu numa família abastada de Massachusetts e estudou em Harvard onde se licenciou em 1916.  Alguns anos mais tarde, foi viver para Nova Iorque onde termina por deixar o trabalho que tinha para se dedicar a escrever a História Oral do Nosso Tempo. Apresenta e fala do seu projeto a várias pessoas que chegam a entusiasmar-se com o mesmo, tendo alguns artigos, apresentados como excerto daquela obra monumental, sido publicados e com alguma repercussão. Obra que a dada altura, ele descreve como tendo onze vezes o tamanho da Bíblia. O título resultava do facto de, pelo menos, metade da obra ser constituída por conversas reproduzidas literalmente ou resumidas.
   Gould vivia na rua ou em asilos. Apenas temporariamente e por conta de uma mulher que quis ficar anónima, dormia num hotel. Passava fome e estava com frequência bêbedo ou de ressaca. 
    Não há da parte do autor qualquer tentativa de branquear a imagem de Joe Gould, nem sequer de o justificar ou compreender. Limita-se a apresentá-lo, sujo, a cheirar mal, com uma eterna conjuntivite, piolhos, mas por outro lado de uma clarividência desconcertante. Por vezes arrogante, outras submisso ou aldrabão. Ao mesmo tempo, cínico e ingénuo. Tem em fraca conta a maior parte dos escritores, poetas, pintores e escultores com que se cruzava e não se inibia de o dizer.
    Mais que uma pintura ou uma fotografia que nos é apresentada, é a personagem em todas as suas dimensões. Num momento seduz, no momento seguinte deita tudo abaixo. No meio faz a dança dos índios ou imita as gaivotas.
    Se a personagem justifica por si só a publicação de dois artigos no The New Yorker, o interesse nos mesmos, que justificam a edição em livro e até a a adaptação ao cinema, devem-se ao autor.  À escrita concisa, direta, desprovida de paixão mas completa de Joseph Mitchell, à forma como nos descreve o personagem e depois nos desvenda o seu segredo.
    Não resisto a transcrever uma reflexão que a dada altura faz quando desiste de escrever um livro que há muito tempo tinha na cabeça:
    Seja como for, decidi, se há coisas que a humanidade tem que chegue, que chegue e que sobre, são livros. Ao pensar nas cataratas de livros, nos niágaras de livros, nos caudalosos rios de livros, nos oceanos de livros, nas toneladas e camiões e comboios de livros que naquele momento brotavam das tipografias de todo o mundo, sendo que só pouquíssimos deles mereceriam a pena que lhes pegássemos, que os apreciássemos, já nem falo em os lermos (...)Um livro a menos a atravanca o mundo, um livro a menos a ocupar espaço, a apanhar pó e a passar, sem ser lido, das livrarias para os lares e daí para os alfarrabistas (...)

domingo, 30 de abril de 2017

A vegetariana, Han Kang (D. Quixote)

   
  A vegetariana é um livro absolutamente inquietante e arrebatador. Ao longo da sua leitura tive impressões distintas, inicialmente pensei que esta história não poderia decorrer ou ter como cenário outro país ou outra cultura, mas noutras partes pareceu-me universal nos problemas que aborda e na forma como o faz. 
  O livro tem três partes, a primeira dá o nome ao livro, A vegetariana, e é narrada na primeira pessoa pelo marido de Yeong-hye, a segunda parte tem o título Mancha mongólica e é contada pelo cunhado e a terceira parte, Árvores flamejantes, é narrada pela irmã. Todas as partes acabam de forma inquietante, como uma espécie de clímax da parte respetiva.
    
    A protagonista, Yeong-hye, é a mulher, a cunhada, a filha, a irmã, mas nunca tem voz ativa, a não ser em pequenos diálogos, quando responde ao que lhe é perguntado. O marido descreve-a como uma pessoa banal (....sempre pensei nela como alguém que não tinha rigorosamente nada de especial.) nem atraente, nem repulsiva pelo que não havia motivo para que não se casassem. Aliás, ele próprio confessa que uma mulher bonita ou inteligente ou sensual teria acabado por perturbar a sua existência.    
    Toda a sua vida  se desmorona quando a mulher tem um sonho e se torna vegetariana. Mas esta decisão, tão comum atualmente, é sustentada exclusivamente pelo sonho que teve e é acompanhada de uma recusa de comer vários alimentos além da carne  e por um conjunto de comportamentos que indiciam que por trás daquela decisão há uma perturbação maior. Neste capítulo há uma cena particularmente violenta quando a família de Yeong-hye se reúne em casa da irmã, em que para além do marido e dos pais, estão os irmãos, os cunhados e os sobrinhos. Percebemos então que o pai é uma pessoa extremamente violenta e que Yeong-hye sofreu muito durante a infância.
    O cunhado, um artista que estava inativo nos últimos anos, fica fascinado pela mancha mongólica que sabe que a cunhada tem, começa a imaginar obsessivamente o corpo dela coberto de flores e ela acede ao seu desejo de o pintar e filmar. Na terceira parte, já só a irmã a visita na instituição onde está internada e aí percebemos que o desejo dela é tornar-se vegetal. Uma árvore.
    O livro tem uma cinta que num dos lados indica que foi o romance vencedor do Man Booker International Prize e, do outro lado, tem um comentário de Ian McEwan, escritor que muito aprecio, que considera este livro um pequeno romance sobre sexualidade e loucura que merece todo o sucesso que alcançou. Eu penso que é sobretudo um romance sobre a loucura versus normalidade e como o espaço que os separa é tão estreito. Aliás, a irmã de Yeong-Hye diz-lhe já no final:
     Sabes, eu também tenho sonhos. Sonhos....e também podia deixar-me dissolver neles, deixar que eles tomassem conta de mim.... Mas tenho a certeza de que há mais coisas além dos sonhos. A certa altura, temos de acordar, não é?

sexta-feira, 31 de março de 2017

O vendedor de passados, José Eduardo Agualusa (Edições D. Quixote)

    É tão bom apaixonarmo-nos por um livro. A este livro cheguei através do filme. Vi primeiro a adaptação ao cinema de Lula Buarque de Hollanda e fiquei fascinada pela história. No final verifiquei que se tratava de uma adaptação de um romance, com o mesmo nome, de José Eduardo Agualusa. Não me recordo detalhadamente do filme, que já vi há algum tempo, mas embora a ação decorresse no Brasil e não em Angola  e os passados e personagens fossem distintos, a história é similar: o passado comprado (criado) transforma a pessoa e torna-se mais real que o passado vivido. Em ambos,  o vendedor de passados é surpreendido pela transformação que se gera no seu cliente,  que incarna a personagem que resultou daquele passado e vai reforçando e consolidando desta forma a sua história. 
    O que é afinal um vendedor de passados?
    (...) vende-lhes um  passado novo em folha. Traça-lhes a árvore genealógica. Dá-lhes as fotografias dos avôs e bisavôs, cavalheiros de fina estampa, senhoras do tempo antigo.
    Mas criar um passado não nos liberta do que vivemos, de quem somos e do que fomos. E é nesse encontro entre passados inventados e verdadeiros que o livro  ganha uma dimensão e consistência superior ao filme. Neste último, a questão central resultava da absorção do passado comprado como se de facto tivesse sido vivido. No livro, apesar do passado comprado, o passado real persiste e persegue as pessoas.
    E ao lado desta história, a osga que vive no teto da casa de Félix Ventura, vai testemunhando e relatando as visitas e a crescente paixão que aquele vai vivendo por Ângela Lúcia, e os sonhos que vai tendo. E acompanhamos a criação do passado do Ministro. E suspeitamos, como Félix e Ângela, que o Presidente foi substituído por um sócia. E interrogamo-nos sobre as ameias do Castelo de S. Jorge....
    Apesar da escrita simples e leve do livro há muitas histórias nele, verdadeiras e inventadas.
    Acabo com uma frase que a mãe da osga, na sua vida anterior, lhe dizia:
 
    Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar - se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autêntica, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.

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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Caçadores de cabeças, Jo Nesbo (publicações D. Quixote)

    
A Maria João emprestou-me este livro e mal consegui largá-lo até à última página. Não é um policial clássico. Estamos do lado dos maus, mas aparentemente são-o todos ou quase todos, o que leva a reviravoltas absolutamente surpreendentes até ao final do livro, o epílogo.
    Não se trata de crimes passionais ou perpetrados por pessoas desequilibradas. E se o móbil é o dinheiro ou a posição social, também surpreende que os criminosos sejam pessoas bem integradas socialmente e com excelentes níveis de vida. Igualmente surpreendente é a descrição do relacionamento de Roger Brown, o protagonista, e Diana, a sua mulher, que diz a dado momento: "O equilíbrio é crucial. Isso aplica-se a todas as relações boas, harmoniosas. Equilíbrio na culpa, equilíbrio na vergonha e na consciência pesada."
    A ação decorre vertiginosamente e o leitor pensa que acompanhou tudo mas percebe no final que foi ludibriado. A conversa final dos dois - Roger e Diana - é como o remate dos clássicos de Agatha Christie em que Hercule Poirot explica os detalhes do crime e como atuou o criminoso. Confesso que nalgumas partes pensei que o enredo e as provas não passariam no teste das séries policiais americanas a que estamos habituados, mas isso é quase irrelevante na vertigem da história.
    

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Crónicas maldispostas, Pepetela (D. Quixote)

    Crónicas maldispostas reúne um conjunto de crónicas do autor publicadas na revista mensal angolana África 21, entre 2007 e 2015. Não sei se as crónicas foram publicadas na revista com este título ou se apenas foram apelidadas de maldispostas nesta edição. Mas confesso que adorei o nome e achei que era um privilégio alguém ter direito a publicar crónicas maldispostas mensalmente. Comecei logo a imaginar os temas que mereceriam a minha má disposição se tivesse direito a um espaço de publicação. O problema seria sempre a escolha, a seleção da má disposição (talvez tenha sido a perceção desta minha identificação que levou a Ana Paula a oferecer-me o livro).
     E a má disposição do Pepetela é nalguns casos dirigida ao seu país e aos seus concidadãos, mas ultrapassa com frequência as fronteiras angolanas e chega a Portugal e a muitos outros países. E tanto fala de gatos vadios como dos bombardeamentos israelitas na Faixa de Gaza, dos problemas dos canhotos e dos fantasmas da Europa, em crónicas curtas, claras e acutilantes. A última crónica - as crónicas aparecem pela ordem cronológica da sua publicação - Quem tem medo dos livros? foi publicada em agosto de 2015.
    Para além da história delirante da censura brasileira durante a ditadura militar que procurava dois perigosos escritores, Victor Hugo e Stendhal, autores de Os Miseráveis e de O Vermelho e o Negro, fala do receio ainda presente em muita gente que um livro provoque uma revolução, promova um golpe de estado ou faça antecipar a menstruação das meninas. (...) O Homem vai evoluindo, diz-se. Mas alguns continuam a ter medo de livros.
    Um livro atual e inteligente, a não perder.
     Uma palavra final para a capa, belíssima, de Maria Manuel Lacerda.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Ver: Amor, David Grossman (Dom Quixote)

    Seja o que for que eu escreva acerca deste livro, nunca conseguirei dar uma ideia exata do que poderão esperar dele. Dizer que é um livro extremamente imaginativo sobre o Holocausto e as suas implicações nas gerações seguintes é simplesmente redutor. Penso que nunca tinha lido um livro com tantas histórias dentro de histórias e que mesmo assim termina por conseguir que todas elas - e as suas personagens - se entrelacem num único enredo. Dividido em quatro partes - "Momik", "Bruno", "Wasserman" e "A enciclopédia completa da vida de Kazik" - o romance é, em meu entender, a procura de Momik, em adulto, do caminho que levará a tornar-se escritor. 
    Na primeira parte, Momik é-nos apresentado como um rapazinho judeu, filho de sobreviventes do Holocausto, assombrado pela "Besta nazi" que lhe disseram poder surgir de qualquer criatura viva. Momik chama a si a missão de enfrentar a Besta e de a destruir para que deixe de aterrorizar a família.
    Entretanto, é deixado em sua casa o irmão da avó, que Momik "adota" como seu avô - Wasserman. O avô terá enlouquecido nos seus tempos no campo de concentração, onde, por não conseguir morrer, se torna o "judeu doméstico" do oficial Neigel, responsável pelo campo e que, em criança, lia os que Wasserman-Scheherazade escrevia em revistas: As Aventuras dos Meninos do Coração de Oiro. Acordam então que Wasserman escreverá a última aventura dos meninos e que a contará todas as noites a Neigel, em troca de este o tentar matar também todas as noites. Wasserman terá ficado retido na sua própria historia, que repete ininterruptamente a um Herrneigel (Herr Neigel) imaginário:

   ... mas Momik viu logo que o avô também não e nenhum fracalhote, longe disso, e quando lhe tocam na história fica logo outro homem! Sim, o avô agarrou na perna de galinha, agitou-a no ar e gritou no seu hebraico que não permitia que Herrneigel se imiscuísse na história, porque a história era toda a sua vida e não tinha mais nada além dela, e Momik, que de medo quase fez nas calças, viu pela expressão do avô que o Nazikaputt tinha ficado um pouco assustado e cedera, porque o avô parecia mesmo convincente e cheio de razão, e então, de repente, o avô virou a cara da parede e olhou para Momik com o seu olhar vazio, e nesse momento Momik teve a certeza absoluta de que, se o avô quisesse, era capaz de o atrair para dentro da sua história, como fizera com Herrneigel (...) e nunca mais o encontrariam ...

    A terceira parte, sobre a relação de Wasserman e Neigel, bem como a segunda, acerca de Bruno Schulz, são escritos por Momik já adulto e em busca de material para os seus romances. O último capítulo, escrito sob a forma de enciclopédia reúne vários personagens dos capítulos anteriores e conta o desfecho da história de Neigel e Wasserman e da última aventura dos Meninos do Coração de Oiro: o bebé Kazik.
    Extremamente bem escrito e sem dúvida alguma fruto de uma imaginação muito fértil, o livro é confuso e muito longo, e confesso que me cansou. Não deixa de ser uma obra riquíssima.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Todos devemos ser feministas, Chimamanda Ngozi Adichie (Leya - Dom Quixote)

    Há uns tempos, a conversar com um amigo - já não me recordo do tema da conversa - ele diz-me algo como "Às vezes pareces mesmo feminista. Eu sei que não és, calma! Mas pronto, é como falas do assunto." Surpreendida respondi-lhe "Como não sou? Claro que sou feminista!" E a minha vontade era mesmo ter dito: "E nos tempos que correm não compreendo como alguém pode não o ser.".
    Este meu amigo, com quem gosto bastante de conversar, porque é uma pessoa informada e aberta ao diálogo, tinha, infelizmente, a ideia errada - e aparentemente recorrente - do que é o feminismo. Não, não é um monstro hediondo que quer subjugar os homens às vontades e caprichos das mulheres. É tão-só a igualdade de género.
    O assunto é abordado de forma muito simples neste livro, que a minha mãe tentou que o meu irmão - também ele, incompreensivelmente, a meu ver, ainda com a ideia errada do que é o feminismo - lesse. O livro resultou da adaptação de uma intervenção da autora na TED. Lê-se num instante e facilita o esclarecimento. Afinal, quem não gosta de se tornar um pouco mais culto?
    Deixo aqui apenas duas passagens curtas:

    Os seres humanos viviam num mundo onde a força física era o atributo mais importante para a sobrevivência: quanto mais forte a pessoa, mais hipóteses tinha de liderar. E os homens, de uma maneira geral, são fisicamente mais fortes. Hoje (...) a pessoa mais qualificada para liderar (...) é a mais inteligente, a mais culta, a mais criativa, a mais inovadora. Tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos.

    «Porquê usar a palavra feminista? Porque não dizer que acredita nos direitos humanos (...)?» Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral - mas escolher uma expressão vaga como direitos humanos é negar a especificidade e particularidade do problema do género.

    Nota: O livro inclui ainda o conto "Casamenteiros" sobre uma mulher nigeriana que é dada em casamento a um estudante de medicina, também nigeriano, mas a viver na América.

domingo, 1 de novembro de 2015

Naqueles braços, Camille Laurens (Publicações D. Quixote)


   Nas minha tentativa anual de organizar os livros que tenho nas várias estantes do sótão, encontrei este livro que comprei há já alguns anos. Por rotina, mantenho cá em baixo, entre a sala e o meu quarto, os livros que ainda não li, e remeto para o sótão os que já li, embora alguns desçam as escadas e aterrem de novo no meu quarto, na mesinha de cabeceira, para voltar a lê-los. Não sei porque tinha enviado este para as prateleiras dos já lidos. Confesso que alguns livros que não li, mas de cuja leitura desisti, terminam por ser enviados para o sótão antes de chegada a sua hora. Se foi o caso deste, não sei, porque quando o folheei comecei a lê-lo imediatamente. Se não é um livro excecional, é contudo muito original na forma como está estruturado: pequenos capítulos, cada um dedicado aos homens da vida da autora, mas que se repetem. O pai, o editor, o marido, o namorado, o amante, o professor, o primeiro amor...poucos são nomeados, André, o amante da mãe, Amal, um namorado marroquino e Abel Weil, psicanalista(?). E há um título recorrente: A sós com ele. A sós como homem.
    Através dos homens, alguns que permaneceram outros que são memórias fugazes, conhecemos a vida da narradora que umas vezes se assume como tal (Ontem fiz uma experiência) e noutras aparece na terceira pessoa (Ela escreve porque ele se cala.) Pela relação que estabelece com os diferentes homens constrói-se ela e a leitora capta a sua imagem. Leitora porque ela reconhece que são as mulheres que a lêem (sei que são as mulheres que lêem, mas eu não poderia escrever se não pensasse, ainda que de forma confusa, silhueta a contraluz, que é um homem,)
    Gostei de ler, gostei destes fragmentos de vida, vistos pelos olhos dos homens, pelos diálogos  com eles, pelo peso e importância que têm nas nossas vidas, o pai, os namorados, amantes e maridos, os filhos...
     Porque como ela diz a dada altura: Mas o que é você sem mim?A  mulher  é o corpo do homem, o homem é o corpo da mulher. Somos um para o outro o que nos mantém vivos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A coisa à volta do teu pescoço, Chimamanda Ngozi Adichie (D. Quixote)

   
     Os livros da Chimamanda são um bilhete seguro para uma viagem pelas suas histórias, personagens e paisagens. Até agora nunca me desiludiram. Este livro é composto por 12 histórias, passadas na Nigéria, África do Sul e nos EUA. Mas mesmo aquelas cuja ação decorre fora da Nigéria são nigerianas, pelas vivências, personagens e pela própria história. 
    Cela Um, a primeira história, relata a prisão de um jovem, filho de professores universitários, que é preso na sequência de desacatos provocados por cultos. E se ficamos chocados com a descrição da prisão não ficamos menos pela forma como os pais antes tinham lidado com os antecedentes criminais do filho que, na nas condições terríveis da prisão parece amadurecer. 
    Imitação conta a história de uma mulher nigeriana, Nkem, residente com os dois filhos nos EUA. O marido vive e trabalha na Nigéria e visita-a apenas no Verão. Quando Nkem sabe que o marido levou uma namorada para a casa de ambos na Nigéria, decide que irá regressar. Uma outra nigeriana, na mesma situação, diz-lhe que os maridos preferem viver na Nigéria porque a América não reconhece os Grandes Homens. Ninguém lhes diz: - Senhor! Senhor! - na América. Ninguém se apressa a limpar o pó à cadeira antes de eles se sentarem.
    Uma  experiência privada relata a história de uma jovem, estudante universitária, que se esconde numa loja com uma mulher de uma etnia diferente para escaparem aos motins e como nesse espaço abandonado e vazio trocam confidências e se protegem mutuamente.
    Fantasmas fala de sobreviventes da guerra do Biafra, dois homens James Nwoye e Ikenna Okoro, que se encontram à entrada da universidade onde leccionaram. O fantasma não é Ikenna que todos julgavam morto, mas a mulher de James, Ebere, que o visita à noite e é por isso que ele deixou de ir à Igreja: "porque já não tinha incertezas. São as nossas dúvidas em relação à vida depois da morte que nos levam à religião".
    Na segunda-feira da semana anterior, Kamara, nigeriana, recém-chegada aos EUA para se reunir com o marido, começa a trabalhar, a tomar conta de uma criança. Estranha o marido por quem se apaixonara na universidade, mas os anos que ele passou nos EUA antes de a chamar, tornaram-nos estranhos. Quando conhece a mãe da criança, uma artista, sente-se especial pela atenção quase hipnótica que ela lhe dedica, mas cedo se apercebe que não é exclusiva.
    Jumping Monkey Hill é o nome da estância turística que acolhe a Oficina de Escrita Criativa de Escritores Africanos. Ujunwa, ecritora nigeriana, participa nesta Oficina, organizada por um casal inglês, com ideias feitas sobre África. Ujunwa começa por inventar uma linhagem real - na história que inventa menciona que um dos seus antepassados tinha capturado um mercador português no século XVII e o tinha mantido, bem tratado, numa jaula real. Curiosamente, os participantes, mesmo os africanos, não acreditam na história que escreve e que além de verdadeira é autobiográfica.
    A coisa à volta do pescoço, que dá o nome ao livro, fala de uma jovem nigeriana que consegue o visto para os EUA para onde parte cheia de ilusões. Depois de ter fugido da casa dos tios onde inicialmente ficou instalada, começa a trabalhar num pequeno restaurante, onde conhece um jovem americano que se apaixona por ela, e se a coisa à volta do pescoço dela antes quase a sufocava antes de adormecer, começa então a alargar-se e a desfazer-se. Mas ela sabe que a diferença entre ambos é intransponível e quando recebe a carta a dizer que o pai morreu regressa à Nigéria.Estranhamente, este conto é narrado na segunda pessoa do singular o que não é muito comum, e confere ao conto um toque quase profético.
    A Embaixada americana relata a história de uma mulher cujo filho - uma criança de 4 anos - foi morto quando os soldados procuravam o marido que conseguira fugir. Aguarda pela entrevista para obter o visto.para os EUA e leva-nos a interrogar sobre a coragem. O marido dela é considerado um homem corajoso por denunciar o regime mas ela considerava-o de um egoísmo exagerado. E recorda a fuga dele e a chegada dos soldados e a morte do menino. Termina por abandonar a Embaixada porque recusa a nova vida que implicaria o visto, porque nessa nova vida perderia a sua identidade, que se mantivera mesmo com o menino morto: era a sua mãe.
    O Estremecimento conta a história de Ukamaka que vive em Princeton e que receia que o seu ex namorado tenha morrido num avião que se despenhou na Nigéria. Nesse dia bate-lhe à porta Chinedu, também nigeriano, cujo visto expirou e que é profundamente religioso e quando ele reza, ela sente um estremecimento que ele interpreta como um sinal de Deus. Entre ambos, apesar das diferenças, vai-se estabelecendo uma cumplicidade que a leva a procurá-lo quando  ele deixa de aparecer.
    Casamenteiros retrata a situação de um casal nigeriano cujo casamento foi arranjado e que parecia perfeito. Ele era médico e residente nos EUA. Quando ela chegou aos EUA e à sua nova casa percebeu quão distante estava do que tinha sonhado. Ele tenta americanizá-la, nas palavras, nos hábitos, na comida, mas a gota de água surge quando ela descobre que ele se tinha casado previamente com uma americana para obter o visto,
    Amanhã é demasiado tarde arrepiou-me. É um conto sobre a culpa verdadeira e profunda carregada desde a infância. De novo aparece a questão da preferência pelos filhos e pelos filhos dos filhos em detrimento das filhas e dos filhos das filhas e os efeitos devastadores desta preferência.
    A historiadora obstinada é, para mim, o momento alto deste livro. As personagens femininas são inesquecíveis, Nwamgba e a sua neta, Grace. De tal forma acreditei nelas que andei à procura do livro que Grace teria escrito "Pacifying with Bullets: A reclaimed History of Southern Nigeria" em vão. Talvez seja melhor assim e que sejam personagens de ficção

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O miúdo que pregava pregos numa tábua, Manuel Alegre (D. Quixote)



   Gosto do Manuel Alegre poeta. Acho que foi um dos grandes poetas da resistência. Muitas das letras das músicas que cantámos antes e depois do 25 de abril são dele. 
    Já tinha começado a ler um livro que não de poesia (Alma) e tinha-o largado porque me irritou a narração demasiado egocêntrica. A convicção da sua importância que lhe é transmitida pela família desde sempre (na altura lembro-me de pensar que a irmã o devia odiar). 
    Acabei agora de ler este livro O miúdo que pregava pregos numa tábua, e mais uma vez é ele, mas, desta feita, mais frágil. Menos convicto de si, porventura. Convoca para o livro os seus mortos, família e amigos, e a proximidade da morte, dos outros e a própria, talvez explique este discurso menos centrado em si próprio (embora ainda admita a possibilidade de a sua obra ser a continuação de Os Lusíadas, uma bravata que anunciara em jovem (…) E meteu mãos à obra. Mas ainda hoje não sabe se conseguiu.)
    De resto é um livro terno, cheio de recordações e de pessoas e muito bem escrito. Quase um poema em livro ou em música pois como lhe disse a mãe o poeta é que faz a música.


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quinta-feira, 16 de julho de 2015

Índice médio de felicidade, David Machado (D. Quixote)

    Um livro surpreendente, pela abordagem, pela narrativa, pelas personagens, mas que resulta. Prende-nos desde o princípio e embora nos sintamos compelidos a lê-lo,  receamos o pior. Isto é, tememos que ainda possa piorar.
    Daniel, o protagonista principal, narra a história na forma de um diálogo com o seu melhor amigo Almodôvar, que está preso e que se recusa a receber visitas. Xavier, amigo de ambos, sofre de uma forte depressão e está trancado em casa há muito tempo. Daniel trabalhou vários anos numa agência de viagens que terminou por fechar as portas e está desempregado. Recusa seguir a mulher e os filhos para Viana do Castelo onde esta vive com os sogros e com os filhos de ambos, porque fazê-lo seria perder a esperança em voltar a ter uma vida normal: uma casa, um carro, um emprego.. 
    Os capítulos são designados pelo índice médio de felicidade de Daniel e pelos países que têm esse mesmo valor (com exceção do último). Xavier, que Daniel considera o homem mais infeliz da cidade, embora pense que a maior parte das pessoas não percebe nada de felicidade, tem 149 países listados pelo índice médio de felicidade que se baseia num questionário com uma única pergunta: Numa escala de 0 a 10, quão satisfeito se sente com a vida no seu todo? e considera que as pessoas deveriam mudar-se para o país que apresenta o mesmo índice de felicidade, pois desta forma sentir-se-ão mais integrados. 
    Embora descrente, Daniel vai respondendo continuamente a esta questão que posa a si próprio e aos filhos. Daniel vai adiando a inevitável partida porque é chamado a intervir e a ajudar o seu velho professor, Ávila, e depois o filho do Almodôvar. No meio deste remoinho sente que vai perdendo o contacto dos filhos e que estes se encontram perdidos e desmotivados
   Xavier participa ainda num blogue pensado por Almodôvar, que na sua génese uniu os três, e que visava construir uma rede de entreajuda e quando já não acreditavam que alguém verdadeiramente necessitado recorresse surge o pedido de uma portuguesa, residente na Suíça, paraplégica que precisa de ajuda para ir visitar o irmão que está em coma, num hospital em Marselha. E se esta viagem pode pôr em risco a única oportunidade de emprego que Daniel recebeu, leva o Xavier a sair de casa, junta os filhos a Daniel e permite que o filho do Almodôvar se afaste das más companhias,  terminando por ser redentora para os que nela participam (E não tenho medo, Almodôvar, continuo a acreditar, a vida ainda é como sempre foi. Apesar de tudo, os dias deste mundo ainda são feitos de luz e o escuro da noite continua a meter medo. E nós ainda aqui estamos, Almodôvar.)
    O livro é um retrato do nosso país. Um retrato nosso, da nossa vida, agora e aqui. Assustador por isso. Pelas interrogações que deixa. Mas importa salientar a abordagem feita, que ignora causas, política e políticos, economia e dados estatísticos, com execção dos relativos à felicidade, mas que é porventura por isso mesmo mais violento no retrato que nos deixa. Sentimo-nos sempre à beira do abismo, com receio que piore ainda mais. As coisas correm mal mas podem ainda ser piores e por isso sentimos algum alívio quando acabamos de ler e percebemos que afinal não foi assim.
    A escrita é fluida e coloquial mas tem momentos muito bons:
    Só que não deveria ser assim, Almodôvar, não deveríamos precisar de dias maus para dar valor aos bons, essa alegria deveria existir sempre, não apenas nos momentos de alívio. Mas estamos condenados por esta obsessão em relativizar tudo. Aqui e agora nunca são suficientes, travamos uma luta contínua, impossível de resolver, porque não aceitamos menos, porque queremos sempre mais.

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sábado, 20 de junho de 2015

A História do Amor, Nicole Krauss (Publicações Dom Quixote)

    Andava eu a "vaguear" pelo "Goodreads" quando me deparei com este livro. Como é meu hábito, li o resumo, que me interessou bastante: Leo Gursky comunica com o vizinho para irem sabendo se o outro está vivo; mas há sessenta anos, apaixonara-se e escrevera um único livro, que julga perdido - "A história do amor". Mas não só o livro não se perdeu, como atravessou o mundo e gerações, servindo inclusivamente de inspiração para o nome de uma rapariga americana - Alma.
    Julguei lembrar-me de já ter visto o livro lá por casa, e até durante bastante tempo na estante giratória da sala. Encontrei-o uns tempos mais tarde, no sótão e, quando li o resumo, reconheci a história que me tinha interessado e comecei a lê-lo.
    Enquanto Leo se vai interrogando sobre como será a sua morte, e vai procurando gerir a dor da morte do filho que nunca soube da sua existência ("talvez seja esse o significado de ser pai - ensinarmos os nossos filhos a viver sem nós. A ser assim, ninguém terá sido melhor pai que eu."), Alma lida com as suas próprias descobertas e questões de rapariga de 14 anos ("Porque é que as pessoas são sempre batizadas com nomes de pessoas mortas? Já que têm de ser nomeadas a partir de qualquer coisa, por que não a partir de coisas mais perenes, como o céu, ou o mar, ou mesmo ideias, que nunca morrem, nem mesmo as más?"), enquanto tenta ajudar o irmão mais novo a integrar-se ("Tens de tentar ser normal!") e procura trazer a mãe de volta à vida e ao amor:

    "18. A MINHA MÃE NUNCA SE DESAPAIXONOU DO MEU PAI
Manteve o seu amor por ele tão vivo como no verão em que se conheceram pela primeira vez. Para o conseguir, virou as costas à vida. às vezes subsiste durante dias a água e oxigénio. Sendo a única forma de vida complexa conhecida a fazê-lo, o seu nome devia ter designado uma nova espécie. (...)
   A minha mãe (...) escolheu o meu pai, e para preservar um certo sentimento, decidiu sacrificar o mundo."

  Entretanto vamos sabendo o que aconteceu ao livro, e o motivo pelo qual ele surgiu: Alma Mereminski, o amor de juventude de Leo Gursky. Não posso deixar de partilhar a passagem seguinte, a mais bonita do livro (em me entender):

    "Se eu tivesse uma máquina", disse eu, " todos os dias te tirava uma fotografia. Assim havia de lembrar-me como tu és todos os dias da tua vida." "Sou sempre igual." "Não és não. Estás sempre a mudar. Todos os dias um bocadinho. Se eu pudesse, guardava um registo de tudo." "Já que és assim tão esperto, diz-me lá em que é que eu mudei hoje?" "Para já, estás uma fração de milímetro mais alta. O teu cabelo está uma fração de milímetro mais comprido. E os teus seios estão uma fração de..." "Não estão nada!" "Isso é que estão." "NÃO estão." "Estão, estão." "E que mais, seu grandessíssimo ordinário?" "Estás um bocadinho mais feliz e um bocadinho mais triste." "Quer dizer que se anulam mutuamente, deixando-me exatamente na mesma." "Nem por sombras. O facto de estares um bocadinho mais feliz hoje não altera o facto de também estares um bocadinho mais triste. Todos os dias te tornas um bocadinho mais triste e feliz, o que significa que agora, neste preciso momento, estás mais triste e mais feliz do que alguma vez estiveste em toda a tua vida." "Como é que tu sabes?" "Pensa lá bem. Alguma vez te sentiste tão feliz como agora, deitada aqui na relva? " Acho que não. Não." "E alguma vez te sentiste mais triste?" "Não." "Nem toda a gente é assim, sabes. Algumas pessoas, como a tua irmã, tornam-se apenas mais felizes de dia para dia. Outras, como Beyla Asch, ficam só mais tristes. E outras, como tu, ficam ambas as coisas." "Então e tu? Também estás mais feliz e mais triste do que nunca?" "Claro que sim." "Porquê?" "Porque nada me faz mais feliz nem mais triste do que tu."

    O livro está escrito de forma maravilhosa e, infelizmente, esta entrada já está demasiado grande para partilhar mais passagens. Confesso que fiquei um pouco desiludida com o final, que me pareceu demasiado abrupto - contava com mais, mais explicações, mais descobertas. Senti como se a autora tivesse subitamente ficado farta de escrever. De qualquer forma, o livro valeu pelos momentos em que sustive a respiração com a beleza de algum trecho, que me fazia fechá-lo por uns momentos, para absorver tudo o que tinha acabado de ler, antes de me permitir continuar.

domingo, 22 de março de 2015

Stoner, John Williams (D. Quixote)



    Já tinha decidido que deixaria de comprar livros pelas indicações das capas que os identificam como o melhor livro do ano ou da década. Stoner traz na contracapa uma citação do New Yorker deste tipo (O melhor romance americano de que nunca ouvimos falar...), mas foram as indicações na capa, todas de escritores de que gosto, que me surpreenderam e me levaram a folheá-lo. A leitura quase obsessiva começou nesse momento.
    E terminada a leitura volto a interrogar-me o que faz um bom livro. O que faz um leitor não conseguir pousar um livro e continuar a lê-lo quase sem interrupção. Neste caso não é, seguramente, a história que se pode contar em poucas linhas, e que é contada logo no início do livro: Stoner, filho de pais agricultores, tem a  possibilidade de continuar os estudos e na faculdade apaixona-se pela literatura e pelo ensino. Depois de concluir os estudos segue a carreira de professor na mesma universidade, numa vida absurdamente monótona, marcada por um casamento sem paixão. É, no entanto, por esse casamento que termina por perder a relação com a filha e com Katherine Driscoll por quem se apaixonou.
    Mas talvez não se trate de recear arriscar o casamento mas a vida que seguiu, de deixar de ser quem era e o que o definia (...concentrava todas as suas energias no momento presente do seu trabalho e esperava ser finalmente definido pelo que fazia.) E o que fazia era dar aulas na universidade que via como um abrigo, um refúgio do mundo, para os desalojados, os enfermos. Essa ideia foi-lhe aliás transmitida por um amigo, um colega que morreu na I Guerra, que disse: É para nós que existe a universidade, para os desalojados do mundo.
    E é dessa forma que Stoner se vê. Apaixonou-se pela literatura, pelo ensino e sabia que não tinha outro lugar no mundo. Por esse lugar, esse abrigo que ele defende contra o mundo, ele resigna-se e aceita as condições que a mulher lhe impõe em casa e o diretor na universidade.
    O próprio livro aborda a  estranheza da paixão pelos livros e pela literatura:
   Esse amor à literatura, à língua, aos mistérios da mente e do coração que se revelavam nas ínfimas, estranhas e inesperadas combinações de letras e palavras, na tinta mais negra e fria....esse amor que escondera como se fosse ilícito e perigoso começou ele então a mostrar, hesitantemente a princípio e depois com ousadia e, por fim, com orgulho. 
   
    Talvez a razão para a qualidade e a atração por este livro residam na qualidade da escrita aliada à reflexão sobre a vida, o amor, a amizade e a morte, tornando quase irrelevantes o espaço e tempo em que a vida de Stoner decorre. Não resisti a roubar algumas frases:
    Chegara àquela idade em que lhe ocorria, com crescente intensidade, uma pergunta de uma simplicidade tão avassaladora que não tinha como a enfrentar. Dava por si a perguntar-se se a sua vida valeria a pena, se alguma vez valera a pena. Era uma pergunta, desconfiava ele, que assolava todos os homens a dada altura; perguntou-se se os assolava com uma força tão impessoal como o assolava a ele. A pergunta acarretava uma tristeza, mas era uma tristeza geral que (pensava ele) pouco tinha que ver consigo ou com o seu destino em particular (...) que, a longo prazo, todas as coisas, incluindo a aprendizagem que lhe permitia chegar àquela conclusão, eram fúteis e vazias e, por fim, reduziam-se a um nada que já não conseguiam alterar.
     (...) 
    No seu quadragésimo terceiro ano de vida, William Stoner aprendeu o que outros, muito mais jovens do que ele, tinham aprendido antes de si: que a pessoa que amamos no início não é a mesma que amamos no fim, e que o amor não é uma meta e sim um processo através do qual uma pessoa tenta conhecer outra. 
     Há uma amargura no livro, porque o autor, também professor universitário, nas palavras iniciais com que resume a vida de Stoner, diz que poucos alunos se lembravam dele  e que os colegas raramente falam dele agora. Uma vida que não valeu a pena.
    Uma palavra final para a história do próprio livro que, publicado em 1965, caiu no esquecimento de onde é resgatado quase 50 anos depois, quando é traduzido para francês, sendo em 2013 eleito o melhor livro do ano pelos leitores da livraria britânica Waterstones.
    Um livro excecional a não perder.


sábado, 10 de janeiro de 2015

Bem hajm! Apontamentos de viagem à Arménia, Vassili Grossman (D. Quixote)

    A professora de piano do meu filho mais novo é de origem arménia. Desconhecendo quase tudo sobre o seu país, pedi-lhe que me indicasse um autor para ler. Fez mais que isso, emprestou-me este livro de Vassili Grossman, ucraniano. Grossman escreveu este livro quando esteve na Arménia a rever uma tradução para russo de um romance arménio. O livro, de 1962,  terminou por não ser editado então pelos temas tratados. 
    Como o próprio nome indica, são mesmos apontamentos de viagem ou um diário de viagem. 
    Conseguimos imaginar o autor a chegar à Arménia e a surpreender-se com a paisagem (A pedra cinzento-esverdeada não se ergue em monte ou penedo, é um esparramado no terreno plaino, um campo pedregoso; o monte morreu, o seu esqueleto espalhou-se pelo campo. O tempo envelheceu e mortificou o monte, e jazem aqui os seus ossos.), a espantar-se com as pessoas (Foi surpreendente para mim: entre os arménios há muitos loiros, de olhos cinzentos, azul-claros, azul-escuros... E é dificil dizer-se o que é mais digno de admiração, se a variedade, se a constância persistente), com a riqueza de caracteres humanos e a tentar apreender o povo arménio. Como refere, Os primeiros minutos na rua de uma cidade desconhecida são momentos especiais, insubstituiveis, inapagáveis durante meses e até anos. 
    A curiosidade pelo país e pelas pessoas vai sendo satisfeita pelas viagens e pelas pessoas que vai contactando e conhecendo. Mas o livro não se esgota nesta curiosidade e, de forma genuina, o autor fala das suas vivências, desde a viagem até aos suburbios à procura de um lugar para urinar (Corri para o descampado, escondi-me no meio dos outeiros e dos buracos....Que sentimento de felicidade) até à noite em que se sente tão mal que pensa que vai morrer e para além do terror que o assola, angustia-se com a sua solidão.
    O livro é uma verdadeira pérola porque encadeia descrições da paisagem com reflexões, apontamentos históricos com pequenas histórias pessoais, gastronomia e costumes locais, mas sem nunca enfastiar. E importa referir que, ao longo do livro, o autor revela um profundo respeito pelo povo arménio (O pequeno povo começou a parecer-me um povo gigante).

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Americanah, Chimamanda Ngozi Adichie (D. Quixote)

    Não sei como vou passar os próximos dias sem a companhia de Ifemelu, a protagonista de Americanah.
    Americanah começa em Princeton, onde Ifemelu reside durante uns tempos e onde não há (havia?) um cabeleireiro em que uma negra possa entrançar o cabelo. Ifemelu tem uma bolsa de investigação na universidade de Princeton, é autora de um blogue polémico sobre questões de raça, como é identificado, e que tem imenso sucesso. Decide, no entanto, e para surpresa de todos, regressar ao seu país, Nigéria.
    A conversa no cabeleireiro que é forçada a entabular, obriga-a a justificar a decisão de regresso e a inventar razões (arranjei emprego lá...) mas o principal motivo para o regresso é Obinze, o seu amor de juventude. Este é o cenário de partida, mas daí circulamos por várias cidades dos EUA, pela Nigéria e pelo Reino Unido, para onde Obinze emigrara. E em simultâneo viajamos no tempo.
    À infância e adolescência na Nigéria, seguem-se a partida e a descoberta da diferença e as dificuldades iniciais que nem sequer são atenuadas, no caso de Ifemelu, pela bolsa. Obinze, no primeiro emprego que arranja em Londres identifica-se com outra emigrante que, pressentiu, provinha de um meio semelhante ao dele, com uma infância protegida pela família, por refeições regulares, por sonhos nos quais não era concebível acabar a limpar quartos de banho em Londres. Ifemelu confronta-se com ataques de pânico e depressão que, pensava, só aconteciam aos americanos: Ninguém em Kinshasa tinha ataques de pânico. Não era que lhes chamassem outra coisa, simplesmente não lhes chamavam nada. As coisas só começavam a existir quando lhes eram dados nomes?
    As dificuldades que os dois sentem, de forma separada, nos países para que emigram, são de ordem diversa, desde financeiras a culturais, destacando-se especialmente as resultantes do racismo e xenofobia. E se a leitura deste livro e dos posts de Ifemelu nos levam a questionar as nossas atitudes e preconceitos relativamente ao outro, ao estrangeiro, à pessoa de outra raça, estou absolutamente convicta do abismo que existe entre a Europa e os EUA nesta questão. Basta aliás ver a descrição do seminário de História, na universidade onde Ifemelu estuda, em que a palavra "preto" no filme Raízes foi substituida por um bip, e a discussão que se segue.
    Obinze é obrigado a regressar e torna-se um homem de sucesso na Nigéria. Ifemelu permanece mais tempo nos EUA, onde também reside a  sua tia Uju e o filho Dike. Namora primeiro com Curt, um branco, e depois com Blaine, mas termina por sentir sempre a ausência de Obinze. A campanha eleitoral de Barak Obama prolonga a relação com Blaine, permitindo uma comunhão de interesses e objectivos e a integração no círculo de amigos de Blaine.
    Curiosamente encontrei no relato das conversas sobre Barak Obama os mesmos argumentos que já ouvi/li sobre os direitos das mulheres, no sentido que só haverá verdadeira igualdade quando uma mulher vulgar ou mesmo medíocre ocupar um alto posto (A América terá feito reais progressos quando um tipo negro vulgar da Georgia se tornar presidente, um tipo negro que tenha tido nota mediana na universidade, p. 537), no entanto, Iefemelu nunca se identifica com esta questão ou menciona a discriminação das mulheres.
    É um livro fascinante, não só pelo relato da vida na Nigéria, mas sobretudo pela forma como encaram as sociedades para onde emigram e o olhar que lhes é devolvido ou que sentem como tal. Como disse, vou ter saudades de ter a Ifemelu e de acompanhar o seu dia a dia.

    Quando estava  a ler este livro, por coincidência, uma amiga minha que atualmente reside em Luanda enviou-me o link para uma intervenção que a autora faz sobre o perigo das histórias únicas:
http://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story?language=pt

terça-feira, 21 de outubro de 2014

A sombra da sereia, Camilla Läckberg (D. Quixote)

       O segundo livro desta autora, oferecido pela minha mãe em conluio com a minha filha, ambas cúmplices no horror a policiais e às descrições de crimes e sangue a escorrer que, mais raramente do que creem, enchem as páginas dos livros policiais.
    O efeito surpresa não existiu desta feita. A narrativa é muito simétrica à do outro livro: um crime acontece na tranquila vila de Fjallbacka, Patrik Hedstrom, inspetor, conduz a investigação e a mulher, a escritora Erica Falk vai investigando por sua iniciativa e acrescentando peças ao puzzle. A narrativa desdobra-se em dois momentos distintos, marcados também pelo tipo de letra.
   Ao mesmo tempo que seguimos a investigação, vamos acompanhando a vida familiar de Erica e Patrik e restante família, marcada pela tranquilidade e pelos afetos em claro contraste  com os crimes que investigam.
     Se o efeito surpresa não existiu, porque a forma como o livro está estruturado é muito similar ao d'A Ilha dos Espíritos - cuja ação é posterior à deste livro - quase desde o meio do livro não pude deixar de me lembrar do Psycho de Alfred Hitchcock e dessa forma antecipar o desfecho. Não leio policiais à espera de descobrir o criminoso antes de este ser revelado, mas gosto de ser surpreendida, o que não aconteceu neste livro, o que somado a uma trama modesta, personagens com pouca densidade e até com alguns lugares comuns, diminuiu o interesse na leitura de outros livros desta autor.

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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Um homem muito procurado, John Le Carré (D. Quixote)

    Mais um livro que, na contracapa, promete que não o conseguiremos pousar; mais um livro que só me apetecia pousar e que foi uma enorme deceção. Honestamente não consegui perceber a ideia... E um livro que fica só na superfície, como um trabalho incompleto redigido por um aluno preguiçoso e sem capacidade de aprofundar ideias.
    Issa Karpov chega à Alemanha em muito mau estado e recorre a um Santuário para imigrantes ilegais e à sua advogada Annabel Richter, proveniente de uma família muito influente na área do Direito. Issa tem de reclamar o dinheiro do pai, que renega por ter sido um bárbaro russo, que violou a mãe chechena, e que está depositado numa conta semi-secreta no banco privado de Tommy Brue, que também se torna aliado deles. Entretanto, o próprio Issa está a ser espiado por vários Serviços de vários países, pelos quais é considerado um terrorista da pior espécie... Mas por outro lado acaba por ser o isco para um outro suposto terrorista... O fim mais parece o meio do livro e acabamos por não perceber se os dois homens são ou não terroristas, nem sabemos como fica a situação familiar de Brue, que vamos minimamente acompanhando ao longo do livro... 
   Não sei mesmo o que mais posso dizer...

domingo, 5 de outubro de 2014

A mancha humana, Philip Roth (D. Quixote)


   Cada vez mais me parecem semelhantes as relações entre pessoas e entre pessoas e livros. Relacionamo-nos com os livros com com as pessoas: apaixonamo-nos, traímos, cansamo-nos, abandonamo-los temporária ou definitivamente...e muitas vezes tinha tudo para dar certo. Foi o caso deste livro: o autor é excelente, o livro aplaudido pela crítica, o tema fascinante. E ao lê-lo sabemos que é bom, que corresponde à expetativa, contudo, impacientamo-nos para que acabe. Aguardamos pela última página e apetece dizer como dizemos às pessoas:"não és tu, sou eu". 
    No caso deste livro, sou eu seguramente a responsável pela impaciência. A minha incapacidade de abandonar os livros agrava-se com os autores que conheço e aprecio. Não consegui por isso abandonar a leitura, mas a dado passo senti que nos arrastávamos, o autor na escrita e eu na leitura, sem vislumbrar a razão para qualquer um de nós.
     Os argumentos a favor do livro são muitos: o autor, o facto de o livro  ter recebido três prémios - Médicis, Literário W.H. Smith e o Pen/Faulkner - as críticas... do meu lado não tenho nenhum, a não ser encontrar-me a divagar depois de alguns parágrafos.
    Este livro faz parte de uma trilogia sobre a vida americana no pós-guerra e, no caso vertente, coincide com o período em que a América debate a impugnação do presidente Clinton, num processo quase impossível de perceber noutras longitudes.Um professor universitário demite-se depois de ter proferido uma palavra que pode ter uma leitura racista. A vida dele a da sua familia mudam abruptamente e é testemunhada por um escritor que, embora tenha recusado o pedido que lhe é feito de contar a verdade, se torna o seu narrador, descobrindo o segredo oculto da vida daquele professor. Um segredo tão bem guardado que nem a mulher, nem os filhos conheciam. Apenas Faunia, a companheira dos últimos dias, o descobre.
    É um livro sobre a solidão mas também sobre a profunda necessidade que temos dos outros, para viver e para serem testemunhas da nossa vida. É também um livro sobre o fingimento, como podemos ser outras pessoas, reconstruirmo-nos ou destruirmo-nos, ignorarmos quem somos, de onde viemos ou o que sabemos.
    É sobretudo uma visão desencantada da vida atual e em especial da sociedade americana. A mancha humana. Diz Faunia, a dado momento " nós deixamos uma mancha, deixamos um rasto, deixamos a nossa marca. Impureza, crueldade, mau trato, erro, excremento, sémen (...) as criaturas inevitavelmente manchadas que nós somos".