terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

O Homem Duplicado, José Saramago (Porto Editora)

Opinião do livro O Homem Duplicado de José Saramago pela Porto Editora no blogue Clube de Leituras
    Comprei este livro há vários anos, na sequência da sua adaptação para cinema (apesar de não ter visto o filme). Entretanto, o livro ficou a aguardar a sua vez na minha estante. E o que eu andei a perder!
    Tertuliano Máximo Afonso, Máximo Afonso, de preferência, é professor de História no liceu e vive num «marasmo» próximo da depressão desde o seu divórcio. Para o tentar distrair, o colega de Matemática recomenda-lhe um filme leve que viu há uns tempos, Quem Porfia Mata Caça, e, apesar de não ser propriamente amante de cinema, Máximo acaba por alugar o vídeo. E a sua vida fica virada do avesso. Porque, por uma fração de tempo, vê-se a si mesmo num papel secundário desse filme. Mais do que isso, vê-se como era na altura em que o filme fora gravado.

    «[...] tudo quanto é possível suceder, já sabemos que sucederá, primeiro foi o acaso que nos tornou iguais, depois foi o acaso de um filme de eu nunca tinha ouvido falar, poderia ter vivido o resto da vida sem imaginar sequer que um fenómeno destes escolheria para manifestar-se um vulgar professor de História, este que ainda há poucas horas estava a corrigir os erros dos seus alunos e agora não sabe o que fazer com o erro em que ele próprio, de um instante para o outro, se tinha visto convertido.»

   Inicia então uma busca obsessiva por esse seu duplicado, com consequências que não poderia prever, por mais advertências que o Senso Comum, que surge como que personificado de quando em vez, o tente convencer a parar.

    «O que tiver de ser, será, Conheço essa filosofia, costumam chamar-lhe predestinação, fatalismo, fado, mas o que realmente significa é que farás o que te der na real gana, como sempre, Significa que farei aquilo que tiver de fazer, nada menos, Há pessoas para quem é o mesmo aquilo que fizeram e aquilo que pensaram que teriam de fazer, Ao contrário do que julga o senso comum, as coisas da vontade nunca são simples, o que é simples é a indecisão, a incerteza, a irresolução [...]

    Gosto muito da escrita de Saramago. Não o percebi na escola, com o Memorial do Convento, mas tomei consciência disso quando, há uns anos, li A Jangada de Pedra. Desta vez, foi igual. Assim que comecei a ler, maravilhei-me com a escrita. Mas foi preciso chegar ao último terço do livro para o devorar. Confesso que durante a primeira parte, não conseguia tirar da cabeça o livro O Outro Eu de Daphne du Maurier, e estava como que à espera que Saramago seguisse a mesma linha. Pois não seguiu e deu-nos, pelo contrário, um final inesperado e genial.
    Vale muito a pena ler!

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sábado, 9 de fevereiro de 2019

A misteriosa chama da Rainha Loana, Umberto Eco (Gradiva)

Capa do livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, de Umberto Eco, publicado pela Gradiva   Um livro diferente, não só pelas ilustrações (é designado, aliás, de romance ilustrado) mas também pelo tema de que trata. A memória ou a sua perda. O que somos ou quem somos sem a memória.

    «E o senhor, como se chama?
    Espere, tenho-o debaixo da língua.
    Tudo começou assim.»

    É desta forma que se inicia o livro. Yambo, um alfarrabista de Milão recupera parte da memória depois de um acidente vascular cerebral. Recorda-se de tudo o que lhe perguntam, mas não se lembra de quem é. Como lhe explica o médico, nós temos uma memória implícita, que nos permite executar uma série de coisas que aprendemos de forma automática, e temos uma memória explícita, através da qual recordamos e sabemos que estamos a recordar. A memória explícita divide-se em semântica e episódica ou autobiográfica. Yambo perdeu esta última, ou seja, não recorda os episódios da sua vida.
    Ignoro se esta descrição e divisão da memória estão cientificamente corretas, mas a indicação das consequências é absolutamente fascinante. Por exemplo, quando lhe pedem para dizer o nome - «como se chama» - é incapaz de responder, mas se lhe pedirem para assinar, não hesita sequer.  Como a mulher, as filhas e os netos fazem parte da sua memória pessoal, também não se recorda deles. Quando lhe contavam episódios da vida dele, ele fixava-os, mas era como se tivessem passado com outra pessoa.
    Para o ajudar a recuperar a memória, Paola, a mulher, sugere-lhe que vá uns dias para Solara, para a casa que era dos seus avós e onde passou parte da infância. Algum tempo depois, apercebe-se que não está a funcionar:

    «Não é assim que se reconstrói uma memória. A memória junta, corrige, transforma, é verdade, mas raramente confunde as distâncias cronológicas, uma pessoa deve saber perfeitamente se uma coisa lhe aconteceu aos sete ou aos dez anos, também eu agora sabia distinguir o dia em que acordei no hospital do da partida para Solara, e sabia muito bem que entre um e outro ocorrera um amadurecimento, uma mudança de opiniões, um confronto de experiências. Pelo contrário, naquelas três semanas absorvera tudo como se em criança o tivesse engolido de uma só vez e num fôlego - e forçosamente tinha a impressão de ter ficado atordoado por uma mistura inebriante.»

    Em Solara faz uma viagem no tempo e acompanhamo-lo através dos livros, das revistas e da música pelos seus anos de infância e juventude. E nesta viagem no tempo recupera não apenas a sua memória, mas a memória de uma geração. Redescobre histórias do seu passado pessoal e familiar que, contudo, não o apaziguam totalmente («Encontro-me de novo perante uma barreira de nevoeiro.»). Tem novo acidente, mais grave do que o primeiro, e fica em coma.
    Perante a descrição da situação senti-me arrepiada:

    «Contudo, no coma profundo, toda a gente sabe, o cérebro não dá sinais de atividade, enquanto que eu penso, sinto, recordo. Pois é, mas isto é o que dizem os de fora. O cérebro dá um encefalograma plano segundo a ciência, mas o que é que a ciência sabe acerca das astúcias do corpo? Se calhar, o cérebro aparece plano nos seus monitores, e eu penso com as vísceras, com os bicos dos pés, com os testículos. Eles acham que não tenho atividade cerebral, mas eu ainda tenho atividade interior.»

    E, a partir daqui, entre recordações, questiona-se sobre a inteligência humana, a memória e a forma como percecionamos a realidade, enquanto procura o rosto da jovem por quem se apaixonou no liceu:

   «Mas ter-me-á alguma vez acontecido, num sonho, sonhar com outro sonho, como estarei a fazer agora? E se, em vez disso, alguém estivesse a projetar um filme diretamente no meu cérebro?»

     E na névoa procura a chama.
     Um livro simultaneamente inquietante e fascinante.

   
A misteriosa chama da rainha loana é um romance ilustrado publicado pela gradiva
A Misteriosa Chama da Rainha Loana é um romance ilustrado.
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, J. K. Rowling (Editorial Presença)

Harry Potter e o Priseioneiro de Azkaban, o terceiro livro da saga Harry Potter é revisto e comentado no blogue Clube de Leituras. Em Portugal, o livro é editado pela Editorial Presença    O terceiro livro da saga Harry Potter foi sempre o meu favorito. É o livro onde se descobre um pouco mais sobre a família de Harry, particularmente dos tempos do pai dele em Hogwarts e dos acontecimentos que acabaram por levar à sua morte e da mulher. Mas, mas do que isso, é um livro que dá umas quantas reviravoltas - e eu sempre me perdi por reviravoltas!
    Quando o livro começa ainda estamos nas férias de verão e Harry tem a infelicidade de ter de aturar a irmã do tio Vernon durante uma semana. A tia Marge gosta tanto de Harry como ele dela e as coisas não podiam terminar da pior forma, com Harry a perder o controlo e a insuflar a senhora, fugindo de seguida, absolutamente convicto de que com esta segunda infração será expulso de Hogwarts. Para piorar a situação, há um assassino à solta e Harry começa a ser como que perseguido por um enorme cão preto que vem a descobrir tratar-se do pior dos presságios de morte.
    Para seu alívio, acaba por perceber que a perda de controlo foi considerada um dano menor e que vai efetivamente voltar para a escola com os amigos. Mas o alívio é momentâneo. O assassino fugido é, afinal, um temível feiticeiro, seguidor de Voldemort, que fugiu de Azkaban para procurar Harry; e, por conta dessa fuga, Hogwarts passa a estar rodeada pela criaturas mais hediondas que Harry alguma vez defrontou: os Dementors.

    «Era como se a água gelada lhe subisse no peito, encharcando-lhe as vísceras. E foi então que a ouviu de novo. Uma voz que gritava dentro da sua cabeça, uma voz de mulher.
    - Não, o Harry não, por favor, o Harry não!
    - Afasta-te, sua palerma, afasta-te...
    - Não, o Harry não, por favor, prefiro ser eu a morrer...
    O cérebro de Harry estava entorpecido, girando numa neblina branca... que estava ele a fazer? Porque voava? Era preciso ajudá-la... Ela ia morrer... ia ser assassinada...
    E ele caía, caía por entre a neblina gélida.
    - O Harry não, por favor... tenha piedade....
    Uma voz estridente ria-se enquanto a mulher gritava e foi tudo o que Harry soube.»

   Desta vez (não sei quantas vezes já li este livro) não me senti tão agarrada, pelo menos até chegar às últimas 10 páginas, que é quando começam a desvendar-se os segredos. Isto porque, ao contrário do que acontece com os dois primeiros livros, este tem um enredo mais calmo, mais contido no que toca a aventuras. E, no entanto, é um livro essencial para a compreensão de toda a história, porque já não se trata apenas de conhecer mais um pouco do mundo mágico, mas sim começar a entrar nas malhas do enredo alargado dos sete livros. Aliás, sem os eventos do final deste terceiro livro, não poderia haver a continuidade.
    Já não há nada a fazer... agora tenho de ler a saga até ao fim!

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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Páscoa Feliz, José Rodrigues Miguéis (ed. A Bela e o Monstro)


Páscoa Feliz @ Clube de Leituras
    Foi a surpresa deste verão. Fininho, pequenino, jeitosinho, lê-se num dia. Não conhecia o autor, por mais que tivesse ouvido falar dele, não lhe lera quase nada. Depois descobri, pesquisando, que foi quem escreveu um conto que adorei (Arroz do céu, ou algo do género).
    É incrível a semelhança do registo Narrador/Personagem (o Renato) com o famosíssimo Mersault de O Estrangeiro, de Camus. Não desenvolvo este raciocínio porque não há nada pior do que «spoilar» O Estrangeiro. Andava pelas vinte, trinta páginas engo(lidas em voz dramatizada), já me ia passando pela cabeça quão genial é este autor, quão extraordinária é esta personagem, que já assim, de supetão, lhe tenho vontade de dar cinco estrelas. Passo o resto do livro a recordar-me que é uma história publicada em 1932, está o Salazar a tornar-se Presidente do Conselho, há gente já a ser presa por fazer marotices anti-situação.

   Passo o resto do livro, pendurada no testemunho do Renato e nem dou conta que estou sentada num autocarro, e que me apetece começar a dramatizar-lhe a voz à frente dos passageiros. Folheio-o freneticamente à procura de um significado para o título (quase me levou a adiar a sua leitura para a próxima Páscoa), e enfim encontro-o. Sim, o livro é sobre loucura. Ou sobre lucidez. É lerem e depois decidam vocês. (se rimou, é porque é verdade).

Por: Catarina Durão Machado


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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Seara de vento, Manuel da Fonseca (Editora Ulisseia)

 
  Na pilha de livros que tenho para ler, resolvi entremear os recentes, que me foram agora oferecidos, com velhos livros que fui buscar às estantes familiares. Quando os estava a arrumar, folheei este e não consegui largá-lo.  
  A escrita, sobretudo, surpreendeu-me. Lê-lo é quase como ver o que nos é contado. A paisagem, a ventania, o forno derruído, as personagens. Avançamos pela história como se estivéssemos a seguir as indicações do encenador: Estão ambas junto da lareira apagada, sentadas nos mochos, sumidas nos vestidos pretos. Em redor, sombras espessas diluem as paredes e os recantos numa só mancha circular. Apenas as cantarias da lareira, batidas pela luz que vem da porta, se salientam aprumadas.
    Mas o rigor das descrições é acompanhado de uma enorme riqueza de imagens: Às arrecuas, Amanda Carrusca procura o momento oportuno para novo pontapé. O vento enche-lhe as saias, a ponta do lenço, dobrada para o alto da cabeça, sobe como uma enorme crista negra. 
    A história que nos é contada é baseada num caso verídico, passado no Alentejo, numa pequena vila próxima de Beja, nos anos 30 do século passado, embora o autor diga no final que se trata de ficção (porventura terá sido esta declaração final do autor que evitou que o livro tivesse sido censurado quando foi publicado pela primeira vez em 1958).
    O Palma, que vive com a mulher, a sogra e os dois filhos mais novos, um dos quais autista, é acusado de roubar sacas de cevada e por isso não consegue arranjar trabalho. Desesperado, começa por tentar caçar (inolvidável a luta com o pastor e com a águia pelo corpo do coelho) e depois aceita começar a contrabandear. O desespero que ele sente é-nos transmitido também pela imagem do forno que caiu, pelo balancear e chamamento do filho autista e pela sempre presente ventania. Sentimos a todo o momento que se vai dar uma tragédia cujos contornos ignoramos mas que antecipamos logo às primeiras páginas.
    Quando acabei de o ler percebi que um livro extraordinário não precisa de seguir regras nem truques para ser lido. Não é preciso uma reviravolta na história para reter a atenção do leitor se o livro for bom. Da mesma maneira que não é preciso escrever na capa e na contracapa que se trata do melhor livro do ano. 
    Uma palavra também para a elegância da edição e a beleza da sobrecapa, com imagem do Marcelino Vespeira.
    Nas pesquisas que fiz depois de o ler descobri surpreendida, que foi recentemente transposto para o cinema por Sérgio Tréfaut, com o título Raiva. Apesar de ter estreado em várias salas em outubro de 2018,  já não está nos circuitos comerciais e não consegui encontrá-lo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Harry Potter e a Câmara dos Segredos, J. K. Rowling (Editorial Presença)

    A primeira vez que li Harry Potter e a Câmara dos Segredos tinha dez e tinha sido recentemente operada ao apêndice. Na altura, o feiticeiro ainda não era famoso e eu nem sabia da existência de um primeiro volume, Harry Potter e a Pedra Filosofal. Já nessa altura fiquei agarrada, mas lembro-me de ter achado o livro tenebroso, que me fez acender a luz a meio da noite várias vezes, para me assegurar de que não havia aranhas nem cobras a passear debaixo da minha cama. E confesso que entre as várias releituras, este costumava ser, para mim, o parente pobre da saga. Dezanove anos passados dessa primeira leitura, foi com um prazer imenso que reli este livro.
    O mote, como no caso do primeiro, foi a visualização do filme - um objetivo para este ano: revisitar a história do meu companheiro de adolescência, Harry Potter. Mais uma vez, o filme é uma ténue sombra do livro, que, riquíssimo em detalhes, me encantou uma vez mais. Podendo argumentar-se que não se gosta do estilo ou da temática, é inegável a mestria com que J. K. Rowling conta histórias. Os acontecimentos sucedem-se vertiginosamente mas sem que isso prejudique seja de que forma for a complexidade das personagens e da trama, tanto do enredo específico deste segundo ano do feiticeiro em Hogwarts como do enredo alargado. E é muito interessante reconhecer pormenores que escapam nas primeiras leituras quando não se tem a visão completa da história e que em nada contradizem o que vem à frente - muito pelo contrário, são já "pistas" para esses desenvolvimentos.
    Com 12 anos, Harry regressa, com os seus amigos, à Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts. Mas não poderia ter tido um início mais turbulento. Depois de uma visita de um elfo doméstico em casa dos seus tios, de uma notificação de infração do código que impede a utilização de magia fora do período de aulas, e de, juntamente com Ron, o melhor amigo, perder o comboio para a escola, Harry inicia o ano com um castigo. Mas as verdadeiras provações ainda estão para vir. Harry começa a ouvir uma voz que mais ninguém ouve, a passar pelas paredes, sedenta de sangue e morte. E é então que começam os ataques. Gatos, alunos e fantasmas aparecem petrificados e nas paredes começam a ler-se mensagens que informam que a Câmara dos Segredos foi reaberta e que os inimigos do do Herdeiro de Salazar Slytherin e os impuros de sangue não escaparão impunes.
    Com a sua propensão para se meter em sarilhos, juntamente com os amigos, Ron e Hermione, Harry dá por si muito mais envolvido nestes ataques, sobretudo quando a escola toda começa a suspeitar ser ele quem está por trás dos mesmos. Quem está a causar os ataques? Onde fica a Câmara dos Segredos e que terror esconde no seu interior? Será Harry o Herdeiro de Slytherin?
    Para miúdos e graúdos, sem dúvida, o livro é para devorar em poucos dias.

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domingo, 20 de janeiro de 2019

O leitor do comboio, Jean-Paul Didierlaurent (Clube do Autor)

    Adorei receber este livro, porque já o tinha visto e tinha imensa vontade de o ler. Só pelo título. Adoro ler no comboio. Os meus dias começam melhor quando posso ir de comboio e aproveitar a viagem de Paço de Arcos até Santos a ler. Já fotografei pessoas a ler no comboio, sem que elas dessem por isso, já perdi a estação onde devia sair porque estava concentrada a ler. Já baixei a cabeça para não falar com alguém (desculpem-me), porque tinha mesmo de acabar um livro. Por todas estas razões, este livro suscitou-me imensa curiosidade e a sua leitura não me desiludiu.
    O leitor do comboio lê para os restantes passageiros páginas de livros que ele salva de serem destruídas numa máquina que recicla - destrói - livros. O trabalho intensifica-se com a aproximação do Salão do Livro de Paris: A rentrée literária de setembro e o período propício aos prémios existiam desde há muito. Tornava-se necessário arranjar espaço, esvaziar os expositores de tudo o que não se vendera.
    Não há uma introdução ao que o leitor vai ler, porque ele próprio não sabe, nem procura determinado tipo de livros ou autores. Apenas páginas de livros resgatadas do processo de destruição e lidas de manhã no comboio. Depois há as figuras excêntricas do seu reduzido círculo de amigos, as histórias que emergem desta viagem de comboio de casa para o trabalho e o próprio leitor que nunca teve coragem de dizer à mãe o que fazia e lhe mente, dizendo que trabalha numa editora invertendo justamente aquilo que faz.
    Gostei do livro mas tive pena que o autor não tivesse terminado de explorar algumas histórias ou, pelo menos, de abordar os efeitos da leitura. Os efeitos em quem lê ou ouve ler.
    A parte mais interessante é a máquina, que destrói os livros para editar novos, livros que nunca chegam a ser lidos e são logo substituídos por novos, numa metáfora sobre o mundo editorial atual («Ei! Senhor Vignolles, já viu os do prémio Renaudot do ano passado? Ainda têm a cinta vermelha, que tolos!»).

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Ian McEwan em Filmes

    Ainda antes de darmos início a esta aventura que é o nosso Clube de Leituras, já éramos leitoras assíduas dos romances de Ian McEwan. No ano que terminou, chegaram aos grandes ecrãs portugueses duas adaptações de bons livros do autor, dos quais foi também o argumentista: Na Praia de Chesil e A Balada de Adam Henry. O autor conta ainda com outras seis adaptações de romances, além de alguns trabalhos como argumentista ou adaptações de pequenas histórias. Devido a esta estreita ligação ao cinema, muitas das suas reedições, da Gradiva, ostentam na capa imagens do filme a que deram origem. 
    Se, no geral, os filmes ficam aquém dos livros respetivos, nestas adaptações encontramos algumas exceções. Para darmos as boas vindas ao novo ano, deixamo-vos com uma compilação dos romances de Ian McEwan que foram adaptados para filme.

NA PRAIA DE CHESIL 
(finalista do Man Booker Prize)

Ian McEwan @ Clube de LeiturasPrimeira publicação: 2007 
Resumo: Passado em 1962, leva-nos à noite de núpcias de Florence e Edward, dois jovens cujas vidas até ali vamos conhecendo por intermédio de flashbacks, que procuram, a despeito da felicidade do recém-casamento, ultrapassar os seus receios quanto à intimidade cada vez mais próxima que terão de partilhar naquela noite.
Opinião do livro: Imperdível. O melhor romance de Ian McEwan.
Lançamento do Filme: 2017
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Ian McEwan @ Clube de LeiturasPrimeira publicação: 2014
Resumo: Seguindo a vida da Juíza Fiona Maye, do Supremo Tribunal, somos
levados a acompanhar o caso de um jovem de dezassete anos, Testemunha de
Jeová, que se recusa a receber um transplante de sangue necessário ao
tratamento da sua leucemia, bem como as implicações que esse caso trará
para a sua vida e para o seu casamento perto de implodir.
Opinião do livro: Para nós, o regresso de Ian McEwan às leituras
recomendadas.
Lançamento do Filme: 2017
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A CRIANÇA NO TEMPO

Ian McEwan @ Clube de LeiturasPrimeira publicação: 1987
Resumo: A luta interior de um pai cuja filha de três anos desapareceu num supermercado.
Opinião do livro: Comovente e perturbador, conseguindo, ainda assim, ser um livro lindíssimo.
Lançamento do Filme (apenas em televisão): 2017
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EXPIAÇÃO

Ian McEwan @ Clube de LeiturasPrimeira publicação: 2001
Resumo: Como podem os nossos erros afetar toda a nossa vida e a daqueles que nos rodeiam? Quando Briony, com treze anos, decide vingar-se da não correspondência do seu amor pelo amante da irmã, não pode imaginar o impacto que isso trará para todos os envolvidos.
Opinião do livro: A mais bela obra de Ian McEwan. Um livro comovente, perturbador, envolvente que ninguém deveria perder!
Lançamento do Filme: 2007
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O FARDO DO AMOR

Ian McEwan @ Clube de LeiturasPrimeira publicação: 1997
Resumo: Na sequência de um acidente de balão, Jed Perry desenvolve uma obsessão por Joe Rose, que escala ate tomar dimensões verdadeiramente perturbadoras.
Opinião do livro: De leitura ininterrupta, e simultaneamente sufocante, um livro que testa os limites - e que não deve deixar de ser lido.
Lançamento do Filme: 2004
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O JARDIM DE CIMENTO
(Por Ler)

Ian McEwan @ Clube de LeiturasPrimeira publicação: 1978
Resumo: Contado na primeira pessoa, pela voz de Jack, de quine anos, conta a vida de quatro crianças que procuram o equilíbrio, inventado uma vida familiar, após a morte dos pais. 

«O primeiro romance de Ian McEwan (...) considerado pela crítica simultaneamente chocante e perfeito.» (por Gradiva)

Lançamento do Filme: 1993
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ESTRANHA SEDUÇÃO
(Por Ler)

Ian McEwan @ Clube de LeiturasPrimeira publicação: 1981
Resumo: Explorando como pequenos acontecimentos moldam um futuro inesperado, Ian McEwan conta-nos a história de um casal que, de férias para tentar salvar o casamento, vê a sua intimidade ser perturbada por um estranho.
Lançamento do Filme: 1990
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sábado, 12 de janeiro de 2019

Aqui estou, Jonathan Safran Foer (Alfaguara)

Jonathan Safran Foer @ Clube de Leituras   De Jonathan Safran Foer li os dois romances anteriores, Está tudo iluminado e Extremamente alto e incrivelmente perto. São ambos livros mágicos, pela história, pela escrita, pelas personagens. Pela originalidade. Livros que não se esquecem. Ambos deram origem a filmes também fantásticos. Surpreendentes até pela forma como foram transpostas para a tela as duas histórias. Um desafio que, particularmente no caso do Extremamente alto e incrivelmente perto, me parecia impossível de concretizar. Jonathan Safran Foer fez-nos esperar por este novo livro alguns anos, foi por isso com imensa expetativa que o recebi (foi a prenda de Natal dos meus filhos) e o passei à frente dos livros que aguardam que os leia. Quase 700 páginas depois confesso o meu desapontamento. Tem momentos excelentes que nos lembram os dois livros anteriores, mas são esporádicos. Apesar de ter lido numa entrevista ao autor que este recusa o carácter autobiográfico do livro, não o consigo entender de outro modo. Poderá não ser nos eventos ou factos, mas é seguramente nas emoções e sentimentos porque para os descrever como o faz, teve de os sentir.
    Jacob, o protagonista, enfrenta o fim do seu casamento, a consequente saída de casa onde até aí vivia com a mulher e os três filho, a morte do seu avô, a necessidade de decidir a eutanásia do seu cão e ainda um tremor de terra e a guerra em Israel. Em todas estas situações ele tem de tomar decisões mas arrasta-as por falta de coragem ou vontade.
     Aqui estou teve seguramente um eco forte nos designados judeus americanos, porque Jacob, o protagonista, questiona-se sobre até onde iria para defender os judeus e o Estado de Israel contra as ameaças que enfrenta. Ele, como outros da sua idade, representa a terceira geração dos judeus que, fugidos à guerra, chegaram aos EUA. A primeira e a segunda geração, representadas respetivamente pelo seu avô e pai, são fortemente marcadas pelos eventos e pela sua ligação à religião. A terceira geração, criada com as histórias e as memórias dos seus antepassados, interroga-se sobre o que significa ser judeu, para além da prática dos rituais. O confronto é feito sobretudo no diálogo que mantém com o primo Tamir que, vivendo em Israel, se encontra nos EUA quando eclode a guerra, contudo, Jacob não diz "Aqui estou" para o defender.
     Confesso que houve momentos em que a leitura me incomodou porque, apesar do contexto atual, o autor descreve sistematicamente Israel como um Estado acossado pelos outros, em particular pelo Irão.
    Acabei de o ler porque há passagens saborosas do livro que recordam os anteriores, sobretudo quando fala da família, em especial dos filhos, como, por exemplo, quando conta o que ficou gravado no vídeo que fez do nascimento do primeiro filho:

    «Não era o tipo de coisa que eu diria, e não tivera intenção de o dizer; as palavras haviam sido tiradas de algum poço bem mais fundo do que a minha vida, e não eram as minhas mãos a içar o balde desse poço. (...) mas os anos passaram tão depressa que tive de procurar em vídeos e álbuns de fotografias para encontrar provas da nossa vida juntos. Aconteceu. De certeza que aconteceu. Tivemos aquela vida toda. Mas era preciso provas, ou fé.»

      Revelador dos sentimentos e das relações familiares é o que diz o filho mais velho sobre os pais, Jacob e Julia, no seu bar mitzvá, depois de começar por agradecer aos restantes membros da família:

    «Não os culpo por serem quem são. Mas culpo-os, isso sim, por me culparem a mim por ser quem sou
     E mais à frente diz:

     «A passagem do meu bar mitzvá é sobre muitas coisas, mas acho que é sobretudo sobre as pessoas para quem estamos inteiramente presentes, e como isso, mais que qualquer outra coisa define a nossa identidade. O meu bisavô, de quem já falei antes pediu ajuda. Ele não quer ir para o lar judaico. Mas ninguém na minha família respondeu dizendo: "Aqui estou!". Em vez disso, tentaram convencê-lo de que ele não sabe o que é melhor e que nem sequer sabe bem o que quer. Na verdade nem o tentaram convencer; limitaram-se a dizer-lhe o que fazer.» (pág. 134, 135)

   Quase a acabar o livro, sobre ele e o cão, prestes a morrer,  diz:

    «A relação deles definia-se não por aquilo que podiam partilhar, mas pelo que não podiam. Entre quaisquer dois seres, há uma distância única e intransponível, um santuário impenetrável. Por vezes, toma a forma de solidão. Por vezes, toma a forma de amor.»

    Um livro que me deixou um sabor amargo na boca, apesar da beleza de algumas partes.

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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Harry Potter e a Pedra Filosofal, J. K. Rowling (Editorial Presença)


J. K. Rowling @ Clube de Leituras    Natal é sinónimo de magia; magia é sinónimo de Harry Potter. E o Natal já não é Natal sem voltar a ver os filmes que fizeram toda uma geração sonhar. Mas, como boa livrólica que sou, e fã - muito fã - desse universo maravilhoso criado por J. K. Rowling, não consigo ver os filmes sem querer saber tudo o que ficou por contar e que posso encontrar nos livros.
Por isso, neste início de ano, depois voltar a ver o primeiro filme da saga, lá dei por mim agarrada ao livro - que, como antigamente, li num suspiro.
   Serão poucas as pessoas que não sabem quem é Harry Potter; ainda assim, não vou deixar de fazer uma recensão há muito devida - não fosse já ter perdido a conta às releituras.
    Harry Potter vive com os tios e o primo, numa existência absolutamente infeliz, desde que, com um ano, os seus pais foram mortos por Voldemort, o mais terrível feiticeiro negro que a comunidade conheceu. Harry sobreviveu, sem se saber como, apenas com uma cicatriz em forma de raio e, com isso, levou ao desaparecimento de Voldemort. Os tios de Harry não são feiticeiro e abominam tudo o que esteja relacionado com essa «anormalidade» que tentam a todo o custo esconder e abafar em Harry. 
    Então, perto do seu 11.º aniversário, Harry recebe a primeira carta da sua vida:

    «Sr. H. Potter
     Despensa debaixo das escadas
    Privet Drive, N.º 4
    Little Whinging
    Surrey»

     E tudo o que sempre conheceu se transforma. Descobre que é feiticeiro, vai para Hogwarts estudar Magia e Feitiçaria e conhece os seus amigos de aventuras, Ron Weasley e Hermione Granger. Com Harry, também os leitores vão conhecendo as delícias desse mundo mágico, tão bem construído que é impossível não nos sentirmos lá, com eles, também.
    Mas o perigo não desapareceu e Harry e os amigos veem-se cada vez mais envolvidos em assuntos muito para lá da sua idade, acabando por colocar as suas próprias vidas em risco.
    Num romance onde nada é o que parece, onde os segredos se escondem atrás de cada porta, e tudo acontece a uma velocidade vertiginosa é difícil pousar o livro (mesmo já conhecendo a história). À medida que vamos desvendando os mistérios, vamos conhecendo mais sobre o mundo dos feiticeiros e sobre a história do próprio Harry. E, claro, os ensinamentos sábios de Dumbledore:

    «Sabes, Harry, a pedra não era uma coisa tão boa como parecia à primeira vista. Toda a vida e dinheiro que possa querer-se!!! As duas coisas que a maior parte dos seres humanos escolheria acima de tudo... o problema é que os seres humanos têm tendência para escolher sempre o que é pior para eles.»

    ou a famosa

    «Não se resolve nada a divagar em sonhos quando nos esquecemos de viver.»

Para miúdos e graúdos - uma leitura obrigatória para todos os que gostam de sonhar.

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

O Haiku das Palavras Perdidas, Andrés Pascual (Gradiva)

Andrés Pascual @ Clube de Leituras    Ainda estou em processo de assimilação desta história, depois de ter fechado o livro há dois dias. Foi o primeiro livro que li de Andrés Pascual e fiquei rendida. Há um bom tempo que não me sentia tão envolvida num romance. O autor transporta-nos, à vez, até Nagasáqui de 1945, nos momentos que antecederam e que se sucederam ao lançamento da bomba atómica, e, já em 2011, a Quioto, Genebra e Alpes Suíços. São duas histórias ou, se quisermos, dois lados de uma mesma história que começou com o amor de dois jovens de treze anos: Kazuo (Victor) e Junko.
    Kazuo, holandês, perdeu os pais quando era pequeno, tendo sido adotado pelo amigo japonês destes, o doutor Sato, e a sua mulher. Destoando pelo seu cabelo loiro e «olhos de peixe», cresce com os costumes japoneses e conhece Junko na escola. Juntos, costumam subir a colina e observar o campo dos prisioneiros aliados. Um dia, Junko comunica-lhe que vai fazer um jogo com ele, como a sua mãe está a fazer com ela, trazendo-lhe, à vez, quatro Haikus:

«- A minha mãe diz que os haikus são mais do que poemas. Cada um é uma emoção que surge e se desvanece no momento, como tudo o que é belo na vida. Um fugaz cintilar que nos mostra a essência das coisas.»

    O quarto Haiku deverá Kazuo lê-lo sozinho e, no dia seguinte, beijar Junko. Esta era a promessa. Nessa noite, porém, o rapaz sente-se estranho, como se o universo estivesse a enviar-lhe uma mensagem:

«- Esta noite há demasiadas estrelas cadentes. (...) É como se nos estivessem a dar a última oportunidade para pedir todos os nossos desejos.» 

    No dia seguinte, enquanto aguarda a vinda de Junko, a bomba atómica é lançada em Nagasáqui.

  Saltando para 2011, Emilian Zäch procura financiamento para uma ilha autossustentável, alimentada a energia nuclear, que, defende, é a forma de energia mais limpa atualmente disponível. Trata-se de um projeto de uma vida, que lhe custou bastante desenvolver e que, de um momento para o outro e de forma totalmente inesperada, vê falhar. É nesse momento de angústia que conhece Mei, a neta de Junko, com quem acaba por dar início a uma aventura de busca pelo amor há muito perdido.
    O livro é mais do que uma mera história de amor para sempre marcada pela tragédia que foi o lançamento das bombas. É um romance de esperança e força, mas que também nos mostra uma realidade que talvez muitos de nós preferissem ignorar. As descrições da destruição e sofrimento que se seguiram à bomba são muito fortes e emotivas. E é um livro que nos faz pensar, que nos obriga a refletir sobre a forma como pretendemos conduzir o futuro da Terra e da humanidade.

«Mudar os modelos da sociedade. É isso que temos de fazer. Não fechar os olhos e andar em frente como cobardes suicidas amparados na doutrina do mal menor.»

    Além disso é um livro com frases lindíssimas, que tive de roubar:

«talvez fosse o momento de se mostrar mais japonês que nunca, não de sangue, mas de coração, e provar que os silêncios podem chegar a ser um grito ensurdecedor. Que uma palavra não dita tem mais força que mil frases pronunciadas, porque a palavras pensada permanece para sempre, ao contrário das que atravessam a soleira da garganta e acabam por se desvanecer no mesmo ar com que são fabricadas.»


Um livro a não perder!


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