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domingo, 5 de outubro de 2014

A mancha humana, Philip Roth (D. Quixote)


   Cada vez mais me parecem semelhantes as relações entre pessoas e entre pessoas e livros. Relacionamo-nos com os livros com com as pessoas: apaixonamo-nos, traímos, cansamo-nos, abandonamo-los temporária ou definitivamente...e muitas vezes tinha tudo para dar certo. Foi o caso deste livro: o autor é excelente, o livro aplaudido pela crítica, o tema fascinante. E ao lê-lo sabemos que é bom, que corresponde à expetativa, contudo, impacientamo-nos para que acabe. Aguardamos pela última página e apetece dizer como dizemos às pessoas:"não és tu, sou eu". 
    No caso deste livro, sou eu seguramente a responsável pela impaciência. A minha incapacidade de abandonar os livros agrava-se com os autores que conheço e aprecio. Não consegui por isso abandonar a leitura, mas a dado passo senti que nos arrastávamos, o autor na escrita e eu na leitura, sem vislumbrar a razão para qualquer um de nós.
     Os argumentos a favor do livro são muitos: o autor, o facto de o livro  ter recebido três prémios - Médicis, Literário W.H. Smith e o Pen/Faulkner - as críticas... do meu lado não tenho nenhum, a não ser encontrar-me a divagar depois de alguns parágrafos.
    Este livro faz parte de uma trilogia sobre a vida americana no pós-guerra e, no caso vertente, coincide com o período em que a América debate a impugnação do presidente Clinton, num processo quase impossível de perceber noutras longitudes.Um professor universitário demite-se depois de ter proferido uma palavra que pode ter uma leitura racista. A vida dele a da sua familia mudam abruptamente e é testemunhada por um escritor que, embora tenha recusado o pedido que lhe é feito de contar a verdade, se torna o seu narrador, descobrindo o segredo oculto da vida daquele professor. Um segredo tão bem guardado que nem a mulher, nem os filhos conheciam. Apenas Faunia, a companheira dos últimos dias, o descobre.
    É um livro sobre a solidão mas também sobre a profunda necessidade que temos dos outros, para viver e para serem testemunhas da nossa vida. É também um livro sobre o fingimento, como podemos ser outras pessoas, reconstruirmo-nos ou destruirmo-nos, ignorarmos quem somos, de onde viemos ou o que sabemos.
    É sobretudo uma visão desencantada da vida atual e em especial da sociedade americana. A mancha humana. Diz Faunia, a dado momento " nós deixamos uma mancha, deixamos um rasto, deixamos a nossa marca. Impureza, crueldade, mau trato, erro, excremento, sémen (...) as criaturas inevitavelmente manchadas que nós somos".

domingo, 31 de agosto de 2014

A ilha dos espíritos, Camilla Läckberg (Dom Quixote)

   Um dos meus maiores prazeres nas férias de verão é a leitura de um bom livro policial. Ainda não tinha lido nenhum desta autora e confesso que a leitura do livro me prendeu desde o início. A história é muito complexa e à trama policial soma-se a vida familiar e a envolvência social e politica de uma pequena comunidade sueca. 
    Embora o crime que desencadeia a investigação seja o homicídio aparentemente inexplicável de Matts Sverin, a trama centra-se sobretudo na questão da violência doméstica e nos efeitos e consequências que desencadeia.
    O livro decorre em dois contextos temporais e espaciais, no presente em Fjällbacka e, no passado, em 1870, na ilha de Gråskär. Mas em ambos o crime de violência doméstica é o detonador da sequência de eventos que constitui o cerne do livro. 
    O final é absolutamente inesperado e constitui uma reviravolta na investigação e na perceção que o leitor foi construindo durante a sua leitura, mas reduzir este livro a um mero policial é muito redutor, porque lateralmente fala de várias situações de violência doméstica e da dificuldade de, em muitos casos, encontrar soluções dentro da lei; fala também das consequências nefastas da divulgação descuidada de elementos da investigação policial na comunicação social, e ainda, entre outros, da corrupção e da promiscuidade na vida política.
    Não li os anteriores livros desta autora, mas fiquei com a ideia que, embora independentes, há continuidade dos protagonistas e das respetivas vidas. Lembrou-me um pouco o ambiente dos episódios de Midsomer Murders, em que ocorrem crimes terríveis em pequenas comunidades aparentemente tranquilas e onde todos se conhecem. 
    Uma excelente leitura, nas férias ou em qualquer outro momento, mas com a disponibilidade de tempo para começarmos e nos dedicarmos à sua leitura quase de um fôlego só.

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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Combateremos a sombra, Lídia Jorge (Edições D. Quixote)

    Confesso que gostei tanto deste livro quanto me surpreendeu. Há muitos anos que não lia Lídia Jorge e tinha a ideia que os livros dela eram pesados e dificeis. Daqueles que reservamos para as férias, para lermos com espaço e tempo. Provavelmente tê-lo-ia apreciado mais se o tivesse lido lentamente, sentada no meu sofá. Mas é um livro irrestivel desde o início, daqueles que não conseguimos largar. Começamos a ler e ficamos presos:
    Deveríamos rir-nos da fragilidade da memória, ou pelo menos sorrirmos das artimanhas do seu esquecimento. Na verdade, passados três anos depois da passagem do Milénio, se nos perguntarem o que sucedeu durante essa noite que então tomámos por memorável, pouco mais do que a figura sideral de um fogo-de-artíficio em forma de chuva de estrelas a cair sobre o cenário de um rio nos virá à mente. E no entanto, a vida não se passou bem assim.
    Para além da escrita, ficamos reféns do enredo, porque o que pensávamos que era um romance, uma história de amor, uma história de solidão, passa rapidamente para uma história policial, para um fresco da vida atual. E sempre com o divã do psicanalista e a sua agenda a abrir-nos as portas.
     Está cá tudo: a passagem do Milénio, Lisboa, o rio, os barcos, os políticos, o casamento, os criminosos, a droga, os desajustados, os loucos....Até a escolha do cenário é perfeita, centrado em Lisboa, na zona de Santos, com a presença constante do Parlamento. 

    Curiosamente, Combateremos a Sombra, foi distinguido com o Prémio Charles Bisset 2008, atribuído pela Associação Francesa de Psiquiatria, mas essa é de facto a chave para a atração do livro, o facto de ter como protagonista um psicanalista, cuja vida se desintegra e refaz ao mesmo tempo que vai acompanhando e deslindando a mensagem dos seus doentes e dessa forma descobre o mundo escondido do crime.

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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O Fiel Jardineiro, John Le Carré (Publicações Dom Quixote)

    Um livro magnífico. Li algures que John Le Carré é um excelente contador de histórias e não posso estar mais de acordo, no que toca a esta história em particular.
     O romance inicia-se com o assassinato brutal de Tessa Quayle e do seu guia, além do desaparecimento do seu companheiro de viagem e presumível amante, o Dr. Arnold Bluhm. Tessa é casada com Justin Quayle, Primeiro Secretário da Embaixada Britânica no Quénia. O desaparecimento de Bluhm leva a que se assuma ter sido um crime passional, versão em que nem o marido, nem os agentes destacados para o caso acreditam. Justin toma como sua a missão de descobrir os assassinos da mulher, desencadeando todo um processo de descoberta dos trabalhos humanitários de Tessa , dos quais sempre se manteve afastado. A viagem começa na casa de família de Tessa, em Itália, passando pela Alemanha, Suíça e Canadá, e de volta ao Quénia.

    Nunca na sua vida Justin fora tão ávido de saber. (...) Preparara-se dia e noite desde que ela morrera. (...) Do que ele precisava agora era de um grande mergulho no mundo secreto de Tessa; precisava de identificar todos os letreiros, todos os marcos miliários da viagem que ela fizera; precisava de exinguir a sua própria identidade para reviver a dela: matar Justin e trazer Tessa de volta à vida. 

     É um romance que desperta muitas emoções, sendo a mais frequentemente sentida a sensação de revolta. Toda a trama gira em torno dos interesses capitalistas da indústria farmacêutica, que se sobrepõem de forma vergonhosa e escandalosa aos interesses humanitários e de saúde. A revolta é tanto maior porque sabemos que não é ficção.

    - O medicamento estava ainda em fase de testes (...) Se ele envenena umas tantas pessoas que em qualquer caso iriam morrer, qual é o problema? O Dypraxa ainda não está autorizado no Reino Unido, portanto não interessa. (...) Os remédios têm de ser testados em alguém (...), quem é que vams escolher? Alunos de Harvard? (...) Não estamos a matar gente que, de outra maneira continuaria viva. (...) Pensa na taxa de mortalidade destas terras [África]. A morte deste ou daquele não conta.

    Justin tenta, com as suas pesquisas, recriar o estudo em que Tessa tinha trabalhado para denunciar esta mesma realidade, e que levou à sua morte.
    O livro está muito bem escrito e aconselho a sua leitura a todos os interessados no tema. Gostei também muito da nota final do autor, em que ele menciona que "em comparação com a realidade, a (...) história é tão inofensiva como um postal de férias" e que não se atreve a nomear nos seus agradecimentos aqueles que, no Quénia, o ajudaram, por receio que, tal como a sua personagem Tessa e um padre americano (não fictício), de nome John Kaiser, possam sofrer determinados "acidentes" mortais.
   Pessoalmente, admiro a coragem de John Le Carré e até me surpreendo por ele não ter sofrido nenhuma "acidente".

domingo, 1 de dezembro de 2013

Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa (Dom Quixote)

   Barroco tropical, o nome do livro, é o título de uma canção sonhada pelos dois protagonistas/narradores, Kianda e Bartolomeu.O espaço narrativo de cada um, dentro de cada capítulo, é identificado no início, pelo símbolo masculino ( de Marte) e pelo símbolo feminino (de Vénus) o que nos permite ir conhecendo a história através de duas perspetivas distintas.
    Dizer que é uma história de amor, tendo como pano de fundo Angola num futuro não muito distante, é redutor. Há um mosaico de personagens que acompanham, convivem com os dois protagonistas principais e que constituem a paisagem da história e lhe conferem densidade. São apresentadas no capítulo 3, depois da apresentação no capítulo anterior das personagens principais. Há ainda o quase diálogo com o leitor, composto por pequenas explicações ou divagações. 
   E depois há um olhar desiludido pelas várias geografias (Hoje os europeus têm muita saúde, mas sentem-se mortos. São mortos muitissimo saudáveis. Nós, pelo contrário, padecemos dos mais diversos males, e morremos muito, morremos constantemente, mas vamo-nos embora com a barriga cheia. Saber viver é saber morrer.).
    Cada capítulo, cada história está magistralmente escrita, descrita,  mas é a história de amor entre os dois protagonistas, ambos profundamente doridos e à beira do abismo que nos toca (O amor é um cão velho e tinhoso, porém obstinado, que nunca desiste. Abandonamo-lo no mato, para morrer de fome e de sede, para morrer de frio, porque queremos que morra, e dias depois ele está de regresso a casa, a abanar a cauda. Enxotamo-lo à pedrada, mas volta sempre.)
    Apesar da história de amor, das personagens que povoam o livro e da escrita, falta uma ligação, como se estivéssemos perante histórias distintas, memórias, contos que se cruzam apenas por acaso.

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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Até sempre mulherzinhas, Marcela Serrano (Dom Quixote)

   O livro estava pousado na secretária da minha amiga Susana. Embora não me recordasse, fui eu quem lho ofereceu há alguns anos, pela cumplicidade partilhada da leitura das Mulherzinhas, de Louise May Alcott.
   Ao contrário do que pensei, não se trata de uma continuação de As Mulherzinhas, mas a história de quatro primas, todas filhas únicas, que partilham as férias na casa da Tia Casilda, no Pueblo, uma localidade situada no sul do Chile. Todos os anos escolhiam um romance para lerem e representarem, mas a escolha das personagens suscitava sempre grandes problemas, sendo a única exceção As Mulherzinhas.   Cada uma das primas se identificava com uma das irmãs e, como se as características de cada uma determinasse os respectivos destinos, também as vidas de cada uma das primas segue a da personagem do livro que personificou na infância.
   Como pano de fundo, temos a casa e a serração da Tia Casilda que alimenta toda a família, incluindo os seus quatro irmãos loucos e inúteis. A falência da serração, coincide com o golpe de Pinochet e a entrada na idade adulta das quatro primas.
   O livro inicia-se e conclui-se com o regresso ao Pueblo para o funeral de Pancha, a criada da Tia Casilda. As três primas sobreviventes, Nieves, Ada e Lola regressam ao Pueblo e embarcam numa viagem ao passado em que acertam contas entre si e com a vida. 
  Como a dada altura é referido, o livro, como a vida, passa do quotidiano ao transcendente, por isso é tão agradável e familiar a sua leitura:
   É típico de nós: passar do quotidiano ao transcendente e depois voltar sem qualquer transição. Por entre o importante, roçamos a frivolidade e o insignificante e nada importa.

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quarta-feira, 11 de julho de 2012

Os Buddenbrook, Thomas Mann (D. Quixote)


    No posfácio da edição portuguesa, Gilda Lopes Encarnação, que traduziu o livro e assina o posfácio, pergunta “Que razões poderão levar um leitor do século XXI a interessar-se por os Buddenbrook, cento e dez anos decorridos sobre a data da sua primeira publicação? Que razões poderão levar um leitor português a interessar-se pela história de uma família burguesa do Norte da Alemanha, pela ascensão e declínio de uma casa comercial fundada numa antiga cidade hanseática, pelas venturas e desventuras de quatro gerações ao longo de quase meio século?
    Feitas estas perguntas, o posfácio não avança qualquer resposta, limitando-se a sintetizar o livro. Mas estas perguntas impõem-se naturalmente.
     A minha primeira resposta é a da qualidade da narrativa e da forma como ciclicamente o autor prende o leitor anunciando e antecipando rupturas ou mudanças significativa na vida dos protagonistas (“Aproximava-se o ano de 1859 do seu fim, quando algo de terrível aconteceu…”).
    O fascínio pelas narrativas que percorrem várias gerações também não foi alheio à leitura deste livro. E porque não referir a identificação que senti com o livro "Correcções” de Jonatahan Frazen, centrado na vida de uma família pequeno-burguesa e que decorre no final do século XX, nos EUA? Por aqui também passam os choques geracionais, os problemas de comunicação, as expectativas e as frustrações familiares, a forma como estas expectativas pesam sobre as gerações vindouras e uns e outros tentam manter as aparências, sobretudo para o exterior. Apesar desta simetria, os dois livros estão separados por um século e decorrem em continentes distintos.
    Outra razão decorre do conflito interior que vive Thomas Buddenbrook, dividido entre o dever, a lealdade à família e à empresa que ostenta o nome da família e a desilusão, a angústia existencial  e o vazio que sente e para o qual parece sentir a resposta na leitura de um livro de Schopenhauer ("Tinha a impressão de que todo o seu ser se havia elevado de modo surpreendente e que se apoderara dele um enlevo profundo e obscuro"). Finalmente, o livro permite-nos perceber a mentalidade alemã, como foi forjada e como contrasta com a mentalidade e a vivência, designadamente dos países meridionais.
    Embora nos seja contada a história de quatro gerações dos Buddenbrook, o livro assenta sobretudo na terceira geração que vive o apogeu e antecipa a queda e o fim. Este fim não é apenas o da empresa que representava a família e corporizava a sua importância e visibilidade, mas o fim real da família através da morte prematura do único herdeiro que ostentava o apelido da família. Este fim é anunciado pelo próprio , que um dia encontra o livro da família onde o pai e anteriormente o seu avô e bisavô haviam registado todos os eventos familiares, cruzando os dados familiares e os da empresa, e desenha uma linha porque achava que depois dele não havia mais nada.
    Nas diversas críticas e recensões do livro que li, Thomas Mann é identificado quer com Thomas, o protagonista quer com Hanno,  seu filho, mas talvez seja um pouco dos dois. De realçar a falta de densidade das figuras feminina, sobretudo de Tony, irmã de Thomas, que respeitando imensamente a família e prezando o seu estatuto social, se divorcia duas vezes e arrasta a filha para um casamento também desastroso. Embora muito presente na narrativa, terminamos por praticamente desconhecer o que sente e deseja e, por vezes, quando exterioriza determinadas emoções, é descrita como se se protagonizasse um ato teatral. 
    Embora seja um livro denso e difícil, sobretudo no início,  compele-nos à leitura e ao desfecho  que quase antecipamos.

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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Liberdade, Jonathan Franzen (D. Quixote)

    Uma crónica de Miguel Esteves Cardoso publicada recentemente (5.12.2011) no jornal Público tinha o seguinte título: "A putice livresca" e tratava da forma como saltamos despudoradamente de um livro para outro ou vamos lendo, em simultâneo, vários livros. Senti-me retratada na crónica, só que desta feita, sem culpa do livro traído e rapidamente abandonado.
    Há alguns dias atrás, encontrei o livro Liberdade pousado na mesa da sala de estar da casa do meu irmão. Um marcador ainda nas primeiras páginas revelava um leitor inicial ou pouco interessado. Comecei a folheá-lo e o meu irmão,generosamente, disse que mo emprestava se o lesse rapidamente. O que fiz.
    Deixei de lado o livro que estava a ler e comecei a ler Liberdade com o mesmo prazer e intensidade com que tinha lido Correcções.
   Apenas o tempo dirá se é o romance do ano e do século (The Guardian) ou se merece estar numa prateleira ao lado de clássicos como Guerra e paz, mas não tenho dúvidas em considerá-lo, como o Times, o principal romance sobre o quotidiano. Quotidiano americano (lá está o 11 de Setembro, a invasão do Iraque, o Bush, os Clintons....)mas, neste período de globalização, semelhante em muito à vivência quotidiana das famílias ocidentais da média burguesia.
   A protagonista principal é Patty, sendo que alguns capítulos são redigidos por ela, de forma autobiográfica, por recomendação do médico primeiro, e depois por sugestão de Richard. Patty vive num triângulo amoroso desde os tempos da universidade, dividida entre o fascínio por Richard, músico e Walter que se viria a tornar advogado. Sabia desde o início que, embora Richard lhe dedicasse os mesmos sentimentos não seria capaz de permanecer numa relação monógama e assegurar-lhe uma vida familiar estável, ao contrário de Walter que também a ama intensamente. Walter e Richard partilham desde os tempos da universidade uma imensa amizade, embora sejam seres absolutamente distintos. Patty escolhe Walter com quem casa e tem dois filhos, mas continua sempre atraída por Richard, que ama, com igual intensidade, os dois elementos do casal.
   Patty foi educada numa família da alta burguesia e tem uma vida mais equilibrada que os irmãos, provavelmente como consequência da displicência com que os pais se relacionaram com ela. Decidida a ter uma relação diferente com os filhos, opta por não trabalhar e ser mãe a tempo inteiro. Terminará por fazer outros erros com os filhos, tendo depois, grandes dificuldades de relacionamento durante a respectiva adolescência. O casamento, a amizade, a família, o mundo como pano de fundo, com os actuais problemas de guerra, terrorismo, poluição, destruição do ambiente e de espécies animais são os elementos principais deste longo livro que, apesar da dimensão, nos consegue prender desde as primeiras páginas. E provar que embora possamos ter as melhores intenções caímos nos mesmos erros e somos julgados com a mesma ferocidade com que julgamos os outros, especialmente as gerações que nos antecederam.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Meia-Noite ou o Princípio do Mundo, Richard Zimler (D. Quixote)

    Quando peguei no livro e o comecei a folhear, indecisa se o iria comprar, a minha irmã disse-me que eu tinha de o ler. Segundo ela, mal iniciasse a leitura, iria ter dificuldade em interrompê-la.
    De facto, trata-se de um livro que nos prende logo nas primeiras páginas, em que acompanhamos a infância ainda protegida de John Zarco Stewart, na cidade do Porto, no início do século XIX. John é filho de um escocês e de uma judia portuguesa, mas só descobrirá esta parte da sua herança através do confronto público feito por um antigo inquisidor, apostado em fazer regressar a Inquisição, com o apoio discreto da Igreja.
    A amizade com Daniel e Violeta, crianças sem a mesma protecção familiar, vai forçá-lo a confrontar-se muito novo com a morte (suicídio) e a violência exercida sobre as crianças/mulheres.
    Só consegue sair da prostração em que caiu com o auxílio de Meia-Noite, um boxímane com que o pai se fez acompanhar de uma viagem à África do Sul. A amizade entre os dois e a integração de Meia-Noite na família e no seio dos amigos é feita de magia africana, de respeito mútuo e de grande curiosidade pelas outras culturas, designadamente a judaica, o que faz com que ambos, simultaneamente, vão conhecendo os seus contornos e história.
    Na sequência de uma viagem a Londres, o pai anuncia à família que Meia-Noite foi morto e a harmonia familiar desfaz-se, cada um chorando a dor e o ressentimento de forma isolada. Só mais tarde, anos depois da morte do pai e já viúvo, John saberá toda a verdade, o que o fará iniciar um périplo que o levará à América do Norte onde reencontrará Violeta e, finalmente, Meia-Noite.

    Há passagens lindíssimas no livro, e não resisti a roubar algumas sobre o seu curto casamento, a morte, e a tortura a que eram sujeitos os escravos:

   Como quem estiver casado há muito tempo pode confirmar, é essencial que uma pessoa se adapte às mudanças do ser amado de tantos em tantos anos e, se quiserem, concordar silenciosamente em voltar a casar com ele.

   Não havia canções de amor suficientemente poderosas para derrotar a morte. Todas as coisas mais importantes estavam fora do nosso controlo.

   Naquele momento antes do chicote te rasgar a esperança, pensas que tens força para o desafiar. Pensas que a tua raiva justa é tão dura como uma rocha e que te vai tornar invencível. E pensas que não és o teu corpo. Não, o tu que é importante está bem dentro de ti, onde ninguém pode chegar. Mas o que esqueces é que mesmo a maior muralha de determinação se desfaz em pó quando lhe batem o suficiente. Não, tu estás mesmo ali, à superfície, onde a tua pele está a ser arrancada em tiras que queimam. Não és nada senão a própria dor e odeia-la mais do que odeias o homem branco que te está a chicotear.


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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Roubo, Peter Carey (Dom Quixote)

O subtítulo deste livro Roubo é Uma história de amor. Fica-nos a dúvida se a história de amor mencionada entre o Butcher Jones, pintor, caseiro e Marlene, assassina, aldrabona e autenticadora de pinturas justifica este subtítulo, embora o livro se conclua com uma declaração de amor: "uma pessoa melhor poderia ter fugido horrorizada, mas eu amava-a e não vou deixar de amar. (...) Como é que se pode saber quanto se deve pagar quando não se sabe o valor das coisas?"

A verdadeira e profundíssima história de amor é entre os dois irmãos, gémeos, Butcher Jones e Hugh, este último atrasado e obeso: "Havia o Hugh, sempre o Hugh. E eu sei que disse que em Tóquio não pensava nele, mas como é que alguém pode acreditar numa treta dessas? Ele era o meu irmão órfão, estava sob minha custódia, o filho da minha mãe. Tinha os meus ombros musculados e descaídos, o meu lábio inferior, as minhas costas peludas, a minha barriga da perna de camponês. Eu tinha sonhado com ele, tinha-o visto numa gravura de Hokusai, num carrinho de bebé em Asakusa."
A acção desenrola-se entre a Austrália, o Japão e os Estados Unidos da América, coleccionadores de arte, museus e falsificações, numa espiral que acaba num assassínio e no final da relação entre Butcher e Marlene e no regresso deste e do irmão à Austrália. Irónico e divertido com um toque policial.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

As mãos desaparecidas, Robert Wilson (Dom Quixote)

Que saudades eu tinha de um bom romance policial. Javier Falcon, detective de homícidios,investiga uma sucessão de mortes. Na investigação, cruzam-se os grandes eventos mundiais dos últimos anos: o 11 de Setembro (que inicialmente pensou tratar-se do atentado às torres gémeas e só depois se percebeu tratar-se do golpe chileno conduzido por Pinochet), o atentado a Olof Palme, a máfia russa, a imigração, o tribunal penal internacional...
Cruzam-se ainda crimes que têm irrompido com grande dimensão e ignorado fronteiras, como a pedofilia (também no livro se fala em criminosos conhecidos, como um famoso locutor), a corrupção e o tráfico de seres humanos.
E no meio disto tudo, Javier continua a seguir o processo de psicoterapia, a recuperar do divórcio, a apaixonar-se, contaminando o livro com pensamentos pessoais e emoções que, em regra, não estão presentes em livros policiais.
Um exemplo é a afirmação da sua psicoterapeuta, Alicia Aguado: "Mesmo depois de todos estes anos continuo pasmada com o poder aterrador da mente. Temos esse organismo instalado nas nossas cabeças, o qual, se o deixarmos, pode destruir-nos ao ponto de nunca voltarmos a ser os mesmos...e, no entanto, é nosso, pertence-nos. Não fazemos ideia daquilo que nos assenta sobre os ombros."
As Mãos Desaparecidas ganhou o prémio Gumshoe para o Melhor Romance Policial Europeu, em 2006.

domingo, 21 de agosto de 2011

As velas ardem ate ao fim, Sándor Márai (D. Quixote)

   Um livro apaixonante. Dividi-me entre a vontade (necessidade) de ler e conhecer o desfecho e a vontade de atrasar o momento em que viraria a última página e ele deixaria de ter qualquer segredo para mim.
  Do mesmo autor já tinha lido A mulher certa, de que também gostara. Mas este último livro é excepcional, pela história, pelos ambientes, pelas personagens, pela escrita. Dois grandes amigos (que se descrevem como dois irmãos gémeos), cuja amizade se inicia no final da infância, quando ambos entram para um colégio na Áustria, embora sejam ambos muito diferentes entre si, reencontram-se ao fim de 41 anos e 43 dias.
   O livro retrata essa amizade como o sentimento mais forte que todos os outros (-Só os homens conhecem esse sentimento. Chama-se amizade.) O reencontro é fundamental para ambos que sentem que irão morrer em breve e que se mantiveram vivos justamente para este dia. Entre os dois está o fantasma de Krisztina, casada com um (o general) mas que partilhava com o outro (Konrad) e a mãe do general a sensibilidade e o gosto pela música. Como se o gosto pela música os distanciasse dos outros ou os tornasse únicos.
   Separados esses anos retomam a conversa como se o tempo não tivesse passado, porque aquilo que é importante, não esqueces nunca. Mas as coisas de pouca importância não existem, uma pessoa deita-as fora como os sonhos.
 
O general aguarda ansiosamente o encontro que lhe permitirá saber exactamente o que aconteceu na véspera da partida de Konrad e o envolvimento de Krisztina, mas à medida que formula as perguntas vai respondendo e substituindo as perguntas por outras, até à última pergunta: Se não tivesse sido aquela atracção penosa por uma mulher que morreu, qual teria sido o verdadeiro conteúdo da nossa vida? (...) Pensas também que o significado da vida não seja outro senão a paixão, que um dia invade o nosso coração, a nossa alma e o nosso corpo, e depois arde para sempre, até à morte? (...) E que se nós vivemos essa paixão, talvez não tenhamos vivido em vão? É assim tão profunda, tão maldosa, tão grandiosa e desumana a paixão?
   Um livro apaixonante.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Pantaleão e as Visitadoras, Mario Vargas Llosa (Dom Quixote)

O ecletismo dos temas de Mario Vargas Llosa é sempre acompanhado de uma escrita de grande qualidade. Este livro, Pantaleão e as Visitadoras, conta a história, descrita como verdadeira, de um dedicado oficial do exército que é chamado a desempenhar uma função original: criar um corpo de visitadoras (prostitutas) que se desloque aos vários estabelecimentos militares dispersos pelo país, evitando desta forma os abusos e as violações que se vêm registando um pouco por toda a parte. Pantaleão dedica-se a esta função com todo o empenho e dedicação (Se ao menos tivesse organizado a coisa de uma maneira medíocre, defeituosa. Mas esse idiota transformou o Serviço de Visitadoras no organismo mais eficiente das Forças Armadas. Não há volta a dar-lhe Panta (...) És o Einstein da trancada.)
A dedicação que vota ao serviço leva a mulher a abandoná-lo com a filha praticamente acabada de nascer. Fica a viver apenas com a mãe, mantendo uma relação epistolar com a mulher. É então que se apaixona pela Brasileira, a Visitadora mais bonita, concedendo-lhe privilégios e uma situação ímpar relativamente às demais.
Ao mesmo tempo que se dedica a criar o serviço e a aumentar a sua eficácia, uma seita religiosa vai-se infiltrando pelo país, crucificando de início pequenos animais e depois pessoas.
Inicialmente, as Visitadoras são postas ao serviço exclusivo do exército, mas depois passam a abranger os restantes ramos das forças armadas. Começam então a aparecer pedidos para os civis poderem também beneficiar do serviço das Visitadoras.
É num ataque ao barco que transportava as Visitadoras que corre mal, que os assaltantes decidem fazer-se passar por elementos da seita e crucificam a Brasileira morta pelos soldados que haviam acorrido a libertar o barco.
No enterro da brasileira o Pantaleão assume a sua condição de militar e o escândalo daí resultante leva ao encerramento do serviço, à sua mudança e ao reencontro com a mulher e a filha.
As características pessoais do protagonista, aliadas à disciplina e às regras de administração militar geram situações fantásticas, quase rocambolescas . "Há incompatibilidade entre visitadora e puta, passe a expressão. Vocês são funcionárias civis do Exército e não traficantes do sexo".

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Correcções, Jonathan Franzen (D. Quixote)

Correcções agarra-nos logo ao princípio e leva-nos numa vertigem ao longo das suas mais de 500 páginas até ao fim. Dizer que é um romance sobre a família americana da última década do século XX é demasiado redutor. É um livro sobre pessoas, sobre família, casamento, crescimento, envelhecimento e como todos lidamos com as diferentes fases da vida.
O livro centra-se quase exclusivamente na família Lambert: o pai, Alfred, reformado e a sofrer de Parkinson e de demência, Enid, sua mulher, doméstica (Não importava que o trabalho dele o satisfizesse tanto que nem precisava do amor dela, ao passo que a lida dela a enfadava tanto que precisava a dobrar do amor dele. Em qualquer contabilidade racional, o trabalho dele anulava o dela), e os três filhos do casal, Gary, Chip e Denise. A razão do nome só nos é revelada no final do livro, quando Enid, liberta finalmente do peso diário da vivência com Alfred, internado num lar, o corrige sistematicamente durante as suas visitas (sentira-se errada a vida inteira e agora tinha uma oportunidade de lhe dizer que ele estava errado).
A acção decorre num curto período de tempo, em que Enid, consciente de que o próximo Natal será o último que passará com o marido em casa e poderá reunir a família, pressiona os filhos de forma a que eles aceitem passar o Natal em S. Jude. Vamos passando pelas histórias e vidas de cada um e apercebendo-nos de como cada um deles, pode ser o nosso vizinho, irmão ou mesmo nós. A maneira como os filhos vão escondendo certas partes da sua vida dos pais, para não os desiludir e estar à altura das suas expectativas, os ciúmes sentidos entre irmãos, a forma como vão ignorando os sinais de demência do pai e a complacência com que convivem com a mãe (Quando fora que os seus pais se tinham tornado nos filhos que iam para a cama cedo e chamavam a pedir ajuda do cimo da escada?)são situações quase triviais, contadadas de uma forma que nos desgosta ao mesmo tempo que nos mostra ao espelho.
Somos nós.

domingo, 27 de março de 2011

"Silêncio", Shusaku Endo - (D. Quixote)

Para ler é necessário estar disponível para seguir as palavras, as histórias que nos contam, as ideias que nos transmitem. É preciso termos a disponibilidade para as ler e as seguirmos, flutuando atrás delas, e nos evadirmos da nossa vida, da nossa rotina, do nosso dia a dia.

Mas se a nossa realidade é tão pesada que nos oprime, não conseguimos a tranquilidade necessária a essa evasão. Ficamos presos à terra, amarrados pela gravidade que nos impede de voar.
Foi isso que me aconteceu durante os três últimos meses de 2010. Os livros ficavam parados, imóveis na minha mesinha de cabeceira, na sala, no sótão. E se acontecia eu pegar neles, logo os largava. As palavras amontoavam-se sem sentido. Eram apenas linhas pretas em fundo branco que se repetia página após página. Só a escrita me ajudava

Recuperei a vontade e a capacidade de ler no princípio deste ano. Coincidentemente, um grande amigo, o Pedro, mais doente então do que eu adivinhava, ofereceu-me este livro. Profundamente católico, pensei que com esta oferta me pretendia transmitir a razão das suas convicções. E julguei que iria encontrar respostas a perguntas que já não faço, mas, admito a minha disponibilidade - ou mesmo vontade - de as ouvir. Mas o livro é mesmo sobre o silêncio de Deus.

O livro apresenta-se como "Uma fascinante introspecção que questiona o silêncio de Deus perante a agonia dos que nele crêem, relatando o drama do cristianismo no Japão". A narrativa decorre no século XVII e conta-nos a história de um jovem padre jesuíta que vai para o Japão para converter os japoneses e confirmar se o seu mentor, padre Ferreira,tinha apostatado como se contava. Depois de ter chegado ao Japão e acompanhar os camponeses de uma pequena aldeia, foi denunciado, preso e torturado. Apostatou para evitar o sofrimento de camponeses japoneses presos com ele e a quem ameaçavam torturar até à morte. Terminou por viver os últimos anos da sua vida no Japão, com nome japonês e em sofrimento. Em sofrimento face ao seu percurso e isolamento,mas sobretudo pelo silêncio de Deus. O livro acaba com a frase seguinte: "Sou agora o último sacerdote neste país. O Senhor não ficará em silêncio. Mesmo admitindo que ele se mantenha calado, toda a minha vida até hoje falará dele para todo o sempre".

O Pedro morreu entretanto. Espero que Deus, em que ele acreditava, não tenha permanecido em silêncio nos seus últimos dias.



Praticamente seis anos volvidos sobre a leitura do livro vi o filme que Martin Scorsese realizou, vários anos depois de ter adquirido os direitos do mesmo. Do que me recordo do livro, penso que o filme transmite totalmente a angústia e o sofrimento porque passaram aqueles padres jesuítas no Japão, mas que a  dor maior terá sido a que resultou do silêncio de Deus.  (Quando me indignava com a violência infligida, recordei-me que justamente na mesma época, em Portugal, a Inquisição perseguia de forma igualmente implacável os judeus) 

domingo, 4 de abril de 2010

Todo-o-mundo, Philip Roth (Dom Quixote)

    Conheço mal a obra de Philip Roth. Todo-o-mundo não me desiludiu, lê-se num fôlego só, mas quando o fechamos sentimos um travo amargo por todo o corpo. O livro trata da decadência do corpo e da proximidade da morte. É uma história narrada na terceira pessoa - ele - que vai convivendo com perdas físicas irrecuperáveis a que se associam problemas, sobretudo do coração, que o obrigam a internamentos frequentes. A doença, a proximidade da morte causada quer pela sua doença, quer pela doença e morte de conhecidos, leva-o a recordar a sua infância, a família - pais e irmão - a morte dos pais, os seus três casamentos falhados, a relação difícil e culpada com os filhos do seu primeiro casamento e a ligação que mantém com a filha, única âncora afectiva da sua velhice.
    Todos estes elementos estão logo presentes na abertura do livro, que se inicia com o seu funeral.
   A dada altura, num funeral, encontramos este diálogo que sintetiza o livro e que nos persegue durante e após a sua leitura:

      - Sabe por que é que ela está nessa choradeira?
    - Acho que sei - sussurrou ele em resposta, pensando:"É porque isto é para ela o que é para toda a gente. É porque a intensidade mais perturbadora da vida é a morte. É porque a morte é tão injusta. É porque depois de uma pessoa ter saboreado a vida, a morte nem sequer parece natural. Eu tinha pensado - secretamente tinha a certeza disso - que a vida continuava para sempre."
    - Pois está enganado - disse o homem sem rodeios, como se lhe tivesse lido os pensamentos. É sempre assim. É assim há cinquenta anos - acrescentou com um franzir de cenho impiedoso. - É assim porque já não tem dezoito anos.

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