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domingo, 30 de setembro de 2018

Na vertigem da traição, Carlos Ademar (Parsifal)

Carlos Ademar @ Clube de Leituras Gosto de ler policiais, não pelo fascínio de descobrir antecipadamente o criminoso, mas pela trama que é tecida à volta do crime e da descoberta. 
    Já li outros livros deste autor, Carlos Ademar, e, particularmente no anterior, O Chalet das Cotovias, gostei das possibilidades em aberto relativamente a um crime cujo responsável nunca foi descoberto.
    Também neste livro, como naqueloutro, não me pareceu que o autor receasse explorar o que não era factual, ou falhasse aqui, como em livros de outros autores, em que percebemos o que é verdade e o que foi  imaginado para colmatar os espaços em branco ou para reforçar a história que se quer contar.
    A história, como consta na capa, é sobre Miguel Domingos, que foi encontrado morto num pinhal nos arredores de Lisboa, em 1951. Miguel Domingos era membro do Partido Comunista Português, vivia na clandestinidade e depois de ter estado na origem da revolta da Marinha Grande, viveu em Espanha e França, onde combateu contra Franco e Hitler. Em 1949 foi afastado do Comité Central e caiu em desgraça. Quando o cadáver é descoberto, mesmo os seus irmãos têm dificuldade em identificá-lo, o que adensa o mistério.
    E a história de Miguel Domingos e os anos que antecederam a sua morte são o pretexto para uma viagem pela história da Europa e sobretudo de Portugal na primeira metade do século XX. Para um continente em guerra e com fronteiras vigiadas e um país pobre e onde imperava a censura e a polícia política. E é justamente aqui que, em meu entender, o autor se estende e alonga em demasia, o que é, contudo, justificado pela necessidade de contextualizar o momento político que se vivia.
    Não me recordo se a personagem central, Inspetor Guimarães, da PJ, já aparecia n' O Chalet das cotovias, mas é uma personagem cuja humanidade e integridade toca o leitor. São dele estes pensamentos:

    «Enquanto a conversa se desenrolava , os pensamentos levavam-no para uma casa modesta e escura, em Belas, habitada por aquele homem de aparência rude, mas cheio de humanidade, e por uma menina pequena, dando por ele a refletir no dia-a-dia daquela criança, nas muitas horas que tivera de passar sozinha enquanto o pai ia trabalhar. (...) Esta história e muitas outras entranhavam-se-lhe na pele e acompanhavam-no para onde quer que fosse, emergindo sem que ele fizesse por isso. (...) Pudera, as histórias raramente eram arrumadas nas prateleiras do esquecimento, vadiavam pelos becos por onde correm as ideias, mostrando-se a espaços, remoendo-lhe as entranhas e impedindo-o de atingir a tranquilidade de espírito que toca aos que têm as prateleiras do esquecimento a abarrotar.»

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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O Chalet das Cotovias, Carlos Ademar (Parsifal)

   
    Foi com pena que virei a última página deste livro. Tenho sempre algum receio dos livros que se baseiam em factos reais, em regra históricos. O fascínio que sentimos ao ler a história que dá origem ao livro, é, frequentemente, reduzido pela envolvente criada pelo autor/a. Como se houvesse receio de inventar personagens e diálogos, adicionando aos factos reais a necessária ficção que lhe dê corpo, substância e credibilidade.
    Não é o caso deste livro. Partindo de factos reais, o autor cria uma história, em que quase acreditamos, porque ficção e realidade entrelaçam-se de uma maneira tão perfeita que temos dificuldade em descobrir as fronteiras.  
    A acção decorre no início dos anos 30, em Portugal. O Estado Novo consolida as suas instituições e vai consolidando a sua acção repressiva. A sociedade (o que atualmente designaríamos de sociedade civil) é atrasada, mesquinha e cheia de preconceitos. A liberdade sentida durante a primeira república é sufocada, a nível familiar e social.
    E a emoldurar a acção, o autor tem sempre o cuidado de situar o leitor quer quanto às personagens, quer quanto ao contexto político e social em que a acção decorre (será verdade que Sarah Afonso se afastou das telas e dos pincéis por imposição de Almada Negreiros, o marido, talvez por este temer ficar a perder na comparação que porventura fizessem? - pg. 39).
    Embora goste muito da frase de Emily Dickinson com que o autor abre o livro "Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes" não me parece aplicável a um leitor nacional, pois trata-se da nossa história recente, numa geografia conhecida, mas que, também por isso, me seduziu.

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