quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Cebola crua com sal e broa, Miguel Sousa Tavares (Clube do Autor)

    Li recentemente partes do livro Sophia de Mello Breyner Andresen de Isabel Nery. Um livro interessante que desvenda a personalidade e a vida de Sophia, para além dos muitos aspetos que são do domínio público. Fiquei com curiosidade de ler este livro sobretudo pelos cruzamentos com o anterior.     
    Mas confesso que, mesmo não sendo as expetativas muito elevadas, foi uma desilusão. Logo na contracapa pergunta o seguinte: Pode um homem viver impunemente começando a sua infância numa aldeia do Marão, comendo cebola crua com sal todas as merendas? Ora, o "menino Miguelinho" como era designado, não comia esta merenda porque não houvesse mais que comer na casa dos tios onde viveu alguns anos, mas porque gostava. Tal como gostava de comer com os trabalhadores agrícolas na casa, onde para além dos tios havia ainda o pessoal doméstico - a cozinheira, as ajudantes, as raparigas da casa (uma por cada membro da família). Fico por isso sem perceber a questão. Se queria falar da liberdade que sentia então em contraste com o ambiente que encontrou no regresso a Lisboa, comer cebola com sal não será por certo a imagem mais adequada.
    Ao longo do livro acompanhamos a vida do autor, num registo autobiográfico mas que não consegue escapar ao registo jornalístico, como quando conta que recusou a integração e demissão da função pública e daí salta para a atualidade [Trinta anos e duas falências públicas depois, constato que a base de sobrevivência do atual (2018) governo PS, de António Costa, é a disponibilidade, exigida pelos seus parceiros, para aceitar integrar na Função Pública...]. 
    Numa autobiografia o autor é o protagonista ou, frequentemente, o herói da história. Neste livro, ele é o herói não apenas por ocupar o lugar central mas porque, com raríssimas exceçoes, é isento e desinteressado, contrastando com todos os demais. 
     Nem alguns episódios que relata, como a mãe, Sophia, a recitar um poema no eléctrico  ou o eterno candidato ao trono a perguntar quem é Fernando Pessoa salvam o livro.

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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Os Sertões, Euclydes da Cunha (Grandes Nomes do Pensamento Brasileiro)

    Depois de ter lido "A Guerra do Fim do Mundo" de Mario Vargas Llosa fiquei com curiosidade de ler este livro, Os Sertões, publicado em 1902.
    Euclydes da Cunha, o autor, cobriu a guerra de Canudos como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo e mais tarde publicou este livro que fascinou Mario Vargas Llosa e outros autores, como Sándor Márai, que escreveram igualmente livros sobre esta guerra. Este último, autor de Veredicto em Canudos, depois de ler Os Sertões, disse que era como se tivesse lá estado.
    Uma amiga trouxe-mo do Brasil, tendo comprado-o no sebo (em 2.ª mão), designação tão expressiva que não carece de explicação. 
     Confesso que não foi fácil de ler e que usei o meu direito de leitora de saltar páginas. 
    Conforme é referido no Guia de leitura, no final da edição, Os Sertões faz parte do ensaio de interpretação do Brasil, daí que o autor comece por descrever a terra, o clima e a geografia, depois o homem, o jagunço e o sertanejo. É neste capítulo que descreve detalhadamente António Conselheiro, figura central desta guerra, que descreve como um gnóstico bronco, chegando a titular um subcapítulo "Como se faz um monstro". Avança então para os confrontos, descrevendo detalhadamente as quatro expedições contra Canudos.
    No final do século XIX, António Conselheiro criou no interior do estado da Baía uma comunidade com cariz religioso que rapidamente reuniu à sua volta milhares de pessoas, pobres, famélicas e descrentes do recém instaurado regime republicano. Esperavam ainda pelo regresso de D. Sebastião. Os grandes proprietários da região, juntamente com a Igreja, pediram a intervenção do exército, mas foram necessárias quatro expedições para vencer aquelas pessoas sem quaisquer meios mas unidas pela fé ou pela crença naquele homem.

    Para além da história, escrita num tom jornalístico, a parte inicial do livro está claramente datada, como quando fala do português do Amazonas, "A raça inferior, o selvagem bronco, domina-o;" ou quando conclui que "o mestiço é, quase sempre, um desequilibrado".
    Mas, a dada altura, conclui - e talvez esta seja a mensagem mais importante - que "era indispensável que a campanha de Canudos tivesse um objetivo superior à função estúpida e bem pouco gloriosa de destruir um povoado dos sertões. Havia um inimigo mais sério a combater, em guerra mais demorada e digna. Toda aquela campanha seria um crime inútil e bárbaro, se não se aproveitassem os caminhos abertos à artilharia para uma propaganda tenaz, contínua e persistente, visando trazer para o nosso tempo e incorporar à nossa existência aqueles rudes compatriotas retardatários."

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domingo, 26 de janeiro de 2020

Longa Pétala de Mar, Isabel Allende (Porto Editora)

    O primeiro livro que li de Isabel Allende, "A casa dos Espíritos", foi também o primeiro livro desta autora a ser publicado. É um livro mágico. Os livros que se seguiram, "De amor e de sombra", "Eva Luna", "Contos de Eva Luna", "Retrato a sépia" e, mais tarde, "A ilha debaixo do mar" são igualmente apaixonantes, mas já não têm a originalidade e a frescura do primeiro. Dela li também o livro "Paula", que me marcou enormemente. Como muitas pessoas em todo o mundo fiz o luto por esta filha e, hoje, muitos anos depois de o ter lido, ainda me lembro de pequenos detalhes dos últimos momentos da Paula, como se os tivesse vivido verdadeiramente.
    Isabel Allende publicou entretanto outros livros, que não li, porque, depois de os folhear ou ler as primeiras páginas, preferi guardar a memória intacta dos primeiros livros dela, contudo, quando li a sinopse deste "Longa Pétala do Mar" fiquei com vontade de o ler.
    No Natal, os meus filhos ofereceram-mo. Li-o avidamente. Queria saber o que acontecia a cada uma das personagens, entre guerras, exílios e amores, mas não me apaixonei pelo livro como aconteceu com os primeiros livros.
    Só conheci esta história recentemente, por causa do livro, mas também por se terem celebrado os 80 anos da viagem, organizada por Pablo Neruda, que transportou até ao Chile, no navio Winnipeg, dois mil espanhóis republicanos em fuga perante a vitória iminente do exército franquista. Pablo Neruda considerou esta viagem dos refugiados no barco Winnipeg o seu mais belo poema.
    A história só por si é fascinante, a viagem e a chegada ao Chile, onde são recebidos como heróis, destes refugiados que tinham vivido e muitos participado na guerra civil em Espanha e, anos depois, do outro lado do Atlântico, assistem ao golpe de Pinochet e à repressão que se lhe seguiu. Alguns terão vivido então um segundo exílio.
    O livro narra a história de Victor Dalmau e Roser Bruguera, viúva do irmão de Victor, que depois de fugirem separadamente para França se reencontram e se casam para poderem embarcar no Winnipeg. Chegados ao Chile conseguem refazer as suas vidas e, apesar de ambos se apaixonarem por outras pessoas, mantém-se juntos, criam o filho de Rosa e terminam por viver uma história de amor.
    Há no livro uma mensagem de esperança, porque apesar de Victor e Rosa terem vivido a guerra civil de Espanha, chegado como refugiados ao Chile de onde terão anos mais tarde de fugir para se refugiarem temporariamente na Venezuela, conseguem regressar ao Chile e, entretanto, assistir à morte de Franco. De alguma forma,  é como se fosse dada a garantia que, por piores que sejam, estes períodos negros têm sempre fim ou, como diz Isael Allende, citada na contracapa, "se vivermos o suficiente, todos os círculos se fecharão".
    Confesso que achei curioso que o amor entre os dois protagonistas, sobre os quais poderíamos dizer que viveram felizes para sempre, foi um amor fortuito, fruto das circunstâncias, mas que sobreviveu ao tempo e até a paixões vividas por ambos.
     Não roubei nenhuma frase, o que deve ser a primeira vez que acontece num livro de Isabel Allende, mas, pela história que conta e as memórias que encerra, vale a pena ler.   
   
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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A Casa Eterna, Hélia Correia (Publicações Dom Quixote)

Hélia Correia "@ Clube de Leituras"
    É muito difícil escrever sobre um livro que se leu lentamente para apreciar cada frase, cada parágrafo. Um livro que me causou uma inveja tremenda. Gostaria tanto de ter sido eu a escrevê-lo. Ou pelo menos algumas partes:
    "(...) Esta casa que eu tanto imaginara, querendo ver levantados os cheiros, as paredes, circula no entanto como um redemoinho de pós e de bolores em torno das chinelas de Perpétua. O que quer que existiu aqui já está desfeito. Não houve tempo para que a podridão tratasse dos lugares a seu modo, um por um, conforme os usos, conforme as horas que lhes foram dedicadas. É um corredor velho e sem memória. Está reduzido à sua própria sombra." 
    Se dividir o livro, as suas 242 páginas, pelos dias que levei a lê-lo, terei menos de dez páginas por dia. E apesar da lentidão com que o li, quando cheguei ao fim, pensei que não sabia exatamente a história que me era contada. Porque n'A Casa Eterna o mais importante são as pessoas, as pequenas histórias, e por elas vamos saindo,  desviando-nos do propósito que nos levou a Amorins, com a narradora, procurando o rasto de Álvaro Roíz, escritor, que regressou à sua terra natal, de onde saíra há muito, para morrer: 
    "(...) Levei tempo a sair dos Amorins, disse Álvaro. Ninguém deve sair tão devagar, sem abrir de uma vez o seu portão, sem transportar a maior parte de si mesmo na primeira, na única viagem. Se não, corre-se o risco de ficar pelo caminho. De se gastar a alma a ir e a vir até que já nenhum lugar faça sentido."
    E ela, a narradora, vai falando com as pessoas da terra para que lhe contem o que recordam dele:
    "(...) Filomena Caréu acelera os enlaces da linha na agulha, depois pára e repousa os dedinhos inchados. Vai demorar-se em Álvaro Roíz. Vai mentir. As mulheres, quando recordam, nunca resistem a passar uma demão. E eis uma juventude posta em palco, iluminada, toda imersa em rendas."
   No final, a narradora, a amiga de Álvaro que herdara o seu gato persa Zaratustra, consegue chegar aos últimos momentos de Álvaro, acompanhado por Ruço que o foi deixar à beira da represa:
   "(...) Viu que ele sorriu antes de se encostar na grande maciez, no lombo acolhedor, e adormecer."
   A parte boa de só agora ter descoberto a escrita de Hélia Correia é o ter vários livros dela para ler.

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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

O General e o Juíz, Luís Sepúlveda (Edições Asa)

    Em 1998 Pinochet foi preso quando se deslocou a Londres para ser submetido a uma cirurgia. Como era Senador pensava ter imunidade diplomática.  O juiz espanhol Baltazar Garzón aproveitou a situação para emitir um mandado internacional de prisão e solicitou sua extradição para a Espanha, na sequência de uma queixa apresentada pelo seu envolvimento na Operação Condor, que se destinava a perseguir e eliminar opositores de várias ditaduras sul-americanas (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Uruguai e Paraguai). 
    Pinochet esteve 503 dias detido, ao fim dos quais o Reino Unido não autorizou a sua transferência para a Espanha. Foi durante este período que Luís Sepúlveda publicou estas crónicas. Como escreve no texto inicial, reconhece com amargura que apesar de Pinochet não ter sido extraditado para Espanha, os artigos foram apreciados "(...) pelos que sofreram, pelos que sofrem, pelos que ainda mantém a esperança e não se cansam de afirmar que um outro mundo é possível."
    Ao longo  dos 22 artigos fala na sua experiência pessoal e familiar (em especial do filho Carlitos que, com 8 anos, teve de sair do Chile como refugiado), mas também na de muitos outros, presos, torturados, mortos ou dados como desaparecidos:  "(...) enquanto o Chile não recuperar o último dos seus desaparecidos, enquanto não se souber quando morreu, como morreu, quem foram os seus assassinos e, sobretudo, onde estão os seus restos mortais, a ferida permanecerá aberta, e é missão dos homens decentes mantê-la limpa e aberta, porque essa ferida é a nossa memória histórica."
    Relata também o momento exato em que soube da detenção de Pinochet: Que notícia memorável. Ofereço-lhe o que eu não tive, o que nenhuma das suas vítimas teve: pagar-lhe um advogado que o defenda e lhe garanta um julgamento justo, com respeito pleno pela sua integridade.
    A maioria dos artigos fala sobre o esquecimento (alzheimer político) decretado relativamente ao sucedido entre 1973 e 1989, e defendido por outros dentro e fora do Chile, como foi o caso de Felipe González. 
    Impressiona a escrita poética nalguns momentos como se fosse incompatível escrever desta forma sobre o horror. Sepúlveda no seu último artigo explica porque escreve:
    "(...) Não sou dado a perder-me nas velhas dúvidas que mortificaram e fizeram pensar os antigos filósofos, nem a sentir outras dúvidas além das necessárias para avançar no único caminho que sinto possível e que é o da escrita, essa barricada onde aportei quando já todas as outras tinham explodido, chegando a pensar que já não havia nenhum lugar possível para a resistência."

    Quando acabei de ler o livro, voltei a folhear o livro CONDOR de João Pina, com introdução de Jon Lee Anderson e posfácio de Baltasar GarzónComo é referido na introdução "É o lado "esquecido" deste episódio da história contemporânea que este magnífico e inquietante livro de imagens de João Pina procura evocar. Nas fotografias de familiares, de lugares de execuções e câmaras de tortura, ou de lugares onde as pessoas desaparecidas foram vistas pela última vez - e nos rostos emocionados das suas mãe, pais, filhos e amantes - João Pina encontra um sentido epitáfio para as pessoas cuja vida lhes foi roubada em segredo, cujos corpos foram feitos desaparecer e, por vezes, cuja própria existência foi deixada em dúvida."

    E para mim é quase impossível falar do golpe de Pinochet de 11 de setembro de 1973 e não lembrar Vitor Jara a cantar  El derecho de vivir en Paz. Jara morreu poucos dias depois, torturado, no Estádio Chile, em Santiago.

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domingo, 22 de dezembro de 2019

Os livros que lemos em 2019


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

A Spot of folly, Ruth Rendell

    Quando estamos assoberbados de trabalho não há nada melhor que ler um policial. Pelo menos para mim e especialmente quando a autora é Ruth Rendell. No caso não se trata de uma história apenas mas de 10 histórias e um quarto de homicídio e caos (Ten and a quarter new tales of murder and Mayhem).
    Como em todas as coletâneas, há contos melhores que outros. Uma referência particular ao primeiro conto que tem apenas quatro linhas e meia e funciona, isto é, é verdadeiramente uma história, até com efeito final de surpresa.
    O livro tem uma introdução interessante, de Sophie Hannah, em que nos fala da importância que os livros da Ruth Rendell tiveram durante os primeiros anos de faculdade. Conta também que numa apresentação que a autora fez falou da importância de agarrar o leitor desde a primeira linha. Como tenho a mania de ler a introdução depois de acabar de o livro respetivo, fui logo reler as primeiras linhas de cada conto, e é inegável que ela respeita esta regra:
Matei a Brenda Goring pelo que suponho seja o menos comum dos motivos ou Não vão acreditar nisto, mas na segunda-feira passada tentei matar a minha mulher ou 
A primeira vez que Polly roubou alguma coisa tinha oito anos de idade
    Não esgota a fórmula na primeira linha, bem pelo contrário, obrigando o leitor a prosseguir a leitura até ao desenlace.
    Nos seus contos utiliza personagens estranhas cujos comportamentos não antecipamos, nem compreendemos, nem sequer simpatizamos. Não estamos do lado dos bons ou dos maus porque não sabemos quem são uns e outros ou porque rapidamente um se pode transformar no outro.

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