quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Orgulho e preconceito, Jane Austen (Romano Torres)


Recensão do livro Orgulho e Preconceito no blogue Clube de Leituras    O Almada Negreiros tinha razão: não duramos o tempo suficiente para lermos todos os livros que existem numa livraria e, por isso, no meu desejo de tentar ler os mais que possa, raramente volto a ler um livro. Agora vou  quebrar esta regra, porque quatro dos seis livros cuja leitura terei que fazer nas próximas semanas (no âmbito da disciplina Arte do Romance, Rogério Casanova) já li, mas há demasiado tempo para me lembrar. 
    O primeiro, Orgulho e Preconceito, custou-me mais a ler do que pensava. Confesso que tenho alguma incapacidade para compreender o sucesso e a perenidade desta obra, mas quando se a lê pela primeira vez, há uma imensa expetativa relativamente ao desenvolvimento e desfecho da história que  é contada e especialmente da relação entre Lizzie e Mr. Darcy. Quando se conhece a história (e as histórias) de fio a pavio, se dá rosto às personagens e quase que se sabe de cor algumas falas, a leitura é relativamente fastidiosa, apesar de simples.
    Reconheço o carácter precursor do livro (publicado pela primeira vez em 1813, embora tivesse sido concluído 16 anos antes), mas penso que o seu sucesso se deve sobretudo ao facto de as leitoras - ainda nos dias de hoje - se identificarem imediatamente com Lizzie. As outras irmãs e amigas não têm a densidade dela, e quase que as conseguiríamos descrever utilizando um único adjetivo para cada uma. Já Lizzie revela uma complexidade que não só a torna mais interessante como garante a empatia e compreensão imediatas. Por outro lado, Darcy tem as características que, sobretudo na juventude, desejamos encontrar num homem.
    O livro já teve algumas sequelas, pouco conhecidas e muito inferiores ao Orgulho e Preconceito, como Longbourn de Jo Baker e a Independência de uma mulher, de Colleen McCollough, e já foi adaptado várias vezes ao cinema, embora, em minha opinião, nunca tenha contracenado o par perfeito. 
    Nesta leitura, verifiquei com surpresa que a imagem que guardava de algumas personagens não correspondia à que encontrei, sobretudo do pai, Mr. Bennett, que antes descreveria como um homem culto, cínico q.b., distante, mas afetivo com as filhas, e que, agora, me pareceu egoísta e irresponsável. Em 2013, nos duzentos anos da publicação do romance, o jornal The Guardian publicou um artigo onde diversos escritores da atualidade analisam as várias personagens desta obra e que coincidem com esta minha leitura quanto a Mr. Bennett, que consideram um rufia.

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domingo, 24 de fevereiro de 2019

Curvas Ideiais, Relações Desconhecidas e outras histórias da Matemática, Jorge Buescu (Gradiva)


Livro de Jorge Buescu, Curvas Ideais, Relações Desconhecidas, publicado pela Gradiva
      Regressei a um género de que gosto muito, mas a que não dou a atenção devida, pelo menos de forma mais sistemática, a «divulgação científica (ou originais clássicos). Deveu-se este regresso à compilação de crónicas publicadas por Jorge Buescu na revista Ingenium (a origem da maioria delas, segundo o próprio autor), trazida a público pela Gradiva (2 edições, a primeira em novembro de 2018 e a segunda em dezembro do mesmo ano!)  sob o título Curvas Ideais, Relações Desconhecidas.
    Ao alinhar estas impressões preparei algumas referências sobre as minhas últimas incursões neste domínio, nomeadamente O Último Teorema de Fermat de Amir D. Aczel (já há alguns anos) e, mais recentemente, Como Mentir com a Estatísticade Darrel Huff (para não me esquecer de como somos manipulados todos os dias em frente ao pequeno ecrã), e Godel, Escher, Bach-Laços Eternos, de Douglas R. Hofstadter, na sequência da Exposição de Escher em Lisboa, onde estava exposto, pelo meu fascínio sobre as relações mais ou menos conhecidas entre matemática, música e formas plásticas de expressão artística. Nem sequer tinha reparado que todos estes títulos constam da lista da série Ciência Aberta da Gradiva, pelo que reitero o justo reconhecimento à editora que Jorge Buescu exprime na sua Nota Prévia.
    Teve esta compilação a capacidade de me proporcionar uma gratificante mistura de evocação, conhecimento e diversão. Logo em O Colecionador de Sucessões, ao introduzir a referência à OEIS (On-line Encyclopedia of Integer Sequence), criada originalmente pelo matemático americano Neil Sloane, começa por apresentar a forma como um problema colocado a um hipotético grupo de candidatos a um emprego pode ter múltiplas soluções. Salvaguardadas as evidentes diferenças, ou não se tratasse de uma evocação, veio-me à memória um fugaz encontro, na minha adolescência, com o já reformado professor de matemática, Silva Paulo, do então Liceu de Oeiras, que acompanhou um dos grandes matemáticos portugueses, Sebastião e Silva (que hoje dá o nome ao liceu), na sua reforma do ensino da matemática e na introdução das «matemáticas modernas» no currículo oficial da disciplina. Desse encontro ficou a imagem de uma sala pouco iluminada, revestida de livros alinhados quer vertical quer horizontalmente e, sobre uma mesa, uma brochura com o título (espero não ser traído pela memória) Cem Demonstrações do Teorema de Pitágoras. Cem? A que propósito, para quê? Pedi autorização para consultar e reconheço ter ficado surpreendido por reconhecer alguma «beleza» nas demonstrações (as que consegui perceber, claro) e perplexidade perante o facto de verificar (pela primeira vez?) ser possível olhar para um mesmo problema, matemático ou não, de tantas e diversas formas. Voltando à OEIS, que desconhecia, o impulso de experimentar foi irresistível. Lançar as mais disparatadas sucessões e verificar que estão registadas e, sobretudo, ver os padrões (artísticos?) das suas representações gráficas e ouvi-las!! E fecha-se ciclo com evocação da obra de Hofstadter e a referência às fugas de Bach.
    Também não conhecia o trabalho de Pedro J. Freitas (FCUL) e Simão Palmeirim Costa (FBAUL), que o autor apresenta em A Chave da Geometria de Almada, uma deveras interessante colaboração no estudo e interpretação do painel Começar de Almada Negreiros, com que nos deparamos, imediatamente, ao entrar na Fundação Calouste Gulbenkian. Parece-me importante referir que Pedro Freitas e Simão Costa organizam, em colaboração com a Fundação, visitas guiadas com explicações sobre o painel.
    Apenas como curiosidade, esta leitura modificou para sempre a forma com vou olhar para os engarrafamentos, quando estiver bem dentro de um. É preciso ler Menos Estradas Melhor Trânsito?. O que vai ao encontro do que já ouvi sobre a pendência nos tribunais, para cuja causa poderão concorrer a abertura de novos tribunais ou a multiplicação de profissionais da área, no que parece um quase evidente paradoxo. Será que haverá aqui algum objeto matemático que interesse estudar?
    Já vai longo o comentário, mas não posso deixar de referir uma passagem do prefácio, sobre «Big Data», que me parece um pouco descontextualizada e algo panfletária. Se é certa a apropriação, em minha opinião ilícita, de volumes monumentais de dados sobre as pegadas eletrónicas de todos nós, a conjetura sobre manipulação de eleitores e eleições parece-me ter um nível de generalização tão elevado que a sua demonstração será necessariamente problemática. Na realidade as grandes corporações citadas, vieram (antítese dialética?) «democratizar» a manipulação de massas, até há pouco monopólio das WMM (Weapons of Mass Manipulation), mais conhecidas por Main Stream Media (MSM), na sua maioria controladas, também elas, por outras grandes corporações ou pelos Estados, incluindo ligações a interesses militares. Mas esta conjetura já provocou danos factuais à democracia, com a «legitimação» de novas formas de censura, listas negras de sites marcados (branded) como «desinformativos» ou «fraturantes», «fact checkers» sem qualquer espécie de acreditação relativamente a idoneidade, independência e imparcialidade, arrastando também aqueles que pensam de forma diversa da do regime. E de repente estamos no primeiro termo da pseudo-sucessão de Niemoller-Brecht!
    Fecho, no entanto, com um voto de esperança, na figura espantosa da iraniana Maryam Mirzakhani, mulher, matemática, pela pessoa, pelo trabalho que não tenho a mínima capacidade de seguir ou compreender, mas amplamente reconhecido pela Academia (a primeira mulher a ganhar a Medalha Fields) e pelo impacto que a sua vida teve na condição da mulher, incluindo no seu país natal onde, como em muitos outros e em todas as religiões do mundo, a interpretação, tantas vezes sectária, que homens fazem dos textos sagrados, conduz a abusos e descriminações inaceitáveis.

João Gusmão

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

O Homem Duplicado, José Saramago (Porto Editora)

Opinião do livro O Homem Duplicado de José Saramago pela Porto Editora no blogue Clube de Leituras
    Comprei este livro há vários anos, na sequência da sua adaptação para cinema (apesar de não ter visto o filme). Entretanto, o livro ficou a aguardar a sua vez na minha estante. E o que eu andei a perder!
    Tertuliano Máximo Afonso, Máximo Afonso, de preferência, é professor de História no liceu e vive num «marasmo» próximo da depressão desde o seu divórcio. Para o tentar distrair, o colega de Matemática recomenda-lhe um filme leve que viu há uns tempos, Quem Porfia Mata Caça, e, apesar de não ser propriamente amante de cinema, Máximo acaba por alugar o vídeo. E a sua vida fica virada do avesso. Porque, por uma fração de tempo, vê-se a si mesmo num papel secundário desse filme. Mais do que isso, vê-se como era na altura em que o filme fora gravado.

    «[...] tudo quanto é possível suceder, já sabemos que sucederá, primeiro foi o acaso que nos tornou iguais, depois foi o acaso de um filme de eu nunca tinha ouvido falar, poderia ter vivido o resto da vida sem imaginar sequer que um fenómeno destes escolheria para manifestar-se um vulgar professor de História, este que ainda há poucas horas estava a corrigir os erros dos seus alunos e agora não sabe o que fazer com o erro em que ele próprio, de um instante para o outro, se tinha visto convertido.»

   Inicia então uma busca obsessiva por esse seu duplicado, com consequências que não poderia prever, por mais advertências que o Senso Comum, que surge como que personificado de quando em vez, o tente convencer a parar.

    «O que tiver de ser, será, Conheço essa filosofia, costumam chamar-lhe predestinação, fatalismo, fado, mas o que realmente significa é que farás o que te der na real gana, como sempre, Significa que farei aquilo que tiver de fazer, nada menos, Há pessoas para quem é o mesmo aquilo que fizeram e aquilo que pensaram que teriam de fazer, Ao contrário do que julga o senso comum, as coisas da vontade nunca são simples, o que é simples é a indecisão, a incerteza, a irresolução [...]

    Gosto muito da escrita de Saramago. Não o percebi na escola, com o Memorial do Convento, mas tomei consciência disso quando, há uns anos, li A Jangada de Pedra. Desta vez, foi igual. Assim que comecei a ler, maravilhei-me com a escrita. Mas foi preciso chegar ao último terço do livro para o devorar. Confesso que durante a primeira parte, não conseguia tirar da cabeça o livro O Outro Eu de Daphne du Maurier, e estava como que à espera que Saramago seguisse a mesma linha. Pois não seguiu e deu-nos, pelo contrário, um final inesperado e genial.
    Vale muito a pena ler!

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sábado, 9 de fevereiro de 2019

A misteriosa chama da Rainha Loana, Umberto Eco (Gradiva)

Capa do livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, de Umberto Eco, publicado pela Gradiva   Um livro diferente, não só pelas ilustrações (é designado, aliás, de romance ilustrado) mas também pelo tema de que trata. A memória ou a sua perda. O que somos ou quem somos sem a memória.

    «E o senhor, como se chama?
    Espere, tenho-o debaixo da língua.
    Tudo começou assim.»

    É desta forma que se inicia o livro. Yambo, um alfarrabista de Milão recupera parte da memória depois de um acidente vascular cerebral. Recorda-se de tudo o que lhe perguntam, mas não se lembra de quem é. Como lhe explica o médico, nós temos uma memória implícita, que nos permite executar uma série de coisas que aprendemos de forma automática, e temos uma memória explícita, através da qual recordamos e sabemos que estamos a recordar. A memória explícita divide-se em semântica e episódica ou autobiográfica. Yambo perdeu esta última, ou seja, não recorda os episódios da sua vida.
    Ignoro se esta descrição e divisão da memória estão cientificamente corretas, mas a indicação das consequências é absolutamente fascinante. Por exemplo, quando lhe pedem para dizer o nome - «como se chama» - é incapaz de responder, mas se lhe pedirem para assinar, não hesita sequer.  Como a mulher, as filhas e os netos fazem parte da sua memória pessoal, também não se recorda deles. Quando lhe contavam episódios da vida dele, ele fixava-os, mas era como se tivessem passado com outra pessoa.
    Para o ajudar a recuperar a memória, Paola, a mulher, sugere-lhe que vá uns dias para Solara, para a casa que era dos seus avós e onde passou parte da infância. Algum tempo depois, apercebe-se que não está a funcionar:

    «Não é assim que se reconstrói uma memória. A memória junta, corrige, transforma, é verdade, mas raramente confunde as distâncias cronológicas, uma pessoa deve saber perfeitamente se uma coisa lhe aconteceu aos sete ou aos dez anos, também eu agora sabia distinguir o dia em que acordei no hospital do da partida para Solara, e sabia muito bem que entre um e outro ocorrera um amadurecimento, uma mudança de opiniões, um confronto de experiências. Pelo contrário, naquelas três semanas absorvera tudo como se em criança o tivesse engolido de uma só vez e num fôlego - e forçosamente tinha a impressão de ter ficado atordoado por uma mistura inebriante.»

    Em Solara faz uma viagem no tempo e acompanhamo-lo através dos livros, das revistas e da música pelos seus anos de infância e juventude. E nesta viagem no tempo recupera não apenas a sua memória, mas a memória de uma geração. Redescobre histórias do seu passado pessoal e familiar que, contudo, não o apaziguam totalmente («Encontro-me de novo perante uma barreira de nevoeiro.»). Tem novo acidente, mais grave do que o primeiro, e fica em coma.
    Perante a descrição da situação senti-me arrepiada:

    «Contudo, no coma profundo, toda a gente sabe, o cérebro não dá sinais de atividade, enquanto que eu penso, sinto, recordo. Pois é, mas isto é o que dizem os de fora. O cérebro dá um encefalograma plano segundo a ciência, mas o que é que a ciência sabe acerca das astúcias do corpo? Se calhar, o cérebro aparece plano nos seus monitores, e eu penso com as vísceras, com os bicos dos pés, com os testículos. Eles acham que não tenho atividade cerebral, mas eu ainda tenho atividade interior.»

    E, a partir daqui, entre recordações, questiona-se sobre a inteligência humana, a memória e a forma como percecionamos a realidade, enquanto procura o rosto da jovem por quem se apaixonou no liceu:

   «Mas ter-me-á alguma vez acontecido, num sonho, sonhar com outro sonho, como estarei a fazer agora? E se, em vez disso, alguém estivesse a projetar um filme diretamente no meu cérebro?»

     E na névoa procura a chama.
     Um livro simultaneamente inquietante e fascinante.

   
A misteriosa chama da rainha loana é um romance ilustrado publicado pela gradiva
A Misteriosa Chama da Rainha Loana é um romance ilustrado.
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, J. K. Rowling (Editorial Presença)

Harry Potter e o Priseioneiro de Azkaban, o terceiro livro da saga Harry Potter é revisto e comentado no blogue Clube de Leituras. Em Portugal, o livro é editado pela Editorial Presença    O terceiro livro da saga Harry Potter foi sempre o meu favorito. É o livro onde se descobre um pouco mais sobre a família de Harry, particularmente dos tempos do pai dele em Hogwarts e dos acontecimentos que acabaram por levar à sua morte e da mulher. Mas, mas do que isso, é um livro que dá umas quantas reviravoltas - e eu sempre me perdi por reviravoltas!
    Quando o livro começa ainda estamos nas férias de verão e Harry tem a infelicidade de ter de aturar a irmã do tio Vernon durante uma semana. A tia Marge gosta tanto de Harry como ele dela e as coisas não podiam terminar da pior forma, com Harry a perder o controlo e a insuflar a senhora, fugindo de seguida, absolutamente convicto de que com esta segunda infração será expulso de Hogwarts. Para piorar a situação, há um assassino à solta e Harry começa a ser como que perseguido por um enorme cão preto que vem a descobrir tratar-se do pior dos presságios de morte.
    Para seu alívio, acaba por perceber que a perda de controlo foi considerada um dano menor e que vai efetivamente voltar para a escola com os amigos. Mas o alívio é momentâneo. O assassino fugido é, afinal, um temível feiticeiro, seguidor de Voldemort, que fugiu de Azkaban para procurar Harry; e, por conta dessa fuga, Hogwarts passa a estar rodeada pela criaturas mais hediondas que Harry alguma vez defrontou: os Dementors.

    «Era como se a água gelada lhe subisse no peito, encharcando-lhe as vísceras. E foi então que a ouviu de novo. Uma voz que gritava dentro da sua cabeça, uma voz de mulher.
    - Não, o Harry não, por favor, o Harry não!
    - Afasta-te, sua palerma, afasta-te...
    - Não, o Harry não, por favor, prefiro ser eu a morrer...
    O cérebro de Harry estava entorpecido, girando numa neblina branca... que estava ele a fazer? Porque voava? Era preciso ajudá-la... Ela ia morrer... ia ser assassinada...
    E ele caía, caía por entre a neblina gélida.
    - O Harry não, por favor... tenha piedade....
    Uma voz estridente ria-se enquanto a mulher gritava e foi tudo o que Harry soube.»

   Desta vez (não sei quantas vezes já li este livro) não me senti tão agarrada, pelo menos até chegar às últimas 10 páginas, que é quando começam a desvendar-se os segredos. Isto porque, ao contrário do que acontece com os dois primeiros livros, este tem um enredo mais calmo, mais contido no que toca a aventuras. E, no entanto, é um livro essencial para a compreensão de toda a história, porque já não se trata apenas de conhecer mais um pouco do mundo mágico, mas sim começar a entrar nas malhas do enredo alargado dos sete livros. Aliás, sem os eventos do final deste terceiro livro, não poderia haver a continuidade.
    Já não há nada a fazer... agora tenho de ler a saga até ao fim!

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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Páscoa Feliz, José Rodrigues Miguéis (ed. A Bela e o Monstro)


Páscoa Feliz @ Clube de Leituras
    Foi a surpresa deste verão. Fininho, pequenino, jeitosinho, lê-se num dia. Não conhecia o autor, por mais que tivesse ouvido falar dele, não lhe lera quase nada. Depois descobri, pesquisando, que foi quem escreveu um conto que adorei (Arroz do céu, ou algo do género).
    É incrível a semelhança do registo Narrador/Personagem (o Renato) com o famosíssimo Mersault de O Estrangeiro, de Camus. Não desenvolvo este raciocínio porque não há nada pior do que «spoilar» O Estrangeiro. Andava pelas vinte, trinta páginas engo(lidas em voz dramatizada), já me ia passando pela cabeça quão genial é este autor, quão extraordinária é esta personagem, que já assim, de supetão, lhe tenho vontade de dar cinco estrelas. Passo o resto do livro a recordar-me que é uma história publicada em 1932, está o Salazar a tornar-se Presidente do Conselho, há gente já a ser presa por fazer marotices anti-situação.

   Passo o resto do livro, pendurada no testemunho do Renato e nem dou conta que estou sentada num autocarro, e que me apetece começar a dramatizar-lhe a voz à frente dos passageiros. Folheio-o freneticamente à procura de um significado para o título (quase me levou a adiar a sua leitura para a próxima Páscoa), e enfim encontro-o. Sim, o livro é sobre loucura. Ou sobre lucidez. É lerem e depois decidam vocês. (se rimou, é porque é verdade).

Por: Catarina Durão Machado


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