domingo, 28 de julho de 2019

A sonata de Kreutzer, Lev Tolstoi (Relógio d' Água)

Lev Tolstoi "@ Clube de Leituras"
    Quando escreveu A sonata de Kreutzer, Lev Tolstoi já tinha escrito os que são considerados os grandes livros da sua vida,  Guerra e Paz (1869), Anna Karénina (1877) e A morte de Ivan Ilitch (1886), a que aquele se veio juntar. Apesar de ter apreciado muito esta obra é inquestionavelmente um livro escrito no período que corresponde à segunda fase da sua vida. Conforme refere Vadimir Nabokov, citado na badana, em «finais de setenta, já passado dos quarenta anos, a sua consciência triunfou: o ético ultrapassou o estético e o pessoal, e levou-o a sacrificar a felicidade da mulher, a pacífica vida familiar e a sublime carreira literária, em nome daquilo que considerava uma necessidade moral: viver de acordo com os princípios da moralidade racional cristã - a simples e austera vida da humanidade em geral, em vez da empolgante aventura da arte individual.»
    Se n' A morte de Ivan Ilitch a reflexão - a interrogação  - é sobre a morte e a  vida, n' A sonata de Kreutzer é sobre o casamento. Contudo, já no primeiro era também aflorada esta questão e com o mesmo desencanto:

    «Restavam apenas os raros momentos de afeição dos esposos, mas que eram breves. Eram ilhotas onde eles acostavam por algum tempo, mas depois voltavam a partir para o mar da hostilidade velada que se manifestava no alheamento um do outro.»

    N' A sonata de Kreutzer a ação passa-se toda numa viagem de comboio. O livro é narrado na primeira pessoa que  naturalmente identificamos com o próprio autor, contudo, é da boca do seu interlocutor que ouvimos os pensamentos de Tolstoi sobre o casamento, as mulheres, a infidelidade, os ciúmes...
    O mote é logo no início dado por um outro passageiro, advogado, que fala no número elevado de divórcios. Na carruagem segue um passageiro que evita comunicar ou apresentar-se aos outros passageiros, até que se apresenta como Pózdnichev, aquele que matou a mulher. E conta então a sua história, como conheceu a mulher, o casamento, os filhos, a mudança para a cidade. As discussões constantes, as quase ruturas, os ciúmes e por fim a morte dela. A violentíssima e trágica morte da mulher devido aos ciúmes que ele sente.
    A dada altura, quando fala das mães das jovens que procuram marido para as filhas, senti que estava a ler os pensamentos de algumas personagens masculinas que povoam os romances de Jane Austen.
    É quase difícil admitir que gostei do livro, da forma como está estruturado e escrito, porque mesmo sabendo da distancia temporal que justifica um outro olhar sobre a história, não deixa de ter - transmitir - uma perspetiva negativa sobre as mulheres e uma visão arcaica sobre o casamento e o relacionamento entre os dois sexos. Mas gostei...

    O livro tem o nome d' A sonata de Kreutzer de Beethoven, música que a mulher de Pózdnichev toca com um violinista, desencadeando os ciúmes do marido. 
    Não resisto a roubar o que diz da música:

    «O que é a música? O que é que ela nos faz? E porque é que faz o que faz? Dizem que a música provoca um efeito sublime na alma....Mentira, absurdo! Provoca um efeito, um efeito terrível (estou a falar de mim), mas não sublime. Não age na alma de modo sublime nem humilhante, mas de modo excitante. Como lhe hei-de explicar? A música faz-me esquecer de mim próprio, da minha verdadeira situação, transporta-me para outro espaço qualquer que não é o meu: a música parece que me faz sentir o que na verdade não sinto, que me faz compreender o que não compreendo, parece que, com a música, posso fazer o que na verdade não posso. Explico-o assim: o efeito da música é como o do bocejo ou do riso; não tenho sono mas bocejo quando olho para alguém a bocejar; não tenho motivos de riso mas rio quando ouço alguém a rir-se.
    A música transfere-me de imediato para o estado de espírito do músico quando a compôs. Fundo-me na alma dele e, juntamente com ele, transporto-me de um estado para o outro, mas não sei porque o faço.» (pg. 90)
    

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    quarta-feira, 24 de julho de 2019

    Bom Dia, Tristeza, Françoise Sagan (A casa dos Ceifeiros)

       
    Françoise Sagan "@ Clube de Leituras"    Dificilmente direi algo sobre este livro que não tenha sido já dito. A sensação que tive quando comecei a lê-lo foi que gostaria de o ter lido antes, provavelmente com a idade da Cécile («Naquele Verão, tinha dezassete anos e era totalmente feliz.»)
        Não quero com isto dizer que Bom dia, Tristeza seja um livro para jovens, bem pelo contrário, mas acho que se o lesse com essa idade teria uma compreensão mais completa dos estados de espírito de Cécile e, porventura, de mim própria. As flutuações de humor, a descoberta do outro e do amor e tudo o mais que acompanha essa idade entre a ainda infância e a quase idade adulta («O amor abrigava-me a viver de olhos abertos, na Lua, amável e tranquila.», pg. 129).
         No verão em que decorre a ação, Cécile, que tinha saído do colégio há dois anos, vive com o pai, que tem 40 anos e é viúvo desde os 25. O pai mudava de mulher de seis em seis meses e ela descreve-o como um homem bom, generoso e alegre. Vão de férias, juntamente com Elsa, a namorada do pai, e pouco tempo depois junta-se-lhes Anne Larsen, uma velha amiga da mãe de Cécile.
        Anne é uma mulher muito sedutora, elegante e indiferente. Como logo se apercebe Cécile, possuíam  todos os elementos de um drama: um sedutor, uma semimundana e uma mulher ajuizada. Apesar de não se incluir, Cécile é também parte deste drama, e uma parte ativa:

        «Neste apartamento em desordem, ora despido, ora inundado de flores, repleto de encontros e de sotaques estrangeiros, regularmente obstruído de bagagens, não conseguia incluir a ordem, o silêncio, a harmonia que Anne transportava consigo como o mais precioso dos bens» (pg. 150)

        Se o desfecho era previsível, não conseguimos deixar de nos surpreender com a facilidade e o pouco tempo em que, pai e filha, conseguem ultrapassar o que aconteceu, excetuando pequenos momentos em que a memória trai Cécile:

        «Dentro de mim, sinto subir algo que designo pelo seu nome, de olhos fechados: Bom dia, Tristeza.»

       Um livro que nos toca e surpreende apesar dos anos que conta.
       Uma palavra final para a edição, deliciosa, desta editora Casa dos Ceifeiros, que desconhecia. Junta ao livro o poema de Paul Éluard a que Françoise Sagan foi buscar o título Bom dia, Tristeza (surpreende-me a vírgula que não existe nem na versão francesa, nem no poema) e, no final, o Relatório de Censura de 1954 e uma pequena nota de Jorge Reis Sá. O livro tem também as belíssimas ilustrações de Mily Possoz, portuguesa de origem belga.

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    segunda-feira, 15 de julho de 2019

    O Dono do Segredo, Antonio Muñoz Molina (Caminho)

      
    Antonio Muñoz Molina "@ Clube de Leituras"
      O Dono do Segredo é um livro delicioso. Lê-se de uma assentada, com o prazer acrescido da proximidade porque não só se passa na vizinha Espanha, num passado recente, mas também porque nós, o nosso país, faz parte da história. Aliás, o livro inicia-se com uma carta aos leitores portugueses escrita pelo autor, Antonio Muñoz Molina, aquando da edição portuguesa, e na qual refere:
        "(...) Se eu não tivesse escrito este livro não saberia agora, ou não me recordaria, da importância que teve para mim, há mais de vinte anos, a notícia da Revolução de Abril, e do modo como as ideias mais sentimentais da minha adolescência sobre a liberdade perduram em mim associadas, e para sempre, a Portugal, às fotografias de carros de combate rodeados por multidões fervorosas, de soldados jovens com os punhos erguidos e cravos nas bocas das espingardas. (...) Em Setembro de 1973 Santiago do Chile tinha sido a nossa capital da dor; em Abril de 74 Lisboa converteu-se na capital da nossa alegria. (...)"
        Toda a história se desenrola na primavera de 1974, em Madrid, onde aportam dois jovens, vindos da mesma aldeia, um para estudar jornalismo e outro à procura de trabalho. Apesar das diferenças entre eles, ambos sonham com uma mudança no país que afaste Franco do poder. O estudante, narrador e protagonista, trabalha esporadicamente para um advogado que um dia lhe confia um segredo, e ele conta-o ao amigo que conta a outro...a revolução fracassa - e provavelmente nunca terão tido nada a ver com isso - mas viverão para sempre com o facto de não terem conseguido guardar segredo.
        O livro está muito bem escrito e não resisti a roubar algumas frases:
        "(...) o que o futuro tem de mau, quando ainda não se transformou em passado, é que não há maneira de suspeitarmos o que trará consigo, e que os únicos prognósticos que acertam são os retrospetivos.(pg. 32)"
        "(...) Tendemos instintivamente a favorecer-nos nos retratos do passado traçados pela memória. Depois descobrimos numa carta de há vinte anos o que pensávamos e sentíamos de facto então e vemo-nos como éramos, não ingénuos, mas simplistas, fanáticos em vez de apaixonados e rebeldes, pretensiosos, ignorantes, bastante idiotas, mas sobretudo distantes, tão inacessíveis nessa distância como a fotografia de um desconhecido, usando palavras que hoje juraríamos nunca ter dito nem escrito. (pg. 89)"
        Apesar de contar com mais de 20 anos, o livro é de uma enorme atualidade ao reflectir sobre a mudança de regime vivida em Espanha e a incapacidade, que ainda hoje se mantém, de fazerem as contas com o passado, numa transição feita num gota-a-gota exasperante (...) sem nunca termos tido a alegria de começar de novo, de apagar tudo e viver uma nova era: a alegria ou a ilusão, tanto se me dá.   

    domingo, 14 de julho de 2019

    Harry Potter e o Príncipe Misterioso, J. K. Rowling (Editorial Presença)

    Opinião e resumo do livro Harry Potter e o Príncipe Misterioso, de J. K. Rowling, no blogue Clube de Leituras

        A primeira vez que li este livro (e esta foi apenas a segunda, ao contrário do que aconteceu com todos os volumes anteriores da saga Harry Potter) odiei-o. Não creio ser uma palavra exagerada. Fiquei desiludida, achei que era uma considerável diminuição da qualidade da história. Já não podia simplesmente imiscuir-me com os meus companheiros literários nas suas aventuras e desventuras por Hogwarts. E eu só podia viver aquele mundo através deles. Se estivessem preocupados com outras coisas, não podia aceder-lhe! Mas, como tem vindo a acontecer, desde que decidi ler a saga do princípio ao fim, desta vez foi diferente. Voltei àquela sensação de querer sempre saber o que se ia passar de seguida. Era intriga atrás de intriga e o equilíbrio perfeito entre história e ação.

        O sexto ano de Harry Potter em Hogwarts começa logo com um estranho pedido de Dumbledore para que o aluno o acompanhe na visita a um amigo e antigo professor que o diretor quer convencer a voltar ao cargo, e que terá um papel preponderante para ligar as peças do puzzle da história de Tom Riddle. Por sua vez, é com esta informação que Dumbledore e Harry podem começar a acreditar numa forma de destruir Voldemort...
        Finalmente, conhecemos o passado de Voldemort, a história que o levou a tornar-se o mais temível feiticeiro negro, as suas motivações. 


        «- O professor já sabia... nessa altura? - inquiriu Harry.
       - Se já sabia que acabava de conhecer o mais perigoso feiticeiro Negro de todos os tempos? - indagou Dumbledore. - Não,, não fazia a menor ideia de que ele se transformaria naquilo que é. No entanto, ele intrigou-me. Regressei a Hogwarts, tencionando mantê-lo debaixo de olho, algo que de qualquer forma teria feito, dado que ele estava sozinho e sem amigos, mas já nessa altura senti que devia fazer, tanto por causa dele como dos outros.
        »Os seus poderes [...] encontravam-se extraordinariamente desenvolvidos para um feiticeiro tão jovem e, o que era mais interessante e agourento, ele já descobrira que os podia controlar em certa medida e começara a empregá-los conscientemente.»


        O sexto ano de Harry Potter em Hogwarts começa logo com um estranho pedido de Dumbledore para que o aluno o acompanhe na visita a um amigo e antigo professor que o diretor quer convencer a voltar ao cargo, e que terá um papel preponderante para ligar as peças do puzzle da história de Tom Riddle. Por sua vez, é com esta informação que Dumbledore e Harry podem começar a acreditar numa forma de destruir Voldemort.

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    quarta-feira, 10 de julho de 2019

    O domador de leões, Camilla Lackberg (D. Quixote)

        Continuo a surpreender-me com a explosão dos livros policiais de autores nórdicos que, tenho a sensação, substituíram as escritoras britânicas, já com alguma idade e cabelos brancos que, entre chávenas de chá, imaginavam crimes e criminosos hediondos. Parece-me, porém, que nenhum crime nem criminoso inventado por elas chegava aos pés destes. Mas não é a maldade ou o horror do crime que faz um bom livro policial nem sequer o seu desfecho ou o suspense que o antecede. Para mim, que não tento sequer adivinhar o autor do crime, um bom livro policial é aquele em que vamos descobrindo lentamente as pistas que vão sendo plantadas parcimoniosamente, conduzindo-nos, como se estivéssemos na cabeça de quem investiga o crime, à descoberta do criminoso. Mas em que o mais importante é o motivo, a causa do crime.
       Desta autora, é o terceiro livro que leio, depois d'A Ilha dos Espíritos e A Sombra da Sereia, e neles encontro a ideia do mal gratuito, sem razão aparente ou que o justifique. A ideia  de que alguém pode nascer mau, de uma maldade mórbida, letal para todos os que o rodeiam independentemente do ambiente em que vive e foi criado. Admito que isso possa acontecer, mas em situações excepcionais, contudo estes livros alimentam-se dessas situações como se fossem a regra.
         Já no segundo livro senti a redundância da história e, neste terceiro, esta sensação ainda é mais óbvia. Os três livros decorrem em Fjallbacka e os protagonistas são Patrick Hedstrom, investigador, e a sua mulher, Erica Falk, escritora. O trabalho de investigação que Erica faz para o livro que tem em mãos cruza-se com a investigação que o marido está a fazer e é decisiva para o desfecho da mesma. No meio disso tudo há a vida familiar de ambos, os filhos pequenos do casal, a irmã de Erica, Anna, e as pessoas que trabalham com Patrick na polícia.
        Apesar de tudo, confesso a total dependência do livro mal se começa a ler. Só isso pode justificar que em tão pouco tempo tenha devorado as mais de 400 páginas do livro.

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    sábado, 6 de julho de 2019

    O ano em que Pigafetta completou a circum-navegação, Luís Cardoso (sextante editora)


    Luís Cardoso "@ Clube de Leituras"
         Confesso que não sabia quem era Pigafetta, mas o título induziu-me a procurar e fiquei a saber que era um nobre nascido em Vicenza, no final do século XV. Quando soube da expedição de Fernão de Magalhães, que partia à procura das ilhas Molucas, ofereceu-se para participar, e viajou desempenhando o papel de intérprete, cronista e cartógrafo. Três anos depois, apenas um navio regressou da que foi a primeira viagem de circum-navegação à volta do mundo. Ao contrário de Magalhães, Pigafetta sobreviveu, tendo escrito relatos sobre a viagem, o que o celebrizou até aos dias de hoje.
        Luís Cardoso parte da ideia de que Pigafetta ficou retido em Timor, não tendo concluído a sua viagem de circum-navegação ao mundo que será mais tarde concluída, ou pelo menos desejada, por um timorense, albino, transexual, que usa o seu nome. Como se de alguma forma esta alteração da história de Pigafetta, ali parado, sem conseguir concluir a sua viagem, nos desse a ideia daquele povo, daquele país, aprisionado numa ilha, à espera, desde que ali aportaram, para concluir a sua viagem.
        Quando comecei a ler o livro O Ano em que Pigafetta Completou a Circum-Navegação, senti-me um pouco perdida com as pessoas, os nomes, as suas mutações e disfarces, contudo, compreendi que isto fez parte da vida dos timorenses durante a ocupação dos bapak (indonésios). Mas a história não fica apenas por esse período, vai anos antes, à ocupação pelos japoneses, durante a segunda guerra mundial, e às suas colunas negras, ao período colonial português, à guerra civil que se seguiu à declaração de independência. E sobre este período não culpa nem desculpa ninguém:

        «Que, para ela, (o referendo) devia ter ocorrido nos finais da década de setenta, conforme estava previsto pelos malaes (estrangeiro/português). Pena que os timorenses se tivessem precipitado todos. Uns porque tinham muita pressa e outros porque não tinham nenhuma. Entre a ânsia de alguns e a hesitação de outros, entrou o bapak [...]»

        Reitera, aliás, a ideia de que não se justifica julgar ninguém por este período:

        «Ninguém estava interessado em voltar a escavar o que o tempo se encarregou de enterrar.» (pg. 161) 

        «Achava que não era o momento oportuno para se pedir contas sobre o que os timorenses fizeram uns aos outros. O que os bapaks implantaram durante estes anos de terror e de medo ultrapassava de longe qualquer maldade que porventura os homens tivessem feito à face da Terra.» (pg. 187).   


        E a história é feita de várias histórias, quase todas contadas e protagonizadas por mulheres que procuram o filho ou aguardam os maridos ou companheiros que as deixaram para se juntarem à resistência, ou partiram para o outro lado do mar - tasi-balu. Várias gerações de mulheres, como Aurora, avó de Carolina, que se casou ainda menina com o major (na altura ainda era tenente) e que guarda uma fotografia dessa altura, apenas com um pano atado à cintura, porque a forçaram a posar assim.

        «[as nativas] Ficam furiosas quando invadem as suas privacidades. Tapam-se na presença de estranhos. Quando não podem, tapam os olhos com as mãos. Para não verem os olhos de quem as vê. Para não se verem como ao espelho quando são alvo de olhares.»

        E no meio há a saudade da mãe ou da ama, como já transparecia no outro livro que li do mesmo autor, Para Onde Vão os Gatos Quando Morrem?:

        «Não me lembro das mãos da minha mãe, é triste não me lembrar disso. Nem sequer do seu cheiro, é triste não me lembrar disso. Depois de me dar à luz foi-se embora, é triste lembrar-me disso. Fartou-se da ausência do meu pai,  é triste lembrar-me disso. Foi atrás de um tocador de rabeca que prometeu que nunca havia de a deixar só e passado um ano ficou ainda mais só a olhar para o mar.» (pg. 103)

         Apesar das várias histórias pessoais que se cruzam ou por causa delas, O Ano em que Pigafetta Completou a Circum-Navegação é, sobretudo, um relato da luta dos timorenses pela sua independência, pela conclusão da sua viagem, e uma homenagem às mulheres e aos homens que de diferentes formas contribuíram para este desfecho: «Pergunto quantos dos timorenses que embarcaram nessa aventura de construir um país independente acreditavam realmente num final feliz.»

        Uma palavra final para a escolha do narrador que, surpreendentemente, é a sandália do pé esquerdo de Carolina. O pai dela traz as sandálias para oferecer à filha quando regressa da Áustria, num encontro de reconciliação entre timorenses promovido pela ONU. E as sandálias são comparadas às mulheres, que as cobiçam e com quem se confundem: «Depois adormeço. Esqueço-me. Amanhã volto a ser uma sandália. A do lado esquerdo, onde bate o coração.»

        Um livro impossível de esquecer.

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    quinta-feira, 4 de julho de 2019

    O Prodígio, Emma Donoghue (Porto Editora)

    Opinião e resumo do livro O Prodígio, de Emma Donoghue, Porto Editora, no blogue Clube de Leituras
        Já lá vão alguns anos desde que li o primeiro romance de Emma Donoghue, O Quarto de Jack, e me rendi à escrita, à profundidade e à história. Por isso, quando soube deste novo livro, O Prodígio, e li a contracapa, decidi no momento que teria de o ler também.
       Numa pequena e remota aldeia da Irlanda do século XIX, após a Grande Fome de 1845 a 1849, uma menina deixou de comer no seu décimo primeiro aniversários... quatro meses antes de Lib, uma enfermeira inglesa, treinada pela reconhecida Miss Nightingale, ser chamada para vigiar a menina. Lib não conhece o caso antes de chegar ao destino e revolta-se por ser chamada, juntamente com uma freira enfermeira irlandesa, para testemunharem o que o médico afirma categoricamente tratar-se de um milagre.
       As enfermeiras devem montar um vigia, solicitada por um comité regional, a fim de confirmarem que, de facto, a menina sobrevive há mais de quatro meses sem ingerir qualquer alimento. Cética por natureza, Lib formula imediatamente o julgo de que a criança se trata de uma impostora, envaidecida pela atenção de tantos crentes que chegam a viajar só para a verem.
       Cedo, porém, cede aos encantos de Anna, uma menina alegre, humilde e inteligente, profundamente crente, incluindo na sua capacidade abençoada de não necessitar de alimentos terrenos:

        «Esta criança de feições suaves não era, portanto, o inimigo, nenhum prisioneiro experiente. Apenas uma menina apanhada numa espécie de sonho acordado, dirigindo-se calmamente até à beira de um penhasco, sem sequer se dar conta. Uma simples paciente que precisava da ajuda da sua enfermeira. E rapidamente.»

        Mas os bons espíritos e energia de Anna começam a esmorecer passados poucos dias da vigia, e, então, Lib começa a ser assaltada por uma desconfiança, tanto quanto um receio:
        
        «-Se, por alguma hipótese, tem havido alguma escapatória nesta casa ao longo destes últimos meses, a nossa vigília devia ter-lhe colocado um ponto final, a começar na segunda-feira. Por isso, existe uma real possibilidade de a irmã e eu sermos a únicas a conseguir impedir a Anna de se alimentar neste momento.»

         Confesso que fiquei um pouco desiludida. Conquanto queiramos efetivamente descobrir o que aconteceu e nos deixemos embrenhar na história, vão-nos naturalmente surgindo questões, que acabam por ser levantadas por Lib... mas em momentos muito posteriores, sem que se perceba a necessidade de protelar as respostas - a não ser como estratégia para assegurar que o leitor se agarre a mais umas páginas.

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    domingo, 30 de junho de 2019

    O Carteiro de Pablo Neruda, Antonio Skármeta (Editorial Teorema)

    Opinião e resumo do livro de Antonio Skármeta, O Carteiro de Pablo Neruda, no blogue Clube de Leituras
        Reparei neste pequeno livro a espreitar-me da estante da minha avó. Reparei uma vez, voltei a reparar na semana seguinte, e novamente na seguinte, até que, por fim, me decidi a trazê-lo comigo. Trata-se de um livro pequenino e velhinho, daqueles já com manchas amareladas a contarem o tempo das páginas, que contam uma história que me recordo de conhecer de há muitos anos - não fora este o livro que deu origem ao filme homónimo, realizado por Michael Radford em 1994.
    Neste romance, ficamos a conhecer a história de Mario Jiménez, que, em 1969, passou a ser carteiro na Ilha Negra, onde habitava apenas um correspondente: o poeta Pablo Neruda. Com o intuito de se fazer valer de uma relação de proximidade com o poeta para conseguir a atenção das mulheres, Mario Jiménez tenta que o escritor lhe faça uma dedicatória num dos seus livros. Acaba por lhe correr melhor. Ao entregar-lhe uma missiva que incluía uma carta da Suécia. o carteiro questiona Neruda quanto à sua avidez por começar por aquela carta. Assim entabulam conversa e, quando dá por si, Mario está a descobrir o que são metáforas e a desejar ter também o dom da palavra.

    «- E para pensar ficas sentado? [...] Agora vais até à calheta pela praia, e enquanto observas o movimento do mar, podes ir inventando metáforas.
    [...]
    O carteiro Mario Jiménez tomou à letra as palavras do poeta, e fez o caminho até à calheta perscrutando os vaivéns do oceano. Embora as ondas fossem muitas, o meio-dia imaculado. a areia mole e a brisa leve, não floriu nenhuma metáfora. Tudo o que no mar era eloquência, nele foi mudez. Uma afonia tão enérgica que até as pedras lhe pareceram tagarelas em comparação.»

    É então que Mario se perde de amores por Beatriz González e pede ajuda do poeta para que ela sucumba aos seus encantos, por meio das palavras, e, assim, formam os dois homens algo semelhante a amizade.
    A narrativa desenrola-se num período político conturbado, no Chile, que serve de pano de fundo e de influência ao desenlace da história.

    É um livro que se lê muito bem, pela sua simplicidade associada a uma beleza incomum de grande parte das frases que o constroem.
    Foi uma boa surpresa!

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    terça-feira, 25 de junho de 2019

    A velocidade da luz, Javier Cercas (Edições Asa)


    Javier Cercas "@ Clube de Leituras"
       Ao contrário de algumas pessoas que conheço que lêem mais do que um livro ao mesmo tempo, saltando de um para outro ao longo do dia ou dos dias, eu só consigo ler um livro de cada vez. Tenho de acabar o que estou a ler ou pelo menos decidir que interrompo a leitura porque começo a ler outro, e só quando  acabo este reinicio - ou não - a leitura do que abandonei. 
      É quase como se tivesse de manter uma relação de exclusividade com a história, com as personagens que habitam cada livro, impedindo-me de as abandonar a meio. Mas foi o que aconteceu com este livro, ou melhor com o que abandonei antes de o acabar, inadvertidamente, porque me esqueci dele. Comecei a ler este, A Velocidade da Luz, e não consegui parar.
        Confesso que inicialmente estranhei a mancha gráfica, onde praticamente não existem parágrafos e são raros os diálogos. A acrescer a isto, o livro só tem quatro capítulos, pelo que as páginas se sucedem, compactas e densas, contudo isto não dissuade o leitor de continuar, nem dificulta a leitura.
        A Velocidade da Luz é contada na primeira pessoa mas cujo nome desconhecemos. Trata-se de um jovem espanhol, de Gerona, que sonhava ser escritor e que aceita a sugestão de um antigo professor e vai para Urbana, nos EUA, com um bolsa de estudo. É lá que conhece Rodney Falk, um antigo combatente do Vietname, desprezado pelos outros professores e estudantes, que o temiam e consideravam louco. A vida de ambos vai-se entrelaçar fortemente e, apesar da distância entre ambos quando acaba aquele ano, há quase como uma fusão ou simetria entre as suas histórias pessoais. Como se um fosse o reflexo do outro.
        A Velocidade da Luz é o livro que ele escreve sobre as vidas de ambos e sobre o qual os dois falam e refletem antes de ele o escrever:

        «"As histórias não existem", disse-me uma vez. "O que existe é quem as conta. Se souberes quem é, tens história; se não souberes quem é, não tens história." "Nesse caso, eu já tenho a minha", disse-lhe. Expliquei-lhe que a única coisa que estava clara no meu romance era precisamente a identidade do narrador: um tipo exatamente igual a mim e que estava exatamente nas mesmas circunstâncias que eu. "Então o narrador és tu próprio?", conjecturou Rodney. "Nem pensar", disse-lhe, feliz por ser eu agora confundi-lo. "Parece-se em tudo comigo mas não sou eu."» (pg. 44)

        É um livro vertiginoso:

        «E nessa altura pensei que, desde que estava em Rantoul, tinha a impressão de que tudo se tinha acelerado, de que tudo tinha começado a correr mais depressa do que o habitual, cada vez mais depressa, mais depressa, mais depressa, de que a dada altura tinha havido um clarão, uma vertigem e uma perda, pensei que, sem o saber, tinha viajado mais depressa do que a luz e que aquilo que via agora era o futuro». (pg.190)

        Cada vez que a ação estabiliza ou normaliza dá-se uma viragem que nos surpreende, mantendo-nos presos à leitura, e deixando-nos em suspenso. No último capítulo receei que o livro acabasse da forma previsível como parecia que ia acabar - previsível na leitura mas imprevisível na realidade, e não sei o que mais me incomodava, se era uma, se era outra -, mas tal não aconteceu. 
        No meio deste enredo vertiginoso há momentos de reflexão sobre a vida, o amor, a amizade, os livros ou a literatura. E a ideia recorrente da ligação entre passado e futuro:

        «o passado não é um lugar estável mas mutante, permanentemente alterado pelo futuro e de que, por isso, nada daquilo que já aconteceu é irreversível.» (pg. 163)

        Aparece recorrentemente a oração de Hemingway, que não conhecia: 

        «Nada nosso que estás no nada, nada é o teu nome, teu reino nada, tu serás nada no nada como no nada».

       Um livro a não perder. Um autor a seguir.
       

    quinta-feira, 20 de junho de 2019

    A Princesinha, Frances Hodgson Burnett (Bertrand Editora)

    Opinião do livro A Princesinha Sara Crewe de Frances Hodgson Burnett, pela Bertrand Editora, no blogue Clube de Leituras
        Uma das minhas mais queridas recordações de infância é das noites passadas em casa dos meus avós, deitada na cama, com a minha avó a ler-me, por bocadinhos, a história d'A Princesinha, de Frances Hodgson Burnett, e do meu avô a abrir devagarinho a porta, para nos assustar, dizendo que o lobo mau ia devorar a Princesinha. 
        Sempre me foi uma história querida, porque é uma história mágica, uma história de esperança, e porque eram os meus momentos de princesa dos meus avós.
        O ano passado, na Feira do Livro, decidi comprá-lo, para poder ter um volume desta obra querida na minha estante e, quem sabe, vir a lê-la aos meus filhos, como a minha avó me lia a mim.
        Depois da crueza de Misery, precisava de ler alguma coisa bonita e simples.
       A leitura foi muito rápida. O livro lê-se extremamente bem  e devo salientar que a tradução e a revisão são irrepreensíveis! Ainda assim, fiquei um pouco indignada com algumas das cenas e ocorrências que passam na história - mais ainda se pensar nas mensagens que as crianças que a ouvem ou leem podem assimilar. Na verdade, quando mencionei esses temas à minha mãe, a resposta dela foi «Claro. Mas nós falávamos sobre isso, quando eras pequena, sobre as injustiças».
        Sara Crewe viveu até aos seus sete anos na Índia, apenas com o pai, depois de a mãe ter falecido. Com esta idade, abandona a terra natal para se ir instruir em Inglaterra, em regime de internato. Como o pai é extremamente abastado e a menina sempre viveu com luxo, são essas as condições exigidas pelo progenitor quando entrega a sua única menina aos cuidados da Senhora Minchin. A antipatia é mútua entre ambas, desde o primeiro momento, e piora por Sara ser extremamente inteligente e sempre, mesmo na adversidade, educada e contida. Quando, no seu décimo primeiro aniversário, recebe a notícia da morte do pai e da sua consequente situação de pobreza extrema, Sara não verga, mas a Senhora Minchin decide punir os luxos dispensados à rapariga remetendo-a para o sótão e obrigando-a a trabalhar para suportar a estada na casa. Porém, Sara usa toda a sua imaginação para procurar o melhor da sua atual condição («Não posso deixar de imaginar e inventar... Estou mesmo convencida de que, sem isso, não poderia viver...»), transmitindo uma graça a si e a quem a escuta que lhe permite viver num mundo mágico e que, em breve, será recompensada.

       «Quando se tem uma alma terna, as mãos estão sempre abertas e o coração também; e se por vezes as mãos estão vazias, o coração, esse, é inesgotável e pode dar sempre coisas belas, boas e doces: consolo, conforto, alegria - e a alegria é, bastantes vezes, o mais eficaz de todos os presentes.»


        Continua a ser o livro querido da minha infância, mas ainda não decidi se vai ser da dos meus filhos.

    ***

    domingo, 16 de junho de 2019

    Feira do Livro 2019

        Acabada a Feira do Livro deste ano, estes foram os livros que comprei. Menos que desejava seguramente, mas para além do preço dos livros, tenho que me lembrar daqueles que ainda aguardam que os leia, pousados em cima do baú do meu quarto e no chão, numa pilha que não cai porque os livros estão devidamente entalados entre a parede e a mesinha de cabeceira. Mas é difícil resistir a comprar quando temos a oportunidade de nalgumas centenas de metros quadrados encontrar praticamente todas as editoras, e, nalguns casos, os livros a preços de ocasião. 
        A sensação que foram muito menos livros do que queria resulta também do facto de alguns dos livros que comprei se destinarem a prendas.
        Neste lamento sobre os livros que não posso (ou não pude comprar) o Biblioteca-me lembrou-me o poema de Jorge de Sena, Ode aos livros que não posso comprar, de que roubei os primeiros e os últimos versos:
        Hoje, fiz uma lista de livros,
        e não tenho dinheiro para os poder comprar,
        (...)
        Por isso preciso de comprar alguns livros,
        uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,
        para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,
        folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
        e sair de casa, contando os tostões que me restam,
        a ver se chegam para o carro eléctrico,
        até outra porta.

       É por isso que ainda que se acumulem os livros que temos, lidos e não lidos, precisamos sempre de comprar alguns livros.

    Misery, Stephen King (Hodder and Stoughton)

        Creio que, pelo menos para os próximos anos, dou assim por encerrada a leitura de Stephen King. Não quero que me interpretem mal - é um escritor exímio! Os três livros que li - este, A Cúpula e Rose Madder -, li-os no original e volto a frisar que é uma leitura muito simples e acessível... Para quem goste do estilo. E no entanto, os três livros não poderiam ser mais distintos. Se o primeiro me encantou pela sua vertente de ficção científica como forma de expor a vulnerabilidades humanas e o segundo me falou pelo tema da violência doméstica, Misery versa sobre a doença mental no seu extremo. Está tão bem escrito, que todos os leitores se sentirão Paul Sheldon, receosos, assustados, drogados. Esse é, para mim, o melhor do autor: a forma de descrever as cenas é tão real que é mesmo como se fosse connosco - para o bem e para o mal.
        Paul Sheldon é um escritor que procura afastar de si a marca da sua coleção bestseller, os livros sobre Misery Chastain. Por isso, decide que a personagem deverá morrer no último livro da saga e, livro publicado, segue para novas aventuras, um novo romance com o qual pretende convencer os grandes senhores do meio daquilo que vale. Findo o novo manuscrito, decide celebrar e, depois de uns quantos copos, fazer-se à estrada. Não contava porém com a tempestade de neve que se abate sobre ele, levando-o a ter um acidente de carro e acordar, dias mais tarde, no quarto de hóspedes de Annie Wilkes, uma ex-enfermeira que se intitula como a sua «fã número um». Porque está ali e não num hospital é uma das primeiras perguntas que Paul se coloca. Porém, cedo se apercebe de que mais vale não fazer perguntas. Mais vale não fazer Annie Wilkes ficar zangada. O problema é que a sua fã número um é na verdade a maior fã de Misery Chastain; e se há coisa que a deixa furiosa, é saber que Misery morreu.

        «Annie Wilkes was the perfect audience, a woman who loved stories without having the slightest interest in the mechanics of making them. (...) She did not want to hear about his concordance and indices  because to her Misery and the characters surrounding her were perfectly real.»
         (Annie Wilkes constituía a audiência perfeita, uma mulher que adorava história sem ter o menor interesse quanto aos mecanismos para as criar. (...) Ela não queria saber acerca da sua concordância e índices porque para ela Misery e as personagens à sua volta eram perfeitamente reais.)

        Um livro que me fez, em alguns momentos, sentir o coração na boca e obrigar os meus olhos a não saltarem para a página ao lado para saber se cada cena ia acabar bem ou mal, que, com Paul, me fez sofrer por descobrir que fora(mos) descoberto(s) e que haveria castigo pela sua(nossa) ousadia. De tal forma, que, para já, preciso de doses de leitura bem mais leves.

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    quarta-feira, 12 de junho de 2019

    Harry Potter e a Ordem da Fénix, J. K. Rowling (Editorial Presença)

    Opinião de Harry Potter e a Ordem da Fénix, de J. K. Rowling, no blogue Clube de Leituras
        Sou daquele tipo de leitores chatos que não aceitam ouvir sequer uma linha à frente do que estiverem a ler, porque querem descobrir tudo o que se vai passar e saborear essa mesma descoberta. Porém, quebro essa regra a cada (re)leitura dos livros da saga Harry Potter. 
        Tendo decidido voltar a lê-la de fio a pavio este ano, confesso um grande prazer em revisitar este mundo mágico, como já terá ficado evidente nas minhas entradas sobre os livro um, dois, três e quatro. Para meu espanto, descubro mesmo um prazer renovado nestas leituras, pois já passaram quase dez anos desde que comecei a ler saga, e aquilo que me desperta a atenção hoje é diferente do que me encantava antes. Direi mesmo que, no caso de HP, é o saber a história já que me dá tanto gozo em lê-la, não só porque parece que estou a reencontrar amigos de há muitos anos, mas também porque consigo apreciar a criatividade e a coerência da autora. Como sei o que vai acontecer à frente, estou mais atentas às pistas que ela pode ter deixado antes - e são várias!
        No quinto ano de Harry em Hogwarts, o mundo está virado do avesso. Voldemort voltou, mas apenas Harry e os amigos, Dumbledore e os membros da reinstaurada Ordem da Fénix parecem acreditar nisso e procuram reunir forças para travar a ascensão do feiticeiro negro. E o Ministro da Magia faz tudo para desacreditar Harry e Dumbledore, convencido que tudo não passa de uma manobra do último para ficar com a sua posição. Se a vida de Harry não estivesse já suficientemente complicada com os colegas a deixarem de lhe falar ou a apontarem para ele nos corredores, enquanto sussurram, nada ajudam os pesadelos constantes e o constante mau humor que parece acompanhá-lo o tempo inteiro, sem que ele consiga controlá-lo. Mas será que é apenas isso? Ou, com o regresso de Voldemort, terá a ligação entre ambos estreitado?

        «Ocorreu-lhe, então, um pensamento verdadeiramente terrível, uma recordação que lhe aflorou à mente e lhe contorceu as entranhas como serpentes.
        De que anda ele atrás, para além de seguidores?
        Algo que só obterá furtivamente... como uma arma. Algo que não tinha da última vez.
        Sou eu essa arma, pensou Harry, e pareceu-lhe que um veneno lhe percorria as veias, gelando-o e fazendo-o suar (...)»

        Finalmente obtemos várias respostas às perguntas que nos assombram desde o dia 1: porque é que Voldemort tentou matar Harry quando ele era bebé? Porque é que não conseguiu?

        «O sacrifício da tua mãe fez dos laços de sangue a maior proteção que eu te poderia dar. (...) Enquanto o teu lar continuar a ser no sítio onde corre o sangue da tua mãe, o Voldemort não te poderá fazer mal. Ele derramou o sangue dela, mas este sobrevive em ti e na sua irmã. O sangue da tua mãe tornou-se o teu abrigo

        Mas trata-se apenas do levantar do véu. Voldemort não conseguirá esconder o seu regresso por muito mais tempo, e os feiticeiros terão de mostrar de que lado estão.

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    sábado, 1 de junho de 2019

    Berta Isla, Javier Marías (Alfaguara)

    Opinião do livro de Javier Marias, Berta Isla, da editora Alfaguara, no blogue Clube de Leituras
        Andava cheia de vontade de ler este livro, mesmo antes do Diogo mo oferecer. Mais uma vez ele acertou em cheio. Era a capa - lindíssima - e o resumo na contracapa que me atraíam:
        «Berta Isla é a história de uma mulher que espera e se transforma. A história de um amor imperfeito, como o são todos.»
        E se o início não desmereceu a expetativa, confesso que a meio do livro fui arrastando a leitura, até aos últimos capítulos que, de novo, me entusiasmaram, mas aqui mais pela história que pela escrita.
        É  uma versão dos tempos modernos do Coronel Chabert do Balzac, livro que, curiosamente, ele também refere em Os enamoramentos. Mas em Berta Isla, ao contrário de outras adaptações, a maior parte do livro é dedicado ao período que antecede o regresso, ou seja, ao período do afastamento, da dúvida, do desconhecimento do destino do outro.
        A sensação que tive é que a escrita é muito mais interessante quando o tom é intimista. Nos capítulos iniciais e finais e, muito especialmente, logo a abrir o livro:

         «Durante algum tempo não teve a certeza se o seu marido era seu marido, de maneira semelhante àquela quando estamos meio a dormir meio acordados e não sabemos se estamos a pensar ou a sonhar, se ainda somos senhores da nossa mente ou a perdemos por esgotamento.»

        Depois deste início, o livro viaja até ao passado, até à altura em que Berta Isla conheceu Tomás Nevinson que virá a ser seu marido. Mas é esta parte inicial que é mágica, em que os acompanhamos e conhecemos, no presente e no passado. Curiosamente o livro é quase todo narrado na terceira pessoa, por um narrador omnisciente, com execeção de alguns capítulos em que é a voz de Berta que ouvimos:
     
        «Durante algum tempo não tive a certeza se o meu marido era meu marido, ou talvez tivesse precisado de não o estar e fingi, portanto, não o estar.» (pg 481)

       O que me surpreendeu quando acabei de o ler foi a resignação com que os dois viveram as respetivas vidas, sendo que, ao contrário do que é dito, não há qualquer transformação. Apenas aceitação.
        A dada altura há uma reflexão sobre o narrador vs o autor que não hesitei em roubar:

        «Falo do narrador, atenção, não do autor, que está metido na sua casa e não responde por aquilo que o seu narrador refere; nem sequer pode explicar porque este sabe tanto quanto sabe. Dito por outras palavras, o narrador na terceira pessoa, omnisciente, é uma convenção que se aceita, e quem abre um romance não costuma perguntar-lhe porquê nem para que toma a palavra, e não a larga durante centenas de páginas, essa voz de homem invisível, essa voz autónoma e exterior que não vem de sítio nenhum.»

        De Javier Mariás li Os enamoramentos, de que já falei, e o belíssimo Coração tão branco.

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    terça-feira, 28 de maio de 2019

    Chico Buarque

    Imagem de Chico Buarque, vencedor do Prémio Camões 2019, no blogue Clube de Leituras
        Hoje não escrevo sobre um livro, mas sobre um músico e escritor: Chico Buarque, vencedor do Prémio Camões 2019.
         Chico Buarque foi escolhido por um júri indicado pela Biblioteca Nacional do Brasil, pelo Ministério da Cultura de Portugal e pela comunidade africana.
        Apesar de ser mais conhecido como músico, o Prémio Camões está longe de ser o primeiro prémio que recebe como escritor. Já tinha recebido o Jabuti,  em 2006 por Budapeste e em 2010 por Leite Derramado.
        Muito já foi dito sobre o prémio e o premiado mas não encontrei quem discordasse da sua atribuição. Chico Buarque faz parte das nossas vidas, de cá e de lá do Atlântico, e muito especialmente de quem fala, ouve e canta em português. Tive o enorme privilégio de o ouvir em 1980, na Festa do Avante, mas lembro-me dele desde sempre, a ouvir, ainda miúda,  A banda,e, depois do 25 de abril, o extraordinário Meu caro amigo.
         Se tivéssemos dúvidas sobre a atribuição do prémio, bastar-nos-ia lembrar de canções como Construção que acaba desta forma (para quem não se lembrar):

            «Amou daquela vez como se fosse máquina
            Beijou sua mulher como se fosse lógico
            Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
            Sentou para descansar como se fosse um pássaro
            E flutuou no ar como se fosse um príncipe
            E se acabou no chão feito um pacote bêbado
            Morreu na contramão atrapalhando o sábado.»

        Mas a música e letra mais fantásticas para mim são as do Geni e o zepelim, que começa assim:


    «De tudo o que é nego torto
    Do mangue e do cais do porto
    Ela já foi namorada
    O seu corpo é dos errantes
    Dos cegos, dos retirantes
    É de quem não tem mais nada
    Dá-se assim desde menina
    Na garagem, na cantina
    Atrás do tanque, no mato
    É a rainha dos detentos
    Das loucas, dos lazarentos
    Dos moleques do internato
    E também vai amiúde
    Co'os velhinhos sem saúde
    E as viúvas sem porvir
    Ela é um poço de bondade
    E é por isso que a cidade
    Vive sempre a repetir
    Joga pedra na Geni
    Joga pedra na Geni
    Ela é feita para apanhar
    Ela é boa de cuspir
    Ela dá para qualquer um
    Maldita Geni

        Wagner Homem, no livro sobre Chico Buarque, explica que esta música é baseada na da prostituta do conto Bola de Sebo de Guy de Maupassant.
         Isto sem falar nas canções de amor, que as sei quase todas, palavra por palavra, mas de que destaco Beatriz - nome da minha mãe - que é imperioso ouvir, com atenção à música e à letra (diz se é perigoso a gente ser feliz). O problema com Chico Buarque é parar.

    quinta-feira, 16 de maio de 2019

    Uma Abelha na Chuva, Carlos de Oliveira (Editorial Caminho)

    Carlos de Oliveira + "@ Clube de Leituras"
         Uma abelha na chuva é um livro marcante, pela história, pelas personagens, pelas paisagens, pelo suspense, até. É um romance clássico, em ambiente neorealista.
        E é também um retrato impiedoso de um país atrasado, rural, socialmente estratificado e puritano. A história acontece num curto período de tempo, cerca de três dias, e decorre na zona centro do país. Apesar das diversas personagens que povoam o livro, ocupam espaço central o casal Álvaro Rodrigues Silvestre e a mulher, D. Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho Silvestre, Jacinto, o cocheiro deles e Clara, filha do oleiro cego, o Mestre António.
        Desde o nascimento da filha, o oleiro  embalava o sonho de sair da pobreza pela mão dela, através do casamento, razão pela qual não aceita o relacionamento desta com o cocheiro. É Álvaro Silvestre quem os denuncia, despeitado pelo que ouvira o cocheiro contar da sua mulher e porque «o ânimo impiedoso irrompia da sombra para saltar sobre o ruivo, que encarnava, por uma necessidade premente de fixar a angústia, o bode expiatório, o inimigo, a própria angústia», desencadeando uma séria de ações e consequências que ele não antecipara.
        Não deixa de ser curioso que, começando o livro com a ida de Álvaro Silvestre ao escritório de Medeiros, diretor da Comarca, para publicamente se acusar dos roubos que tinha efetuado, instigado pela mulher, tenha acabado por praticar um ato muito mais infame do que aqueles de que se dizia arrependido.
        Ao longo do livro as abelhas são invocadas, a começar pelo Dr. Neto, que tinha o quintal cheio de cortiços e colmeias e considerava que o mel quase alcançava o teor da suma perfeição.    
        A propósito de Álvaro e da D. Maria dos Prazeres e amigos:

        «(...) vê-los desfigurados é vê-los verdadeiros; todos eles fabricam fel; abelhas cegas, obcecadas.»
     
        E a acabar Uma Abelha na Chuva:

        «Por hábito, lançou os olhos às colmeias, que lhe ficavam mesmo em frente, dez ou doze metros se tanto (...). A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voarem acabou por levá-la com as folhas mortas."

        Um livro que tem de resistir à passagem do tempo, de que se tem de falar e, sobretudo, garantir que se continua a ler.

    domingo, 12 de maio de 2019

    Harry Potter e o Cálice de Fogo, J. K. Rowling (Editorial Presença)

    Opinião do livro Harry Potter e o Cálice de Fogo, quarto livro da saga, por J. K. Rowling, no blogue Clube de Leituras
    Já ficou claro, creio, que sou fã da saga Harry Potter. Daquelas fãs que cresceram com os livros num momento agora equiparado ao fenómeno Guerra dos Tronos (que, não, não sigo, nem aprecio). Daquelas fãs que aguardavam ansiosamente a publicação do livro seguinte e que o tinham no correio na data de lançamento. E, sim, daquelas fã que, passados 20 anos, continua a gostar de reviver a história.
    E não deixa de ser curioso o prazer que continuo a retirar desta saga, agora que já sou adulta. Particularmente porque leio com outra atenção, com foco noutro tipo de detalhes. Em parte, também, porque já sei a história de fundo mas há pormenores que ficam esquecidos, sobretudo se vamos revisitando a história apenas por intermédio dos filmes.
    Ainda assim, tive de rever a minha classificação para este livro, no Goodreads. Lembrava-me que o início do livro, já quando o lera pela primeira vez, sei lá há já quanto tempo, não me cativara. Desta vez, a sensação prolongou-se até perto de 1/3 do final do livro - altura em que já não o consegui pousar mais e o devorei em poucos dias.
    Talvez por isso mesmo, porque o foco mudou, já não me senti tão envolvida naquele mundo adolescente de Hogwarts que, em particular neste volume está demasiado polvilhado de hormonas. O que eu queria era a evolução da história, a intriga, os enganos e os desenganos. E acabei por ter tudo isso, e o livro não desiludiu... depois das primeiras quase 300 páginas.
    No quarto ano de Harry, Hogwarts será palco do famoso Torneio dos Três Feiticeiro - um evento para unir diferentes comunidades mágicas, onde os concorrentes podem mostrar o seu valor. Mas muitas coisas estranhas começam a acontecer: Devoradores da Morte a espalhar terror na Taça Mundial de Quidditch, feiticeiros desaparecidos, mortes misteriosas de muggles, o nome do Harry a sair do Cálice de Fogo, obrigando-o a participar no Torneio sem sequer ter idade para isso, um novo professor de Defesa Contra as Artes Negras que inflige maldições imperdoáveis nos seus alunos... E o receio crescente do regresso do maior feiticeiro negro, que o Ministro da Magia se recusa aceitar.

    «Tu estás cego [...] pelo amor ao cargo que ocupas, Cornelius! Dás demasiada importância, e sempre deste, à chamada pureza de sangue! És incapaz de reconhecer que o importante não é aquilo com que uma pessoa nasce mas aquilo em que se torna! O teu Dementor acaba de destruir o último membro de uma família de sangue puro das mais antigas - e vê o que esse homem optou por fazer da sua vida! Ouve o que te digo - toma as medidas que te sugeri, e serás recordado [...] como um dos maiores e mais corajosos Ministros da Magia que já tivemos. Não actues - e as história recordar-te-á como o homem que se pôs de parte, e concedeu a Voldemort uma segunda oportunidade de destruir o mundo que nós tentámos reconstruir!»

    O livro que é o ponto de viragem na saga e partir do qual nada será como dantes.


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    sábado, 11 de maio de 2019

    O Gabinete de Charles Dickens em Deventer, Países Baixos

        Nas minhas primeiras férias deste ano fui passar uma semana aos Países Baixos, local que nunca tinha visitado e que me encantou, com todas as suas paisagens rurais, os canais espalhados por todo o lado, o verde sempre presente e as casinhas baixas e coerentes, por onde quer que passássemos.
        No primeiro dia, a visita foi a Deventer, uma cidadezinha que o N. descobriu por acaso enquanto explorava o que poderíamos fazer durante a viagem. Para quem não sabe - eu não sabia - é em Deventer que acontece, no primeiro domingo de agosto, a maior feira do livro europeia, além do Festival de Charles Dickens, em dezembro. Este festival foi iniciado em 1991 por Emmy Bow, leitora deliciada de Dickens, e foi a partir daí e de alguns livros e peças que tinha em sua posse que começou uma enorme coleção votada ao escritor que, atualmente, pode ser visitada no Charles Dickens Kabinet.
      Foi com curiosidade que incluí esta cidade e, particularmente, o Gabinete, no nosso itinerário - afinal, quem imaginaria encontrar tantas referências a Dickens nos Países Baixos? Aproveitei também o pretexto para, cerca de um mês antes da viagem iniciar a leitura de um livro de Charles Dickens, escritor que ainda não havia lido, apesar de estar familiarizada com grande parte dos seus romances. Para iniciar essa viagem, optei por Grandes Esperanças. E, conquanto o romance esteja maravilhosamente escrito, há qualquer coisa que não me faz querer perder-me na leitura. Lia umas páginas e depois chegava. Quis o meu subconsciente (será?) fazer-me esquecer o livro em casa de uma amiga, na semana passada e, assim, conseguir finalmente coragem para o abandonar. Tenho de confessar que subscrevo as palavras da minha mãe, na sua publicação de O Amigo Comum: «invoco o meu direito de não acabar um livro e vou parar de o ler. Admito que um dia volte a pegar nele, até porque reconheço a qualidade da escrita».
        Ainda assim, foi francamente divertido encontrar uma representação de Miss Havisham, neste cantinho dedidado a Dickens, em Deventer:

    Representação cénica da descrição do quarto e vestes de Miss Havisham, personagem
    do livro Grandes Esperanças, de Charles Dickens.
        A visita inicia-se no piso térreo, onde vemos vitrinas dedicadas a cada romance do escritor, com os próprios romances, peças de decoração, loiça e outros itens dedicados ao tema, além de inúmeras edições diferentes. A maior e mais impressionante de todas é a coleção de perto de 400 edições de Um Conto de Natal


    Vitrina dedicada a Um Conto de Natal, de Charles Dickens,
    contando com cerca de 400 edições diferentes do romance
        No piso superior são guardadas as vestes e acessórios que podem ser alugados para o Festival de Dickens, em Dezembro.
        A visita termina numa biblioteca onde podemos sentar-nos e folhear edições lindíssimas dos romances de Dickens - que não me impedi de aproveitar!

    Na biblioteca do CHarles Dickens Kabinet, Deventer, podemos
    sentar-nos a folhear diversas ediçóes das suas obras.

        É uma visita rápida, e falar com Emmy Bow é estranhamente fascinante, porque todo o seu semblante transparece adoração por aquela coleção. Para os amantes do escritor, aconselho vivamente a paragem.

    segunda-feira, 29 de abril de 2019

    Tanta Gente, Mariana - As palavras poupadas, Maria Judite Carvalho (Minotauro, GrupoAlmedina)

       
        Redescobri recentemente a Maria Judite de Carvalho através de uma edição, já com algum tempo, das suas crónicas, com o título Este Tempo, e soube entretanto que  a sua obra completa está a ser publicada pela Almedina, através da chancela Minotauro. Este é o primeiro volume dessa coleção e reúne 17 contos, entre os quais Tanta Gente, Mariana e As Palavras Poupadas.
        Gosto muito de ler contos, sobretudo quando à história se junta a qualidade da escrita, como acontece neste caso. Mas nestes contos há ainda a inocência da narração, desprovida de truques que encontramos em muito autores, destinados a manterem os leitores atentos, surpreendendo-os com voltas e reviravoltas a meio, ou fins inesperados.
        Os contos de Maria Judite Carvalho são pequenas histórias de vida ou episódios do quotidiano, com pessoas comuns. Não se destinam a surpreender o leitor. São apenas histórias que quase nos são sussurradas ao ouvido, mas que nos tocam profundamente. Comovem. Na sua maioria, vozes femininas. Mulheres sozinhas, abandonadas, tristes. Por vezes ridículas. Algumas violadas, agredidas, mas que também matam. Os homens que nos são dados a conhecer nalgumas destas histórias também sofrem e sonham com outra vida, com outra mulher, com o amor. Querem partir, fugir da vida que levam.

        Tanta Gente, Mariana é o único conto a ser contado na primeira pessoa, e é sobretudo sobre a solidão. Enquanto lia, roubava frases, mas só queria ter sido eu a escrevê-las:
     
       «Pensar na esperança, que coisa imbecil! Até dá vontade de rir. Na esperança... Sempre há gente... E ela metida como areia nas pregas e nas bainhas da alma. Passam anos, passam vidas, aí vem o último dia e a última hora e o último minuto e ela então aparece a tornar inesperado aquilo por que esperávamos, a fazer o que já era amargo ainda mais amargo. A tornar mais difíceis as coisas.»

       Acabo com o início de um conto A Sombra da Árvore:

        «Não seria capaz de saber, mesmo pensando longamente nisso, qual o dia em que o vento deixara esquecido dentro dele o minúsculo grão de pólen. Não dera também - estava convencido de que era assim mas não absolutamente certo - pelo início da germinação. Qualquer coisa, entretanto, se criara a pouco e pouco e lentamente deitara raízes invisíveis mas bem vivas, que haviam crescido e cada dia se tinham ido agarrando com mais força. Ele, no entanto, continuava sem ver a planta, ou talvez simplesmente sem a olhar. Só quando não houve mais nada em redor e ela ficou recortada no céu, grande como uma árvore, a escurecer tudo (ou a proteger tudo, quem sabe, a prometer a segurança da sua sombra), só nessa altura o velho Firmino a encarou de frente. Sem espanto nem medo. Mas com uma certa amargura. A amargura das pessoas a quem é permitido acolherem-se a um abrigo e o fazem porque não têm outra alternativa. Cá fora é o sol que queima ou o frio que gela.»

        Impossível resistir.

        Uma nota apenas para a belíssima imagem da capa, reprodução de um quadro da autora, bem como os desenhos de caras femininas no início de As Palavras Poupadas (Prémio Camilo Castelo Branco).

    ***

    terça-feira, 23 de abril de 2019

    Todos ou nenhum, João Menino Vargas (Edições Colibri / Associação 25 de Abril)

        Saiu hoje, dia 23 de abril, este livro, Todos ou Nenhum, e tenho muitas razões para falar dele:
        - porque foi o meu pai que o escreveu;
      - porque ele participou nesse momento fundamental da nossa vida coletiva que levou à libertação dos presos políticos de Caxias;
        - porque ele o dedicou à  minha mãe, Maria Beatriz;
       - porque ele o dedicou aos netos - entre os quais os meus filhos, pois foi pensando neles que decidiu escrever esta peça;
        - porque é fundamental recordar o que se passou e contá-lo às novas gerações, pois só desta forma podemos evitar que a história se repita;
       - porque, como nos é recordado na contracapa, o regime deposto pelo 25 de abril tinha quase 4 400 presos políticos, 78 dos quais em Caxias; e
       - porque Todos ou Nenhum não é apenas a história da decisão da libertação, mas também dos momentos que a antecedem e dos quais foram protagonistas os militares, os advogados, o povo que se juntou às portas da prisão e os presos que decidiram que sairiam "todos ou nenhum".
        Nos próximos dias 26, 27 e 28 de abril, no IFICT, será feita uma leitura encenada da peça. Mais informações, AQUI.