quarta-feira, 10 de abril de 2019

Pais e Filhos, Ivan Turguéniev (Relógio D'Água)

Opinião do livro Pais e Filhos, de Ivan Turguéniev, editado pela Relógio D'Água, no nosso Clube de Leituras
      Começar por dizer que gostei muito de ler este livro pode dizer pouco, mas continuo a pensar que os livros se dividem entre os que gostamos de ler e os que não gostamos de ler. Como ouvi dizer recentemente, ler um livro é como falar com um amigo e há livros com quem gostamos mais de falar. Neste caso, confesso até que terei alguma dificuldade em explicar porquê, mas o que é certo é que mesmo não vivendo de episódios nem procurando criar suspense, não me apetecia parar de o ler.
    Provavelmente, na sua essência, e como o título indica, é um livro sobre pais e filhos, sobre gerações, sobre a forma como convivem, se cruzam, chocam e, por fim, na maior parte dos casos, se entendem. Mas é também um livro sobre o amor, ou sobre a importância do amor correspondido. E, não menos importante, é um livro que tem como cenário a Rússia aristocrática e rural, no final do século XIX.
   Pais e Filhos começa com a chegada de Arkadi, jovem estudante, que aparece acompanhado de um amigo, Eugéni Bázarov. O pai, Nikolai, viúvo, vive com o irmão Pável. São estas duas personagens, Bázarov e Pável, aparentemente secundárias e opostas, que ao longo do livro vão atrair a nossa atenção. 
    Pável, descrito como solteirão e solitário, «entrava naquele tempo incerto, crepuscular, em que as nostalgias se parecem com esperanças e as esperanças com nostalgias, em que a juventude já passou e a velhice ainda não chegou».
    Bazárov é, nas palavras de Arkadi, um niilista, ou seja, é «um homem que não se curva perante nenhuma autoridade, que não tem fé em nenhum princípio, seja qual for o respeito que rodeia esse princípio».
     Os dois desdenham-se, confrontam-se e opõem-se:

    «Dantes os jovens tinham de estudar; não queriam passar por ignorantes e por isso trabalhavam mesmo contrariados. Mas agora basta-lhes dizer: tudo no mundo é absurdo! - e está o assunto arrumado. Os jovens ficam encantados. E na verdade, outrora eram uns papalvos, mas agora tornaram-se de súbito niilistas.»

    A história decorre entre a casa da família de Arkádi, dos pais de Bázarov e ainda a casa de Anna Serguéievna Odíntsova e, no final, o autor esclarece o leitor sobre o «que faz agora, precisamente agora, cada uma das nossas personagens».
    O livro tem passagens excelentes que não hesitei em roubar:

   «O tempo (toda a gente sabe) voa por vezes como um pássaro, outras vezes arrasta-se como uma lagarta; mas o homem sente-se especialmente bem quando nem nota se o tempo passa depressa ou devagar.
    (...)
    O aparecimento da vulgaridade costuma ser útil muitas vezes na vida: ela alivia as cordas demasiado tensas, atenua os sentimentos de presunção ou de falta de respeito próprio, lembrando-lhes o seu parentesco com eles.»

   Uma palavra final para a tradução - de António Pescada - e para a edição, que me pareceram exemplares (confesso apenas que não gosto que as notas estejam no final do livro, em vez de aparecerem no rodapé da página em que são referidas).

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sexta-feira, 29 de março de 2019

Genética para Todos - de Mendel à Revolução Genómica do Século XXI: a prática, a ética, as leis e a sociedade; Heloísa G. Santos, André Dias Pereira (Gradiva)

Opinião do livro Genética para todos e dos perigos da revolução genómica sem o devido apoio legal
   No passado dia 15 de fevereiro a Gradiva lançou o livro Genética para Todos - de Mendel à Revolução Genómica do Século XXI: a prática, a ética, as leis e a sociedade, numa sessão seguida de debate que contou a presença dos autores e intervenções de Professor Doutor Carlos Ribeiro e Doutor Alexandre Lourenço.
    Dada a minha formação e particular interesse no tema, este livro despertou desde cedo a minha atenção e foi um prazer para mim assistir à sessão-debate e voltar a ouvir termos familiares sob um prisma não meramente científico mas de conotação ética.
    O livro, um pequeno livro, escrito com o objetivo elucidar a comunidade leiga quanto aos avanços na área da genética e os potenciais riscos que estes podem vir trazer sem o devido controlo - tanto a nível legal como com o devido e correto acesso à informação disponível.
   Não se trata, portanto, de um livro sobre Genética explicada de forma acessível - como eu depreendi pelo título -, mas sim de um conjunto de considerações do foro (bio)ético, tanto na sua perspetiva mais científica, como de um prisma legal, e aí, sim, uma tentativa de expor ao público todas as considerações que se tecem e teceram em torno deste tema que a todos atinge.
    Ainda assim, é um livro que requer algum aprofundamento, pela especificidade técnica nos dois ramos que apresenta. Como conhecedora da área, fiz, por vezes, o exercício de me abstrair dos meus conhecimentos de base e tentar perceber a primeira parte do texto (científica, por Heloísa G. Santos) e confesso que percebi alguma dificuldade com algumas designações. Já com a segunda parte (legal, André Dias Pereira), não precisei desse exercício, pois os temas legais são-me muito mais estranhos. O que senti foi que passei a conhecer muito mais o panorama legal mundial, europeu e nacional, o que me interessou muitíssimo, mas que houve uma parte considerável de informação que não me foi possível absorver, porque são muitos os acordos, decretos e afins nomeados.
    Porque a revolução genómica está aqui, a acontecer neste preciso momento, e porque a nossa identidade é o nosso bem mais precioso, recomendo este livro a todos aqueles que queiram conhecer melhor o que se passa no mundo e de que forma os seus direitos e a sua liberdade podem ser postas em causa como consequência dos avanços não regulados da ciência.

(Veja aqui os testemunhos dos autores:)

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terça-feira, 26 de março de 2019

O Amigo Comum, Charles Dickens (Relógio D' Água)

Passagens do livro O Amigo Comum, de Charles Dickens, traduzido por Maria de Lourdes Guimarães, editado pela Relógio d'Água       Depois de ter começado há cerca de duas semanas a leitura de O Amigo Comum, invoco o meu direito de não acabar um livro e vou parar de o ler. 
    Admito que um dia volte a pegar nele, até porque reconheço a qualidade da escrita que, confesso, me surpreendeu. Durante a minha juventude li alguns livros de Charles Dickens, embora não saiba dizer se eram versões adaptadas ou não. Apesar da minha decisão de parar de o ler, li os primeiros capítulos com imensa curiosidade e interesse. O Amigo Comum, o último romance de Charles Dickens, começa assim:
   «Nos nossos dias, não interessa o ano, ao cair de uma tarde de Outono, um bote sujo e com mau aspeto flutuava no rio Tamisa entre a Ponte de Southwark, que é de ferro, e a Ponte de Londres, que é de pedra.»
    Mas se o início é cativante, abundam ao longo do livro descrições de pessoas, cenas ou cenários que surpreendem, divertem ou deslumbram, parecendo por vezes uma obra contemporânea:
    «(...) o negócio de ações é a única coisa com a qual se negoceia. Não se tenha nem antecedentes, nem reputação, nem cultura, nem ideias, nem educação, mas que se tenham ações. Tenham-se bastantes ações para estar no Conselho de Administração com letras maiúsculas, para que se mova em negócios misteriosos entre Londres e Paris e seja um grande homem. De onde vem ele? Ações. Para onde vai? Ações. De que gosta? Ações. Tem princípios? Ações. O que o levou a ir para o Parlamento? Ações. Talvez, por si mesmo, nunca tenha sido bem sucedido, nunca tenha inventado seja o que for, nunca tenha produzido qualquer coisa? Resposta suficiente para tudo: Ações.»
    Ou então a crítica aos novos ricos: 
   «O senhor e a senhora Veneering eram habitantes novinhos em folha numa casa novinha em folha num bairro de Londres novinho em folha. Tudo à volta dos Veneerings era reluzente e novo.
    (...)
    Num jantar que ofereceram estiveram presentes um Deputado, um Engenheiro, um Funcionário das Finanças, um Poema sobre Shakespeare, uma Injustiça e um Funcionário Público. Nenhum parecia conhecer os Veneerings.»
    Depois destes excertos, parecerá absurda a minha decisão de parar de ler o livro, mas o número de personagens, a sucessão de capítulos em que deixamos de seguir uma história para passarmos a outra, sem ligação aparente, cria um puzzle que é difícil encaixar e acompanhar. Por isso admito que noutra altura, porventura em férias, possa voltar ou continuar a lê-lo.
     Reparei depois que no Desafio 100 livros lançado pela BBC estão 6 livros do Charles Dickens, Grandes Esperanças, Bleak House (Casa Sombria), David Copperfield, História de Duas Cidades, Oliver Twist, e Um Conto de Natal. Acho que é o único autor com este número de livros.
    Uma palavra final para a tradução, de Maria de Lourdes Guimarães, que me pareceu perfeita  sendo ainda por cima uma escrita muito difícil de traduzir.


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segunda-feira, 11 de março de 2019

A Amante do Governador, José Rodrigues dos Santos (Gradiva)


Opinião do novo romance de José Rodrigues dos Santos, a Amante do Governador, publicado pela Gradiva, no nosso blogue Clube de Leituras   Mais um lançamento do autor português mais prolífico da atualidade – se não em número de livros, seguramente em número de páginas!
    A Amante do Governador (717 páginas) é o fecho da trilogia composta por As Flores de Lótus, de 2015 (683 páginas), O Pavilhão Púrpura, de 2016 (698 páginas), e O Reino do Meio, de 2017 (700 páginas). Pelo meio, o autor ainda lançou dois livros de Tomás Noronha, Vaticanum, em 2016 (600 páginas), e Sinal de Vida, em 2017 (654 páginas). Uma bonita média de 1 000 páginas editadas por ano. Há quem chame a isto literatura a metro, há quem considere que José Rodrigues dos Santos (JRS) conta histórias, explana os seus conhecimentos enciclopédicos e, na verdade, ajuda-nos a melhor entender a História e o Mundo em que vivemos.
    Começo pela trilogia, em que o narrador Jorge Lobo, em fim de vida, conta a história de quatro personagens principais: Artur, Fukui, Lian-hua e Nadja, a que se deve ainda adicionar Sawa. Ao descrever as vidas deles, mostra como as ideologias radicais do séc. XX nasceram, cresceram e se consolidaram, desenvolvendo ainda uma teoria sobre uma origem comum (marxista) tanto do comunismo russo como do fascismo italiano e do nazismo alemão. Refere ainda o enorme impacto que a crise de 1929 provocou em todo o mundo.
    Artur, o português, assiste e acompanha o surgimento de Salazar, que também é personagem dos livros, dizendo o que de facto disse (ou escreveu). De passagem, aparece também Rolão Preto, o político que tentou ser o Mussolini português.
    Fukui, o japonês, observa o avanço do imperialismo e do militarismo no Japão. Pelo caminho, JRS explica, com grande detalhe, alguns aspetos fundamentais da cultura japonesa (a submissão absoluta ao Imperador e à autoridade do pai e/ou do marido, o respeito pela honra e a preocupação em «salvar a face», etc., recorrendo a uma outra personagem, Sawa, que ascende a uma posição importante no Exército Imperial e é um militarista convicto da superioridade da raça japonesa, descendente direta dos Deuses).
    Lian-hua, a chinesa, que se cruza com Mao Tse-tung (JRS terá esgotado com Salazar toda a sua simpatia com os personagens históricos desta trilogia, reservando para Mao uma descrição muito desagradável) e com o Kuomintang, passando ainda pela experiência da ocupação japonesa da China.
Nadja, a russa, sofre com a coletivização forçada na Sibéria e especialmente na Ucrânia, consegue fugir dos soviéticos para a China e acaba por ser submergida pelos japoneses.
     Finalmente, n’A Amante do Governador, verificamos que a trilogia não passou dum longo prólogo que apresentou a vida destes 5 personagens antes de se encontrarem todos em Macau, em 1941. Artur como Governador e Fukui como Cônsul, depois de se terem tornado grandes amigos em Berlim, em 1939, e Lian-hia e Nadja como personagens auxiliares. Sawa é o chefe do Kempeitai (a Gestapo japonesa) em Macau, e Lobo é o Responsável pela Economia, escolhido por Artur.
    O livro relata a forma como se viveu em Macau durante a guerra e os difíceis acordos que tiveram de ser estabelecidos para assegurar a sobrevivência da colónia, que estava completamente à mercê dos japoneses. Desde episódios de canibalismo e apoio (clandestino) à guerrilha chinesa, às vendas de petróleo e de canhões do séc. XVII para alimentar o esforço de guerra japonês, o livro esmiúça as decisões mais importantes do governador da colónia, que acabaria por ser afastado no fim da guerra por imposição do novo governo chinês, por acusação de colaboracionismo com os japoneses.
    Relata também as circunstâncias das mortes de Fukui e de Sawa, assim como a entrada de Stanley Ho no mundo dos negócios. Mais uma vez, JRS consegue conciliar muito bem os factos históricos com as suas estórias romanceadas.
    Do lado da História, aprende-se sempre muito – por exemplo, Macau sofreu um ataque aéreo por parte dos americanos, algo de que não se fala muito. Os livros de JRS são sempre muito didáticos, sejam ao nível da História, da Religião ou da Física Quântica, servindo para enriquecer a cultura geral de cada um e brilhar em «quizes».
    O recheio com que JRS acompanha as «partes mais sérias» dos seus livros corre o risco de ser apelidado de entulho. Diálogos pouco verosímeis, mulheres palpitantes de luxúria e de lascívia (ou vice-versa) que invariavelmente se transformam em sopeirazinhas desinteressantes e irritantes, logo que se vêem numa relação institucionalizada. Utilização bastante exagerada da técnica de criação de situações de suspense, real ou forçado, que sugere que JRS escreve os livros a pensar em eventuais adaptações televisivas e nos intervalos para a publicidade.
    
    Em resumo: Um livro que dificilmente viverá por si só, sem as 2 000 páginas da trilogia que o antecede, mas que é uma visão muito interessante sobre a expansão japonesa, a vida em Macau e os dilemas da governação.

Luís Serpa Pereira

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sábado, 9 de março de 2019

Timão de Atenas e Rei Lear, William Shakespeare (Relógio D'Água e Caminho)

 
O Rei Lear "@ Clube de Leituras"
    A leitura da obra Timão de Atenas foi feita para a disciplina da Escrita para Teatro. Confesso que não conhecia esta obra de Shakespeare, considerada uma peça menor, pelo que fiquei surpreendida ao descobrir que já tinha sido levada a cena muitas vezes, mesmo em Portugal,  que H. Purcell  compôs uma ópera e que Duke Ellington compôs igualmente a música Timon of Athens. Confesso também que não gostei particularmente de ler esta peça. Para além de me parecer uma obra fragmentada, dividida em duas partes, a história é pouco interessante. Mesmo o exercício de procura de um significado menos evidente ou menos óbvio para a peça e, sobretudo, para o próprio Timão, não tornou a peça mais apelativa.
    Quando concluí a leitura, e por me parecer que a questão podia não residir na obra em si, mas na minha falta de hábito de leitura de peças de teatro, para mais de época, decidi ler o Rei Lear. 
    E, neste caso, a minha experiência foi totalmente diferente. Nem o facto de conhecer a história tornou desinteressante a leitura, pelo contrário, foi difícil  interrompê-la, porque queremos saber o que vai acontecer às diferentes personagens. O Rei Lear tem tudo, tragédia, traição, amor, demência... Há também uma inegável atualidade na questão das relações familiares, do apoio das filhas ao velho pai que, depois de dividir o reino entre elas, teria combinado que se hospedaria alternadamente em casa  das duas filhas mais velhas, que logo depois lhe recusam o que tinham acordado.
    Não resisto a roubar uma das últimas falas de Lear quando, embora desgraçado, se reconcilia com a filha mais nova:
    (...) Vamos para a cadeia, anda; sozinhos os dois cantaremos como pássaros na gaiola. Quando pedires a minha benção, pedirei de joelhos o teu perdão. Assim viveremos, cantando e rezando, e contando velhas histórias, e rindo das borboletas doiradas, e ouvindo pobres diabos falar das notícias da Corte; e nós falaremos também com eles, de quem perde, de quem ganha, de quem entra, de quem sai; e, como se fôssemos espias de Deus, tomaremos a nosso cargo explicar o mistério das coisas; dos muros da prisão, veremos partidos e seitas dos grandes da terra subir e descer, no seu constante fluxo e refluxo.
    Uma curiosidade final: a tradução desta edição do Rei Lear é de Álvaro Cunhal.


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Quero ler!

quinta-feira, 7 de março de 2019

Em Nome da Filha, Carla Maia de Almeida (Fundação Francisco Manuel dos Santos)

A opinião do livro de Carla Maia de Almeida sobre violência doméstica, no dia oito de março, em celebração do dia da mulher, no nosso Clube de Leituras
    O tema é atual. Nunca deixa de o ser, mas Portugal está agora com uma atenção muito maior às questões de violência e, particularmente, violência doméstica. 

    Nesta hora que dobra o dia 7 em dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher, despedimo-nos daquele que o governo decretou como Dia de Luto Nacional pelas (agora já) 12 vítimas mortais nos meros 66 dias que contamos desde a virada do ano. Foi por coincidência que o pequeno livro que é alvo de opinião nesta nova publicação me acompanhou hoje, sem saber ainda se lhe conseguiria pegar.
  Também abri-lo foi por um simples acaso - o de ter terminado o livro anterior (que aparecerá num outro post, posterior) -; já tê-lo terminado ainda hoje, escassas horas após ter iniciado a leitura, foi inevitável.
   Uma reportagem (assim lhe chama a autora) dividida em três partes: a primeira, a vida de uma filha que presenciou o assassinato da mãe pelo pai; a segunda, relatos de vítimas de violência doméstica, na altura em casas de abrigo; a terceira, a adaptação de um conto popular. As duas primeiras partes são testemunhos verdadeiros das vítimas, arrepiantes, comoventes, inacreditáveis, talvez, para quem lê desconhecendo essa realidade. Mas tão essenciais...
   Ao longo da segunda parte, a autora também menciona estudos e figuras de autoridade - psicólogos, sociólogos, entre outros - abordando a violência doméstica sob os seus vários prismas: as vítimas, não só mulheres, também homens, crianças, idosos; os agressores e a falta de apoio de que também sofrem; o stress pós-traumático. Acima de tudo, como entre contextos e perfis aparentemente tão distintos, as histórias podiam contar-se quase como uma só...
    Um livro que se lê de um só fôlego e que toca, toca tanto - e do qual não posso deixar de transcrever a ressalva da autora: «Gostaria de deixar claro que este livro não é contra os agressores, e muito menos contra os homens. A minha ambição é unir e não separar. Como todas as lutas culturais mais importantes dos últimos séculos (...) precisamos de contar com o empenho de todos nós, homens e mulheres, porque nunca seremos bastantes para mudar mentalidades. Essa é sempre a parte mais difícil e mais demorada».

«- A quem serve o amor?
- O amor serve o amor.»


    Quero deixar uma nota adicional para a beleza da escrita e do texto, bem como a revisão cuidada e o próprio design da edição. Nota máxima!

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segunda-feira, 4 de março de 2019

Um Artista do Mundo Flutuante, Kazuo Ishiguro (Gradiva)

Imagem da capa do livro de Kazuo Ishiguro, Um Artista do Mundo Flutuante, pela Gradiva, em recensão no blogue Clube de Leituras
    Este livro deixou-me absolutamente dividida - o que justifica, em parte, o tempo entre o fim da sua leitura e a minha recensão da mesma neste blogue.
   Recorrendo à fórmula a que já nos habituou e de que, pessoalmente, gosto bastante, a história, narrada na primeira pessoa, é como que um discorrer de memórias dentro de memórias. Em qualquer dos seus romances já lidos - Nunca Me Deixes, The Remains of the Day (Os Despojos do Dia) e O Gigante Enterrado - encontramos esta forma de escrever, mas diria que este é aquele que mais se aproxima do primeiro, que é, sem dúvida, para mim, o seu melhor romance e o que me fez ler todos os seguintes (que não lhe chegaram aos «calcanhares»).
    Se me perguntarem se gostei do livro, direi que sim. Se me perguntarem do que trata, responderei que me parece ser a análise de uma vida e de como as nossas ações podem vir a ter influências imprevisíveis no futuro. Mas também pode não ser exatamente isso...
 Narrado na primeira pessoa, somos, como leitores, apresentados ao Japão pós-Segunda Guerra, pelas palavras de Masuji Ono, um pintor reformado e, pelo que nos dá a entender, bastante conhecido pelas suas obras.

    «Quando se passa em revista os feitos de uma vida, existe sem dúvida algum consolo - e até uma profunda satisfação - na consciência de se ter falhado em qualquer coisa que mais ninguém teve a coragem ou a determinação de tentar.»

   Masuji dirige-se frequentamente ao leitor de forma direta, fazendo algumas interpretações de olhares, conversas ou comentários que ficou de alguma forma a remoer, dando-nos a entender que poderá ter tido alguns comportamentos ou defendido alguns ideais no seu passado que, à luz dos novos valores, poderiam ser francamente mal interpretados.

   «a meu ver, um homem que se respeite a si mesmo não tem alternativa senão admitir a sua responsabilidade pelos actos que cometeu; não é uma tarefa fácil, claro está, mas há realmente uma certa satisfação, uma certa dignidade, em assumir erros do passado. Em todo o caso, não há vergonha nos erros cometidos de boa-fé. Mais vergonhoso é, sem dúvida, não querer ou não poder reconhecê-los.»

    E porém… há sempre uma parte de nós que fica na dúvida quanto à relevância que Ono atribui a estes momentos, não compreendendo inteiramente se se trata verdadeiramente de um tema, ou se decorre apenas de mal-entendidos por parte do narrador.

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