terça-feira, 17 de dezembro de 2019

A Spot of folly, Ruth Rendell

    Quando estamos assoberbados de trabalho não há nada melhor que ler um policial. Pelo menos para mim e especialmente quando a autora é Ruth Rendell. No caso não se trata de uma história apenas mas de 10 histórias e um quarto de homicídio e caos (Ten and a quarter new tales of murder and Mayhem).
    Como em todas as coletâneas, há contos melhores que outros. Uma referência particular ao primeiro conto que tem apenas quatro linhas e meia e funciona, isto é, é verdadeiramente uma história, até com efeito final de surpresa.
    O livro tem uma introdução interessante, de Sophie Hannah, em que nos fala da importância que os livros da Ruth Rendell tiveram durante os primeiros anos de faculdade. Conta também que numa apresentação que a autora fez falou da importância de agarrar o leitor desde a primeira linha. Como tenho a mania de ler a introdução depois de acabar de o livro respetivo, fui logo reler as primeiras linhas de cada conto, e é inegável que ela respeita esta regra:
Matei a Brenda Goring pelo que suponho seja o menos comum dos motivos ou Não vão acreditar nisto, mas na segunda-feira passada tentei matar a minha mulher ou 
A primeira vez que Polly roubou alguma coisa tinha oito anos de idade
    Não esgota a fórmula na primeira linha, bem pelo contrário, obrigando o leitor a prosseguir a leitura até ao desenlace.
    Nos seus contos utiliza personagens estranhas cujos comportamentos não antecipamos, nem compreendemos, nem sequer simpatizamos. Não estamos do lado dos bons ou dos maus porque não sabemos quem são uns e outros ou porque rapidamente um se pode transformar no outro.

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Elogio da palavra, Lamberto Maffei (edições 70)

Lamberto Maffei "@ Clube de Leituras"
    A leitura deste livro, Elogio da palavra, foi mais uma vez sugerido por uma amiga, que mo foi dando a conhecer à medida que ela própria o lia. Lamberto Maffei, o autor, é médico e cientista, ligado à neurociência e neurobiologia e, como é referido na introdução, sabe dirigir-se a leitores leigos na matéria.
    Com uma enorme simplicidade, sensibilidade e cultura, fala-nos sobre a palavra e a sua importância, mas simultaneamente interroga-se, interroga-nos, sobre as mudanças que assistimos com a introdução das novas tecnologias e como se irão repercutir na sociedade e também no nosso cérebro:
    "(...) Em particular, quero analisar e refletir sobre a atitude de fuga em relação à palavra e à conversação, que muitas estatísticas revelam ser maciça entre os jovens e não só. Questiono-me naturalmente sobre o que acontecerá quando os jovens utilizadores de smartphones forem progenitores e deixar de haver o buffer, a modulação mitigada das gerações. Que modificações poderão vir a ocorrer nos centros da linguagem falada do hemisfério esquerdo do cérebro?"
    Começa por falar-nos na palavra como tradutora do pensamento e depois das línguas e o que elas representam. Segundo o autor, as línguas não são apenas um meio de comunicação, representam uma riqueza de tradições e de história. "(...) A evolução demorou milénios a modificar o cérebro para dar a palavra ao homem. Este, depois, inventou a escrita para que as palavras tivessem significados permanentes e fossem prótese da memória e , mais recentemente, inventou o texting (...)"
    Propõe por isso a escola da palavra para os jovens, mas também como terapia da demência, como forma de abrandar o declínio cognitivo.
    Não resisto a roubar o final:
    "(...) As palavras são a minha memória, a minha narrativa: sou feito de palavras, porventura silenciosas; o pouco que sei são palavras, cadeias de acontecimentos que regressam na sua sequência não apenas gramatical e sintática, mas na lógica racional ou irracional da recordação, e me refazem o mundo e me narram de novo. De resto, o milagre da evolução gerou as palavras para que o homem possa narrar, para que na sucessão das gerações não se perca o património das experiências vividas. Que seria do homem sem as palavras?"
   

domingo, 1 de dezembro de 2019

Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio (Publicações Dom Quixote)

    Uma amiga emprestou-me este livro que eu queria ler há algum tempo, dizendo-me que era um livro extraordinário. Não foi a única a dizer-mo. Mau Tempo no Canal integra a lista dos 12 melhores livros portugueses dos últimos 100 anos, selecionados por um júri convidado pela Estante. Um clássico, portanto, como refere Italo Calvino deveria dizer que estava a relê-lo e não a lê-lo. Mas, na realidade, só agora o li. E mais, confesso que não foi um livro fácil de ler.
    À superfície é um livro sobre os Açores ou mais precisamente sobre as designadas ilhas do triângulo, Faial, Pico e São Jorge e sobre a vida dos seus habitantes no pós I Guerra Mundial. Uma sociedade profundamente estratificada e fechada, isolada do mundo e distante não só do continente como das outras ilhas, mesmo as mais próximas. A existência de doentes com peste sem qualquer auxílio médico é quase inimaginável. Contudo, a questão da situação da mulher parece-me ser o ponto central deste romance, personificada na Margarida, mas também na sua mãe e nas outras mulheres que, embora secundariamente, aparecem e têm vidas completamente apagadas, isoladas até, determinadas pelos pais primeiro e pelos maridos depois.
    Margarida, Clark pelo lado da mãe, e Dulmo  pelo lado do pai, apesar de pertencer a uma família com ascendência aristocrática, vive uma situação económica difícil, causada pelo pai e que este espera resolver casando bem a filha. Margarida depois de viver a ilusão de uma paixão, sonha com a possibilidade de ir viver para Londres e trabalhar como enfermeira, mas termina por se resignar ao destino traçado e desejado pela família:
    "(...) Numa terra em que tudo são heranças e negócios, o que vale uma rapariga? são os vestidos, é o baile, é o dia de anos, um arraial a que se vai... (...) Eu sou uma espécie de prédio que por acaso ficou livre. (...) O tio sabe o que é  «ficar desamparada»? Porque eu queria entender estas coisas, meu Deus! Que fizessem de mim o que quisessem, mas que me deixassem! que me deixassem!..." (pg.188)
     Mau Tempo no Canal é isto e é muito mais, é uma história de amor às ilhas e às suas gentes, à coragem e generosidade dos baleeiros, às diferentes características e pronúncias de cada uma destas ilhas ("Antão a gente há-de deixar perder ua riqueza daquelas?...Há meses qu'o meu nã tranca ua baleia! Não há peixe de caldo...Se nã fôssim as lanchas da lenha e o lambique do figo, timos passado fôme!"). 
    Curiosamente, as personagens não são praticamente descritas, com exceção de Cândia Furoa que aparece fugazmente e contudo é cuidadosamente descrita (pg.409). Depois do índice existe uma tábua de personagens, com indicação dos laços familiares  e os lugares de ação. Se Vitorino Nemésio optou por quase não descrever as personagens, já quanto às ilhas é pródigo e generoso nas descrições que faz.
    Impossível resistir a repetir algumas palavras e imagens:
    "(...) a menina não, que é um mar de alegria!, mas a minha Clara e lá as suas primas da Horta são todas tão triste...a modos emonadas!" (pg. 376)
    "(...) Os seus últimos meses traziam-na desarvorada, como se fosse uma coisa de desmontar e lhe ficasse por fim só a peça central à procura das outras espalhadas." (pg. 148)


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terça-feira, 26 de novembro de 2019

Hiroshima mon amour, Marguerite Duras (Folio)

    Em agosto de 1945 os EUA lançaram uma bomba atómica em Hiroshima e poucos dias depois em Nagasaki. Calcula-se que morreram entre 150 a 240 mil pessoas, metade das quais logo nos primeiros dias. Nos  meses seguintes, as pessoas morreram queimadas ou devido à radiação. 
    Em 1959, Alain Resnais dirigiu o filme Hiroshima mon amour, com guião de Marguerite Duras, numa produção franco-japonesa. Li o livro e vi o filme há muitos anos. Reli-o agora antes de ir ver a interpretação de Fanny Ardant de Riva (elle), a personagem feminina de Hiroshima mon amour. Sozinha no palco, escuro, sóbrio - uma cadeira apenas - em diálogo com uma personagem masculina, de que se ouve somente a voz..
    É surpreendente descobrir o que a memória guarda e perceber no início de algumas frases que as sabíamos de cor - Tu n'as rien vu à Hiroshima. Rien.
    A historia decorre em 1957. Uma mulher francesa vai a Hiroshima, por uns dias, participar num filme sobre a paz e conhece um japonês por quem se apaixona. São ambos casados e em nenhum momento colocam em causa os respetivos casamentos. Durante a II Guerra Mundial, ela, que vivia em Nevers, apaixonou-se por um oficial alemão que é morto antes da libertação de França. Por causa dessa paixão interdita, os cabelos dela são rapados e os pais escondem-na na cave de onde sairá algum tempo depois para ir para Paris.
    Se a paixão vivida em Hiroshima é de alguma forma o contraponto ou a conclusão da vivida na sua juventude, é, por outro lado, o pretexto para o diálogo entre os dois amantes sobre a impossibilidade de alguém que não vivenciou uma experiência tão dramática como a que foi vivida em Hiroshima saber de facto o que se passou. Pensar que visitar os museus ou os hospitais ou  ver as imagens é ver tudo, é permanentemente desmentido por ele. Ele, de que pouco sabemos, nem sequer se lá estava então, limita-se a contrariá-la sempre que ela afirma que viu tudo em Hiroshima. Que sabe tudo. Mesmo quando ela diz que conhece o esquecimento:
     "(...) Como tu, sou dotada de memória. Eu conheço o esquecimento."
    Ele nada diz, ao contrário dela que fala do que viu em Hiroshima e do que viveu em Nevers. 

    No diálogo, quase monólogo, há momentos lindíssimos:
     "(...) Desejo não ter mais pátria. Aos meus filhos ensinarei  a maldade e a indiferença, a inteligência e o amor da pátria dos outros até à morte." (Je désire ne plus avoir de patrie. A mes enfants j'enseignerai la mechanceté et l'indifférence, l'intelligence et l'amour de la patrie des autres jusqu'à la mort).
    No final, ela diz-lhe que o nome dele é Hiroshima e ele confirma e diz que o dela é Nevers - Ne-vers-en-Fran-ce. Cada um deles traz consigo o horror da guerra que viveu.
    Um texto belíssimo, importante e sempre atual.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

José Mário Branco | Natália Correia

A propósito da morte hoje de José Mário Branco e quando tudo já foi dito, aqui fica, em forma de homenagem, o poema de Natália Correia, Queixa das almas jovens censuradas, que ele musicou. Mais que ler, um convite para ouvi-lo a cantar:

 

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.

sábado, 9 de novembro de 2019

A Ilha de Sukkwan, David Vann (Edições Ahab)

   
David Vann "@ Clube de Leituras"
    Confesso que a leitura deste livro foi um murro no estômago. Um livro doloroso, mas vertiginoso, de tal forma que dificilmente conseguia parar de ler. No início receei que a história evoluísse tranquilamente, entre pai e filho, ambos a (re)conhecerem-se e a amadurecerem na vivência solitária e assustadora da ilha de Sukkwan, perto do Alasca. Talvez por isso, tenha sido absolutamente inesperada e surpreendente a sucessão de acontecimentos, apesar dos sinais que, como muitas vezes acontece, só temos capacidade de ler depois.
   Tenho dificuldade em explicar a razão pela qual, em determinados momentos, me recordava da obra O Deus das Moscas, de William Golding. Talvez porque n'A Ilha de Sukkwan também estavam afastados de qualquer civilização e, apesar de haver um adulto e uma criança, o primeiro não tinha a autoridade e os conhecimentos esperados, nem sequer estava preparado para enfrentar os problemas que iam surgindo:
    "(...) Roy sentiu que se estabelecia uma espécie de pé de igualdade. Nenhum deles sabia o que fazer e ambos tinham de o aprender."
    O livro inicia-se com a chegada de Roy e do pai à ilha para ali passarem o inverno. Embora o pai pareça entusiasmado durante o dia, passa as noites a gemer e a chorar. Faz confidências ao filho que este não está preparado nem deseja saber e vai evidenciando sinais crescentes de desequilíbrio, levando o filho a decidir permanecer porque percebe que o pai precisa dele:
    "(...) Roy estava sempre de olho no pai e não se apercebia de nenhuma fissura na carapaça do seu desespero."
    Uma inversão dos papeis numa idade em que o filho, uma criança ainda, não está preparado.

    Uma personagem praticamente ausente mas determinante é a mãe de Roy. Apesar de discordar do pai lembrando-o que as suas previsões raramente se tinham verificado, permitiu que o filho o acompanhasse para passar um ano na ilha de Sukkwan, deixando a decisão nas mãos do filho. Aliás, Roy, a dada altura, responsabiliza a mãe por o ter deixado ir. Apenas a irmã Tracy pede para ele não ir.
    O livro está dividido em duas partes e na primeira o narrador acompanha Roy, como se o seguisse  e, em simultâneo, fosse registando e narrando o que ele faz, pensa e sente. Na segunda acompanha o pai.
    Precisei de deixar passar algum tempo para refletir sobre a história que me parece ser sobre a loucura e os efeitos destruidores que pode ter, no próprio e nos que lhe estão próximos. A loucura subtil, não óbvia, que permite que uma pessoa aparente normalidade e capacidade de gerir a sua vida.  
    Parece-me que o cenário é quase irrelevante para o efeito. Fundamental era apenas o isolamento em que se encontravam os dois. Isolamento quase total, só quebrado pelo avião que ali amarava de tempos a tempos ou através do rádio amador, quando funcionava. E nesse isolamento tudo pode acontecer e demorar tempo a ser descoberto.

    Em 2011, quando A Ilha de Sukkwan foi lançado entre nós, David Vann deu uma interessante entrevista ao ipsilon onde fala nas razões que o levaram a escrever este livro e no tempo que levou a escrevê-lo e a publicá-lo.

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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Língua mátria, contos inéditos de autores de língua portuguesa (The book company)

   Entre os dias 21 e 29 de setembro realizou-se no Templo da Poesia o festival  Língua Mátria que contou diversas atividades, incluindo sessões com vários autores portugueses e exposições. No âmbito do festival foi editado este pequeno livro de contos que decidi comprar porque é uma maneira de conhecer os diversos autores de língua portuguesa que nele participaram:
- David Capelenguela e Ngonguita Diogo, Angola; João Tordo, Teolinda Gersão e Patrícia Reis, Portugal; Luís Cardoso, Timor-Leste; Luís Carlos Patraquim, Mia Couto, Moçambique; Milton Hatoum, Brasil; Olinda Beja, São Tomé e Príncipe; Vera Duarte, Cabo Verde; e Waldir Araújo, Guiné-Bissaau.
    Como em todas as colectâneas de diversos autores, os contos são muito distintos. Primeira surpresa, apesar de na contracapa se referir que Língua Mátria espelhar vários lugares e imaginários da lusofonia, o conto de João Tordo passa-se no Uruguai e o da Teolinda Gersão num lugar não identificado, mas remetendo-nos para um país nórdico. Isto não retira qualidade a qualquer dos contos, mas não deixa de surpreender. Parecendo ir de encontro ao proposto, os contos de Luís Cardoso e Vera Duarte decorrem entre dois países de língua portuguesa, numa continuidade conferida pela língua e pela história. A segunda surpresa tem a ver com a qualidade de alguns contos de autores de que nunca tinha ouvido falar, como Waldir Araújo, de que há apenas um livro publicado entre nós (Admirável Diamante Bruto e outros Contos, já de 2008), Patrícia Reis, Olinda Beja, Milton Hatoum ou Luís Carlos Patraquim.
    E depois há o prazer de saborear pequenos contos, com histórias muito diversas, evidenciando que apesar da língua e parte de história partilhadas, a experiência e o património de cada um - de cada país - são completamente distintos e a soma de todos, aqui evidente, é de uma enorme riqueza.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Romeu e Julieta, William Shakespeare (Planeta Agostini)

Estátua de William Shakespeare, no
túmulo de Julieta, Verona
(o livro era meu - não resisti!)
    Este verão fui conhecer Verona. Era um sonho de há muito e adorei cada momento e cada paisagem. É uma cidade linda, muito romântica, e que vale mesmo a pena conhecer.
   E porque viajo sempre acompanhada de livros, não pude deixar de levar comigo aquela que é a mais conhecida obra de William Shakespeare - Romeu e Julieta. Afinal, não é maravilhoso ler um livro estando no cenário em que a história decorre? Posso dizer que sim, é!
    Este é um livro que já tinha lido e que, ainda agora, ao reler, digo que adoro - não tanto pela história em si, mas pela escrita linda. Acredito que a ótima tradução ajude. 
    A trágica história de amor entre Julieta Capuleto e Romeu Montequio é sobejamente conhecida; poucos, porém terão lido a obra teatral que a universalizou. Menos ainda saberão que a obra não foi criada por Shakespeare, mas sim que o escritor e dramaturgo fez a sua própria adaptação de uma história já contada há muito tempo, cuja origem pode remontar a Itália ou a França - quanto a isto, existem diferentes versões.
    Terão Romeu e Julieta realmente existido? Crê-se que não; porém, acredita-se que a Casa de Julieta, hoje uma das maiores atrações de Verona, foi de facto a casa da família Capuleto, uma família abastada e ligada à farmácia. Ao contrário da Casa de Julieta, aberta ao público, a casa dita de Romeu é propriedade privada, e está discretamente assinalada. Também essa casa se pensa ter pertencido à família Montequio, que se sabe ter existido, e que estaria relacionada com a que veio a ser a mais influente família de Verona: os Scaligeri.
    Verdade ou ficção, o que importa é que a história acrescenta encanto a uma cidade já de si encantadora e cheia de história. E se pensam que não precisam de ler porque «toda a gente conhece a história», acreditem que estão a perder muito!
    
Homenagem a William Shakespeare, Verona.
Pode ler-se «Shakespeare e a sua musa» abaixo da figura central;
à direita, uma representação de Romeu e Julieta.
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domingo, 27 de outubro de 2019

Os Reinos do Norte, Philip Pullman (Presença)

    Já passaram uns bons anos desde que o meu irmão me estendeu este livro e me disse «Lê. Vais gostar.». E apesar de ele nunca ter lido nenhum dos livros que eu lhe apresentei com a mesma frase, a verdade é que gostei - deste e dos dois que se lhe seguiram.
    Há uns anos, foi feita uma adaptação para o cinema que deixou muitíssimo a desejar (tanto que os outros dois livros da trilogia não chegaram a ser adaptados); agora, foi anunciada uma série, pela mão da HBO e da BBC. Decidi que estava na altura de reler - e, pelo caminho, batizei a minha gata com uma versão «aportuguesada» do nome da protagonista: Lira.
    
    Na trilogia, Lyra Belacqua é uma jovem de 12 anos que vive num colégio de eruditos, que a acolheram aquando da morte dos pais. 

    «Ela era uma pequena selvagem, a maior parte do tempo. Mas sempre tivera uma intuição obscura de que isto não constituía a totalidade do seu mundo; que uma parte da sua vida também pertencia à grandiosidade e ao ritual do Colégio Jordan e que, algures na sua existência, havia uma ligação com o alto mundo da política, representado por Lorde Asriel.»

    O seu parente mais próximo, Lorde Asriel, visita-a de quando em vez, e, dado o seu poder e conhecimento, as suas visitas não sempre bem vindas. É precisamente com uma dessas visitas que o livro começa: Lyra está com o seu génio, Pantalaimon, a vasculhar a sala do Mestre - sem autorização. Ao ouvir vozes, esconde-se e acaba por descobrir que o Mestre pretende envenenar o tio. Sem saber, acabou de se enredar num jogo de forças e questões teológicas fora da sua compreensão, mas no qual jogará como peça decisiva.

    «Lyra tem um papel a desempenhar nisto e é um papel fundamental. A ironia é que ela tem de cumprir a sua missão sem perceber sem perceber o que está a fazer. (...) Gostava de poder poupar-lhe uma viagem ao Norte. Acima de tudo, desejava ser capaz de lhe explicar isto

    Será verdade que outros mundos se escondem para lá da Aurora Boreal?
    Afinal, o que é o pó?
    E porque não param de desaparecer crianças?

    Deixamos aqui o trailer da série que começa na próxima semana, no HBO:


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domingo, 20 de outubro de 2019

A Gorda, Isabela Figueiredo (Caminho)

   
     Quando comecei a ler este livro, A Gorda, tive a sensação que temos quando abrimos uma revista já com alguns anos, ou um álbum de fotografias de um amigo e descobrimos imagens que reconhecemos de quando éramos crianças ou jovens. A identificação que nos leva a dizer que tivemos uma camisola exatamente igual à da imagem ou um corte de cabelo parecido. Ou que também estivemos ali, naquele lugar que é agora o cenário de uma fotografia amarelecida. E essa identificação é parte do interesse que a leitura desta história suscita, reforçado ainda pela indicação dos lugares, das terras em que Maria Luísa, a protagonista, vive, estuda e, mais tarde, trabalha ou passa férias, o que me parece cada vez menos comum nos livros publicados entre nós.
    Também me pareceu curiosa a estrutura, baseada nas divisões da casa (Porta de entrada, Quarto de solteira, Sala de estar, Quarto dos papás, Cozinha, Sala de jantar, Casa de banho e Hall) e nas quais viajamos entre o passado e o presente. Estas viagens temporais são feitas sem regras, parecendo quase caprichosa a forma como Maria Luísa vai tecendo a sua própria história.
    Somado a este ziguezague, há  o desassombro com que fala dela própria e sobretudo dos seus sentimentos, quer quanto ao David, quer quanto aos seus pais. No caso dos pais expõe a ambiguidade que sente (sentimos) perante a velhice, a doença e a proximidade da morte:
    "(...) A mamã é um peso e um alivio. Quero que viva para sempre. Quero que morra e me deixe viver. Pelo menos que desapareça, desocupe o espaço que ocupa na minha vida, não me chantageie, exigindo de mim o que não retribui. O que penso que não retribui." (pg. 177) 
    É impossível não vermos Maria Luísa  como alter ego da autora, Isabela Figueiredo, aliás, ela utiliza elementos biográficos seus, tornando assim óbvia a sobreposição entre ambas, e por isso não pude deixar de me surpreender pela exposição crua a que se submete, exposição sobretudo física, descrevendo-se desde a puberdade até à idade adulta, passando pelo seu desejo - e tentativas - de ser mãe e pela gastreoctomia, em que o facto de ser gorda a qualifica e praticamente a define e determina o relacionamento que tem com os outros.
    Para além da identificação - e consequente prazer - que senti ao longo da leitura e reconhecendo o inegável interesse desta novela como um retrato do nosso país, entre os anos 70 do século passado e a primeira década deste, há na parte final, um esgotamento da fórmula. Sabemos já o que se passou com os pais de Maria Luísa, com ele própria e com a sua grande paixão e continuar no enredo em circulo gera algum cansaço ou desinteresse.

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sábado, 12 de outubro de 2019

Luanda, Lisboa, Paraíso, Djaimilia Pereira de Almeida (Companhia das Letras)

  Custa-me sempre recuperar de um bom livro. De um mau livro ou pelo menos de um de que não goste, recupero facilmente. Nalguns casos abandono-o a meio, mas mesmo que chegue ao fim, quando viro a última página, já o começo a esquecer e só desejo começar um novo. Mas quando chego ao fim de um livro de que gostei, sou tentada por vezes a reler algumas partes e demoro, indecisa, a encontrar nova leitura, como se aquele outro não me abandonasse imediatamente. 
   É o que está a acontecer com este Luanda, Lisboa, Paraíso. Comprei-o recentemente no Festival Literário Língua Mátria e logo que folheei as primeiras páginas apaixonei-me pela escrita. Poesia disfarçada de prosa:
      "(...) Seria mentira dizer que as últimas vezes são os nossos anjos-da-guarda." (pg. 29)
    "(...) As suas mãos haviam-se feito brancas e assim seriam quando morresse. A obra e não o nascimento tinham-no tornado da cor do pai, que nunca mais tinha visto. A vida fizera dele um albino do destino, tingindo-o com uma demão de ironia. (pg. 99)"
    Luanda, Lisboa, Paraíso conta a história de Aquiles, que nasceu com o calcanhar malformado, e com 15 anos viaja para Lisboa, com o pai, Cartola, enfermeiro, para ser operado ao calcanhar. Em Luanda, em plena guerra civil, ficam a mãe, Glória, acamada desde o nascimento do filho, a irmã e a filha dela e duas primas. Mesmo depois de sair do hospital, os dois, pai e filho, vão permanecendo em Lisboa que descobrem inóspita e distante das imagens que dela formavam:
    "(...) Assim que pai e filho perderam a ilusão de que Lisboa os aguardava e de que ali podiam contar com alguém ou esperar alguma coisa do futuro, a cidade tornou-se uma barulheira."
    É um livro sobre a esperança e como ela é determinante na nossa vida. Existindo esperança, as pessoas acreditam no futuro, sonham, reconstroem a casa depois de ter ardido, escrevem cartas, fazem promessas nas quais acreditam. Mas quando a esperança desaparece, tudo o resto cai como um castelo de cartas. Como se a esperança fosse a cola que mantém tudo o mais unido. Ou podia substituir a esperança pela amizade e escrever exatamente o mesmo. Mas talvez fosse a amizade que lhes permitia a esperança. No final Cartola atira a cartola ao Tejo, anunciando provavelmente a partida como o pai dele fizera muitos anos antes - e abdicando ambos do objeto que lhes deu o nome.
    
   

    A acabar, não posso deixar de referir um parágrafo cuja leitura me surpreendeu. Aquiles vai a uma feira com a irmã e a sobrinha, que vêm a Lisboa passar o Verão e sentam-se a comer junto de uma estrada. Eles observam as pessoa que passam nos carros e que tiram macacos do nariz (confesso que também me divirto a observar quem o faz) ou a pintar os lábios no espelho antes do semáforo abrir e conclui assim:
    "(...) Mas não se saberia dizer quem observava, pois os outros, ao passarem de raspão, também os viam e eram aos olhos deles três pobres diabos sem destino, uma família de chimpanzés vestidos de gente."
    Nunca me ocorreria esta comparação e confesso que, apesar de desdenhar da crescente imposição do politicamente correto, me chocou até. Como seria entendida ou lida esta afirmação por parte de uma escritora branca? Ou será que escreveria o mesmo se se tratasse de 3 jovens brancos? Mas provavelmente não me será fácil entender e muito menos julgar.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

The Madonnas of Leninegrad, Debra Dean

  
     Uma amiga perguntou à guia que a acompanhou na visita que fez ao Hermitage, em São Petersburgo, se lhe indicava um livro sobre a cidade e, especialmente, sobre o cerco de Leninegrado. É uma realidade de que pouco ouvimos falar, embora esteja ainda muito presente, mesmo nas gerações mais jovens que lá vivem. Anos terríveis de provação, mas simultaneamente de um enorme apego à vida e à preservação da memória. 
    Só isso explica que centenas de pessoas se tenham dedicado a retirar e a guardar as obras de arte, no Hermitage e noutros museus e palácios. É referido no livro que as guias no Hermitage decoravam as obras de arte e as respetivas localizações e, apesar das molduras vazias que permaneciam nas paredes, faziam visitas guiadas tão completas que sensibilizavam os visitantes. É também durante o cerco que Shostakovich compõe a Sinfonia n.º 7, também conhecida como a Sinfonia de Leninegrado, estreada em agosto de 1942. A sinfonia foi executada pelos músicos sobreviventes da Orquestra da Rádio de Leninegrado a quem era dada uma ração extra para conseguirem tocar. A sinfonia foi transmitida através de altifalantes pelas ruas de Leninegrado e ouvida também pelo exército alemão que cercava a cidade.
    Foi este o livro sugerido pela guia, The Madonnas of Leninegrad. Não foi traduzido para português apesar de ter uma crítica muito positiva. Curiosamente, é o primeiro livro de uma escritora americana que antes de o escrever nunca tinha visitado São Petersburgo.
    A ação decorre em duas épocas, que se vão alternando. Marina é a personagem central. Durante a Segunda Guerra, vive com os tios, nas caves do Museu Hermitage. Durante o dia retira e embala as telas ou vigia no telhado os bombardeamentos dos aviões alemães. O seu noivo está na frente e pouco sabe dele. Acompanhada de uma guia mais velha percorre as salas agora vazias do Hermitage, para decorar o que lá estava ou mesmo acompanhar uma visita de estudo. Na atualidade, Marina vive nos EUA e vai com o marido, aquele de quem se encontrava noiva durante a guerra, ao casamento da neta. Torna-se evidente para a família que ela padece de alguma forma de demência, confundindo presente e passado e deixando de reconhecer as pessoas mesmo as mais próximas.
    A ideia é fantástica, mas penso que na concretização há como uma pressa ou uma incapacidade de se deter nalguns momentos que me pareciam fundamentais. A precipitação da demência acelera o fim da história ficando pelo meio muitas pontas soltas, muitas histórias por contar ou pelo menos por acabar.
  

sábado, 28 de setembro de 2019

Escombros, Elena Ferrante (Relógio D' Água)

  
    Antes de escrever sobre este livro, Escombros (gosto do título, da sua sonoridade), tenho que confessar que me irritou imenso o fenómeno Elena Ferrante. De repente toda a gente falava nela, sobretudo após a edição da tetralogia d' A Amiga Genial, e eu justificava o meu desinteresse na sua leitura recorrendo a uma citação do Somerset Maugham:
    "Sei por experiência própria que quando um livro causa sensação convém esperar um ano antes de tomar conhecimento dele. É surpreendente a quantidade de livros que, ao cabo, nos dispensamos de ler."
    Irritava-me particularmente a discussão sobre a identidade da autora (será de facto uma autora?) e considerava a decisão dela  de não aparecer, nem se identificar, para além da indicação do nome, como uma forma de promoção, que,  paradoxalmente com o que é a prática atual, funcionava.
    Revi a minha posição quer quanto aos livros dela que já li, A Amiga Genial, História do Novo Nome, História de quem vai e de quem fica e História da menina perdida, quer quanto à opção de não aparecer.
    A leitura dos quatro volumes é viciante. Acabava de ler um volume e iniciava imediatamente o seguinte, como se fossem um só, mas o tempo dirá se esta obra perdurará. É um fresco fantástico da Itália, durante a segunda metade do século XX, com inegáveis semelhanças com Portugal. Não me identifiquei com as protagonistas, nem a sua relação me pareceu credível. Mas senti que as personagens funcionavam ao contrário do que é habitual, elas eram apenas o pretexto para contar a história daqueles tempos.
    Quanto à opção de não aparecer, com a leitura deste livro, Escombros, mais do que a compreender, aceito e respeito. Considero até exemplar a perspetiva, quando a notoriedade/qualidade de um livro passa cada vez mais  pela visibilidade do seu autor/a. Por isso, em vez de falar deste livro, que reúne um conjunto de entrevistas e cartas da autora, quase todas anteriores à publicação d'A Amiga Genial, vou apenas citar excertos, frases que roubei:
    "Eu acredito que os livros não precisam dos seus autores para nada, depois de escritos. Se tiverem alguma coisa para contar, mais cedo ou mais tarde encontrarão leitores; se não, não." (pg. 12)
     "Quero perguntar-lhe o seguinte: um livro de um ponto e vista mediático, é antes de mais o nome de quem o escreve? (...) Não constitui notícia, para as páginas culturais, o facto de ter sido publicado um bom livro? O que constitui notícia é que um nome capaz de dizer alguma coisa às redações tenha assinado um livro qualquer?" (pg. 41)
    "(...) escrever sabendo que não temos de aparecer gera um espaço de liberdade criativa absoluta." (pg. 56)
    E a finalizar,
    "(...) Os romances nunca deviam ter instruções de utilização, sobretudo redigidas por quem os escreveu." (pg. 335)
   

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

LÍNGUA MÁTRIA - Festival Literário e Feira do Livro de Oeiras


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 A propósito do Festival Literário de Oeiras, Língua Mátria, recordamos alguns dos livros de autores que teremos oportunidade de ver e ouvir nos dias 28 e 29 de setembro:


Pepetela
Crónicas maldispostas, conjunto de crónicas do autor publicadas na revista mensal angolana África 21, entre 2007 e 2015;
Lueji, que cruza as histórias de Lueji, rainha da Lunda, e de Lu, uma bailarina conceituada e aparentemente tetraneta de Lueji;

Luís Cardoso
O ano em que Pigafetta completou a circum-navegação, um relato da luta dos timorenses pela sua independência e uma homenagem às mulheres e aos homens que de diferentes formas contribuíram para este desfecho;
Para onde vão os gatos quando morrem? O livro está dividido por dias e vai, de forma sequencial, até ao vigésimo dia. Como refere Frei Bento Domingues no Prefácio, este «romance é escrito como uma parábola bíblica. Acompanha-o A Criação do Mundo, de Miguel Torga, outra parábola bíblica quase laicizada». 

Germano Almeida
O fiel defunto, um escritor morre. Depois da morte dele, acompanhamos a forma como as pessoas lidam com o acontecimento.
(...) eu mesmo pensava, mas como é possível que uma pessoa como ele, que produziu páginas tão belas, tão extasiantes, páginas que encantaram não apenas nós, os seus patrícios, mas mesmo o mundo lá fora, possa de repente começar a cheirar tão mal?
 

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Jardins de Canela, Shyam Selvadurai (Bizâncio)

Shyam Selvadurai "@ Clube de Leituras"
    Há livros que apesar de lidos, queremos guardar. Podemos nunca mais pegar neles, mas gostamos de os saber ao nosso alcance. Que temos a possibilidade de os voltar a ler quando quisermos. 
    Foi o que aconteceu com este livro que consegui adquirir na editora, a preço de feira porque era o último exemplar e já tinha sido manuseado, depois de o ter procurado em vão em livrarias e alfarrabistas. Justamente porque me foi pedido que o procurasse por quem já o tinha lido mas queria guardar. Não vai por isso ficar comigo, mas antes de o entregar tive oportunidade de o ler e me apaixonar por ele também.
   O autor, Shyam Selvadurai, canadiano, nasceu no Ceilão, atual Sri Lanka, filho de uma mãe de origem cingalesa e de um pai de origem tâmul. Bastou ler estas indicações na badana para me consciencializar do pouco que sei da história deste país que se tornou independente em 1948, tendo sido colonizado por vários países europeus, incluindo Portugal e, até à independência, pelo Reino Unido. Depois de se tornar independente, o país é dilacerado durante vários anos por uma violenta guerra civil entre cingaleses e tâmiles (ou tâmules).
    O romance situa-se em 1928, justamente quando representantes do Reino Unido  (Comissão Constitucional Donoughmore) visitam Ceilão com o objetivo de concederem maior autodeterminação na nova constituição, gerando divisões e agravando as dissensões entre as duas etnias. As elites receiam a perda de poder que poderá representar a universalização do direito de voto ou mesmo o seu alargamento. Simultaneamente emergem movimentos de mulheres pelo direito ao voto (União para o Sufrágio Feminino) e sindicatos (União Trabalhista).
    Os protagonistas são Annalukshmi e o seu tio Balendran, ambos reféns de preconceitos, regras e ditames que os impedem de viver a sua vida como desejam. Mas juntamente com eles, vamos descobrir que há muitas coisas que ambos desconhecem. Annalukshmi, a mais velha de três irmãs, destinada a casar-se em primeiro lugar,  não quer desistir de dar aulas e um dia, quem sabe, ser diretora de uma escola, mas sabe que as mulheres professoras não se podem casar.  Por outro lado, ignora que Miss Lawton, a diretora da sua escola e sua amiga, de quem ela tanto gosta, preferirá sempre uma europeia, e que é, em muitas matérias, uma pessoa preconceituosa:
   "(...) É a forma de estar Britânica. Suponho que quando se acha que se tem o direito de governar metade do mundo para seu próprio bem, é difícil admitir que se é capaz de cometer erros, que se lamenta, e que se precisa de perdão."
    Balendran, que obedece cegamente ao seu pai, e que por ele nunca assumiu a sua homossexualidade, irá por causa do seu sobrinho, filho do irmão mais velho, finalmente enfrentá-lo.
    Não querendo antecipar o fim da história e estragar o prazer da leitura, gostei do facto de o fim  das duas histórias (Annalukshmi e Balendran) não serem previsíveis nem parecerem impossíveis.

    Apesar da distância geográfica, temporal e cultural, há partes em que a leitura me recordou Orgulho e Preconceito que é, aliás, expressamente mencionado ("Isto não é o Orgulho e Preconceito, akka (...) O teu Mr. Darcy não vai aparecer por aí montado num cavalo.")
    Ao longo do livro surgem alguns nomes portugueses ou com sonoridade portuguesa, o que é surpreendente dado o tempo passado.