quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

A balada da praia dos cães, José Cardoso Pires (o jornal)


José Cardoso Pires @ Clube de Leituras   Crescer tem destas coisas. Foi livro que pus de lado há muitos anos, por então ter uma maturidade literária mais para o verdusco. O autor inova demais, pensei na época. Out of my league.
    Cresci e dei-lhe outra oportunidade. Adorei o desafio de o ler como se tivesse de o decifrar enquanto romance. É um relatório? É um relato? Aconteceu? Não aconteceu? É um daqueles livros que emprega a repimpada arte do fluxo de consciência?
    Pus de parte a ideia de lhe compreender a trama (que é vício de quem leu tudo o que a Dama do Crime escreveu). Resolvi-me a seguir os passos do personagem principal, o chefe de Brigada Elias Santana (que foi sempre o Raul Solnado na minha imaginação), atribuir-lhe uns trejeitozitos de Poirot à alentejana e deleitar-me com as mudanças de humor do narrador (que é também a imaginação febril de Elias). Embora a autoria da investigação pertença à PJ, não podemos esquecer que o crime se dá em 1960, tem contornos políticos, a Pide paira, mas não chega a pôr o pé no cenário (ainda bem, ou não). É um romance policial que interessa mais pela inovação no seu estilo narrativo (ou estilos), do que pela intriga em si. Sabemos desde o princípio quem morre, quem poderá ser o executor. O resto, o recheio é reconstituição, é viagem, é paisagem, é a boazona da Mena na cadeia, é o Solnado a fazer festas ao lagarto. Em suma, é uma aula de escrita de romance. Tente quem quiser inovar, pode ser que o consiga, como o mestre JCP.

Catarina Durão Machado


segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Livros lidos em 2018

    Os livros que lemos e comentámos em 2018 não foram publicados em 2018, salvo duas exceções, A Mulher de Cabelo Ruivo de Orhan Pamuk e O Fiel Defunto de Germano de Almeida.
    Não esperamos que os livros tenham sido escritos há mais de 100 anos para os ler, como dizia Jorge Luís Borges, mas preferimos deixar a poeira assentar antes de ler um livro acabado de editar ou procurar nas prateleiras livros velhos ali pousados à espera de serem lidos ou mesmo relidos. Alguns dos livros que comentámos tinham, de facto, mais de 100 anos, como a Anna Karénina de Lev Tolstoi, Dorian Gray de Oscar Wilde ou O Último Dia de um Condenado, de Victor Hugo. Qualquer um deles é um excelente argumento a favor da leitura de livros velhos, amarelecidos pelo tempo. Continuarão a ser lidos mesmo daqui a 100 anos.
    Entre os livros lidos em 2018, 7 foram de autores portugueses e 4 de autores de língua portuguesa. Alguns destes livros, apesar do tempo decorrido desde a sua edição, foram uma surpresa refrescante, como as Crónicas da Maria Judite Carvalho, os Textos de guerrilha do Luiz Pacheco e a Orgia dos Loucos de Ungulani Ba Ka Khosa.
    Os livros franceses também tiveram um lugar destacado, sendo que a leitura de alguns deles merece menção especial, como é o caso de A ordem do dia de Eric Vuillard, À Espera de Bojangles de Olivier Bourdeaut ou ainda Babilónia de Yasmina Reza.
     Se tivéssemos que eleger os melhores livros que lemos em 2018, embora reconhecendo a dificuldade da escolha, indicaríamos os livros À Espera de Bojangles e A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata  de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows. Já os livros cujas recensões foram mais lidas foram Babilónia, Sociedade dividida de Raphael Lima e A Boneca de Kokoscka de Afonso Cruz.
    Podíamos ainda falar de muitos outros livros lidos em 2018, de outros autores, nacionalidades, latitudes, mas  o melhor mesmo é continuarmos a ler e a encontrarmo-nos aqui, em 2019.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Um bom homem é difícil de encontrar e outras histórias, Flannery O'Connor (Relógio D' Água)

Flannery O'Connor @ Clube de Leituras
    Um Bom Homem é Difícil de Encontrar e outras histórias é um livro extraordinário. Apesar de ser o primeiro conto que dá o título ao livro, termina por ser o mote para este e para os restantes contos. As personagens principais são más, mesquinhas, ridículas ou patéticas. Apenas as personagens secundárias, cujos contorno são muito esbatidos, poderão, eventualmente, fugir a estes predicados.
    As histórias decorrem no sul dos EUA, local onde a autora viveu e nasceu, e que parece ser o cenário ideal para estes contos. A primeira história apanha-nos de surpresa, embora o título  nos forneça uma pista para o que irá acontecer. E se as outras histórias já não nos surpreendem da mesma forma, não deixam de nos desconcertar. Com alguns contos, especialmente os dois últimos - Boa Gente do Campo e O Refugiado - senti não só surpresa como até algum desconforto ou inquietação. Talvez porque em ambos os casos sentisse alguma empatia pelas vítimas.
   Um retrato cruel da natureza humana que nalguns casos permanece de uma imensa atualidade, como é especialmente o caso de O Refugiado. Não deixa de ser curioso que a autora, que morreu com apenas 39 anos, seja descrita como católica devota e como tendo passado parte da sua vida numa quinta onde criava pavões e escrevia. Será que se cruzou com estas personagens ou serão elas fruto da sua imaginação?
    A escrita e a técnica narrativa são fantásticas. O primeiro conto Um Bom Homem é Difícil de Encontrar começa da seguinte forma: «A avó não queria ir para a Florida. Queria visitar uns parentes seus no leste do Tennessee, e não perdia uma oportunidade de convencer Bailey a mudar de ideias.» Parece que começamos a meio da história. As personagens já ali estão e conseguimos perceber a tensão que há entre elas com apenas estas linhas. Sente-se que a autora não teve necessidade de definição das diferentes personagens, como se os seus atos falassem por si ou tornassem desnecessária a caracterização de quem os praticava.
    A descrição física, por outro lado, é, nalguns casos, muito eloquente:

    «(...) e um outro retrato de um homem cujas sobrancelhas se precipitavam de dois tufos de pele para irem colidir num amontoado, no alto da cana do nariz; o resto da face projectava-se como uma falésia nua, de cujo alto se podia tombar.»

    Ao longo dos contos vamos encontrando outras passagens fantásticas:

    «Estas palavras desagradáveis pousaram na cabeça de Mr. Shiftlet como um bando de abutres na copa de uma árvore»

    ou

    «Começou a imaginar uma guerra de palavras, a ver as palavras polacas e as palavras inglesas a lançarem-se ao encontro umas das outras, a avançarem, sorrateiras, não frases, somente palavras, blá blá blá, proferidas em vozes agudas e estridentes e a esgueirarem-se para diante e depois a lutarem corpo a corpo umas com as outras. Viu as palavras polacas, reles e astutas e que nenhuma reforma emendara, a atirarem lama às palavras inglesas puras até tudo estar igualmente conspurcado. Viu-as amontoadas numa divisão, todas as palavras mortas e sujas, as deles e também as dela, amontoadas como os cadáveres nus das atualidades do cinema.»

    Uma nota final para a tradução, de Paulo Faria, que me pareceu perfeita.
    Um livro a não perder!    
   

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Sociedade dividida, Raphael Lima (motoreditorial)

Raphael Lima @ Clube de Leituras    Fiquei curiosa com este livro que foi apresentado pela Teresa no âmbito da disciplina Escrita de Viagem, lecionada pelo Paulo Moura. Para o escrever, o autor percorreu e fotografou os países e regiões da ex-Jugoslávia, cerca de duas décadas depois da guerra.
    Como ele próprio explica, estava dividido entre regressar a Chipre ou Belfast, onde concebeu o projeto que dá o nome a este livro, ou ir «para a antiga Jugoslávia e entender os motivos que levaram ao colapso do país na década de 1990, após quase quarenta anos sob o comando do Marehal Josip Broz Tito e passados mais de dez anos, após a sua morte, com nacionalismos cada vez mais exacerbados». Optou pelo último. Começou por Belgrado, capital da Sérvia, justamente a 18 anos sobre o início do bombardeio da NATO. As fotografias mostram uma cidade ainda fortemente marcada pela guerra. Daí, depois de ter assistido a um jogo de futebol, parte para Vukovar na fronteira com a Croácia e que foi o palco de uma das piores batalhas. Também aqui as marcas da guerra são evidentes: «(...) a impressão é de que a cidade havia saído da guerra há menos de um ano».
    Segue para Sarajevo e, entre as suas deambulações, com reflexões sobre a cidade e a guerra, menciona o documentário Miss Sarajevo. Finda a viagem, falou com Alma Catal, a protagonista, que lhe descreveu a sua vida na cidade durante a guerra, e com o realizador, Bill Carter. Este diz-lhe que esteve em Sarajevo pela última vez em 2009 e que a «cidade, de certa forma, recuperou-se visualmente, mas há muitas cicatrizes escondidas debaixo daquilo que terá uma, duas gerações para desaparecer».    
    Vai a Srebrenica, Mostar, Podgorica, Kosovo, Pritina, Skopje, Junta às suas reflexões fotografias a preto e branco dos locais por onde passa, onde a destruição causada pela guerra está sempre presente, e depoimentos de residentes. Em Kosovo, um indivíduo diz-lhe que viveu em cinco países sem sair de casa - nasceu na República Socialista Federal da Jugoslávia, depois viveu na República Federal da Jugoslávia, em seguida na Sérvia e Montenegro, na Sérvia e agora no Kosovo.
    Na parte final da viagem, cita Tito que teria dito:«ninguém se questionou quem era sérvio, croata, muçulmano, éramos todos um povo, foi assim na época e ainda penso que é assim hoje».
 
    Em Mostar, na Bósnia, encontra esta frase numa parede:
    «Cuidado com seu inimigo, mas cuidado com seu amigo cem vezes mais. Se seu amigo se tornar seu inimigo, ele pode te machucar muito mais».

    Quando acabei de ler, senti que faltava alguma conclusão, algum sentido ao percurso feito, que não fosse meramente descritivo. A sensação com que fiquei da leitura foi a de que perpassava por todos os entrevistados a mesma tristeza, a guerra ainda muito presente e alguma nostalgia pelo passado.

   Uma nota final para a edição do livro que, como se refere na contracapa, foi feita por autores, leitores e editores na plataforma de edição em rede motoreditorial.org.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Mil Novecentos e Setenta e Cinco, Tiago Patrício (Gradiva)

Tiago Patrício @ Clube de Leituras
    Primeiro livro que li deste autor, de que ainda não tinha ouvido falar, tendo por isso ficado surpreendida por descobrir na badana que já recebeu (venceu, como é ali referido) diversos prémios. O título, Mil Novecentos e Setenta e Cinco, não nos remete apenas para um qualquer período temporal definido, envia-nos diretamente para uma época agitada no nosso país que se seguiu à revolução do 25 de abril. Para uns será uma viagem a um tempo que não conheceram, para outros um regresso ao passado.
    O livro inicia-se com o ano novo e acaba com o “findano”. Horácio regressa à aldeia de Trás os Montes, onde nasceu porque recebeu uma carta da tia a informá-lo que a avó estaria muito doente. E é esse o ponto de partida, o regresso de Horácio, a que se hão-de seguir outros regressos ou chegadas à aldeia, que se encontra espartilhada entre os muito ricos e os pobres.
    A descrição das personagens é tão perfeita que nos permite imaginá-las, sentadas à entrada de suas casas ou a matar um porco ou a lavar a roupa no rio. Mas tratando-se de uma obra ficcional é, simultaneamente, uma obra realista, porque tudo o que é contado pode ter acontecido, se não ali, logo ao lado, se não daquela forma, de outra muito parecida. Para esta noção de verosimilhança contribuem os diálogos, curtos e vivíssimos.
    Embora seja o retrato de uma aldeia transmontana é, de alguma forma, uma metáfora para a situação que o país viveu nesse já longínquo ano de 1975 e para os anos que se seguiram. Como se tivesse sido um sobressalto, a ideia que se podia mudar tudo, reverter o que até aí era a ordem estabelecida, e depois, lentamente tudo tivesse voltado não ao que era, mas a uma realidade intermédia.
    A imagem perfeita da mudança é o facto de as pessoas terem deixado de morrer:
    « - Bons tempos, em que as pessoas ficavam doentes e dali a um par de meses morriam. Agora não, é uma desgraça.
     »Lamentou a mulher.
   » - Estou em crer que é uma coisa passageira. Vivemos um tempo de indefinição, é normal que ninguém queira morrer sem saber como é que isto acaba»

    O Coveiro, vítima desta ausência de mortos, é uma personagem fascinante. 

    «(…) Gostava de falar sozinho, ajudava-o a aclarar os pensamentos, porque uma coisa eram as suas ideias, muitas e variadas, e outra era aquilo que ele camava “saber o que se diz”. Para isso tinha de testar as ideias através das palavras, o que é diferente de deixá-las andar às escuras a saltar dentro da cabeça como macacos nas árvores. Tinha duas maneiras de fazer isso: escrever o que pensava ou repetir os pensamentos em voz alta.»

   As personagens femininas, embora presentes são quase sempre secundárias, com exceção de Fernanda, amiga de Gabriel, que vai com ele passar férias à aldeia em agosto e que, deslumbrada, conhece a aldeia e os seus habitantes, dando-nos um olhar externo sobre o que se vai passando.
    O livro tem um mérito inegável que é o de contar diversos episódios que se sucedem naquele ano sem nunca cair no maniqueísmo fácil de justificar uns e culpar outros. Senti, contudo, ao longo da leitura, que muitas histórias ficaram por contar ou mereciam ser mais contadas.

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domingo, 18 de novembro de 2018

Viagens com o Charley, John Steinbeck (Livros do Brasil)

John Steinbeck @ Clube de Leituras
  Este livro foi sugerido pela Catarina para um trabalho da disciplina Escrita de viagem e adorei lê-lo. Há muito que não lia um livro do Steinbeck, mas a escrita dele, rápida, despretensiosa e ao mesmo tempo tão rica, prende-nos desde o princípio.
    De acordo com a contracapa, «a bordo de uma camioneta a que chamou Rocinante, tendo apenas como companhia o cão-d'água Charley, partiu numa viagem de mais de três meses do Maine à Califórnia», e a causa e o  objeto da viagem são mencionados logo no início:
    «Por conseguinte, descobri que não conheço o meu próprio país [...]. Não ouvira falar da América, não cheirara a sua erva, as suas árvores e as sua imundície, não vira as suas colinas nem as suas águas, a sua cor e a qualidade da luz.»
    Contudo, há uma segunda razão, que resulta do facto de ele ter estado doente no inverno anterior, com uma doença que descreve como uma advertência da aproximação da velhice, daí a decisão de viajar:
    «Não quero renunciar à impetuosidade por um pequeno ganho em tempo de vida. [...] Não quero trocar, na minha própria vida, a qualidade pela quantidade.»
     Começa por fazer uma série de reflexões sobre a preparação das viagens:
    «Descobrimos após anos de luta que não escolhemos uma viagem; a viagem é que nos escolhe a nós», ou «Creio que há no planeamento de uma viagem a longo prazo uma convicção íntima de que a mesma não se realizará», ou ainda «Pergunto a mim mesmo porque será que quando planeio uma viagem muito cuidadosamente ela se desfaz em pedaços, enquanto, se vou cambaleando por aí além numa ignorância bem-aventurada, seguindo uma direção de fantasia, chego onde pretendo sem dificuldade».
    Curiosamente faz a maior parte do percurso sem procurar falar com pessoas, isolando-se até: «Sentei-me na cama e caí numa monotonia cinzenta. Porque pensara que podia aprender alguma coisa  a respeito do país? Nas últimas centenas de milhas evitara as pessoas.» E é depois desta reflexão que passa a interagir mais. Apesar de serem  os últimos capítulos que me pareceram mais interessantes, justamente pelos diálogos com os outros, os capítulos precedentes não deixam de cativar, lançando um conjunto de reflexões sobre o regresso à terra, ao lugar onde cresceu(mos), o progresso versus tradição, a solidão e até mesmo a depressão («Uma alma triste pode matar-nos mais depressa do que um micróbio»).
    Mesmo as observações que faz sobre o país e os americanos relativiza-os «mas os nossos olhos da manhã descrevem um mundo diferente do que descrevem os nossos olhos da tarde».
    Os últimos capítulos, passados no sul, abordam a questão do racismo de uma forma que, mesmo à distância do tempo, não deixa de nos impressionar.
     Mais do que o relato da viagem, o mais interessante no livro são as reflexões que faz sobre o seu dia a dia, o desejo de viajar, a solidão e finalmente, o enorme desejo de regressar.
        
    Uma palavra final para o Charley, o cão d'água que o acompanha na viagem e que desempenha várias funções, companheiro, segurança e facilitador porque, como Steinbeck refere, muitas conversas no caminho começaram com uma pergunta sobre a  raça do cão.


    E, já agora, se tivesse sido inventada esta viagem ou, pelo menos, a maneira como decorreu, o livro teria menos interesse?

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